..:namespace prefix = o ns = "urn:schemas-microsoft-com:office:office" />
Alma migrante
Destaque da nova safra de cantoras brasileiras,
Marina de ..:namespace prefix = st1 ns = "urn:schemas-microsoft-com:office:smarttags" />la Riva conta a incrível trajetória de sua família, que
começa na Europa, vira realidade em Cuba e desabrocha no Brasil.
Gostaria de saber o que pensam os imigrantes
no momento exato que decidem partir. A esperança vestida de coragem sobrepujando o medo.
Sou de uma família que vem mudando de terra desde o século 17 –
da Alemanha para Cuba, da Espanha para Cuba e de lá para os Estados Unidos e depois para o Brasil. Sempre me questiono o que os moveram. Certamente tinham suas próprias razões. Ditas pelo silêncio e confirmadas pela migração. São muitos os caminhos que os levaram à plataforma, ao trem, ao porto.
No século 19, partiu de Santander, na Espanha, com
destilo à ilha
de Cuba um comerciante de nome Ramiro de la Riva.
Vivendo pelas
bandas caribenhas, conheceu una señorita muito
mais nova, Elvira,
cujo pai concedeu-lhe a mão em casamento, contra a
vontade da moça,
que tinha outra paixão. Do enlace entre Ramiro e
Elvira nasceram vários filhos, entre eles, Fernando.
Ramiro morreu, deixando Elvira e a prole desamparadada. Na falta de sopa, única comida da casa, ela pedia à padaria que lhe desse molho de tomate para alimentar os filhos. Nessa dureza se criou Fernando, que aos poucos tornou-se arrimo de família. Que além de exímio atleta,
conseguiu se formar em Direito. Um dia, jogando futebol americano, teve um grave acidente. O médico lhe colocou de cama por seis meses.
Para a mesma ilha, só que dois séculos antes, saiu de Hamburgo um
armador de sobrenome Averhoff. Tornou-se o
primeiro cônsul alemão da colônia espanhola e entre seus feitos, está o Jardim Botânico de la Havana – consta que ele mesmo
regava as mudas de árvores que trazia em suas longas viagens para plantar no Jardim. Mariano também morreu cedo, deixando viúva e filhos. Entre eles Octavio Averhoff y Plá.
Que para poder estudar, como não tinha dinheiro para
comprar livros, passava todo o tempo na biblioteca pública. O
empenho valeu a pena: aos 19 anos, tornou-se o mais novo professor de
Direito Romano da Faculdade de La Havana, cargo de muito prestígio
na época.
Também da Espanha com destino à Cuba, mais
precisamente de Barcelona, saiu uma numerosa família, de sobrenome
Sarrá. Os Sarrá chegaram à ilha "de alpargatas", como eram
chamados os espanhóis de poucas posses que aportavam em busca de
prosperidade. O pai, José Sarrá, um químico genial, escolheu um terreno em Havana que, segundo seus conhecimentos químicos, tinha uma fonte de água mineral muito especial. Ali instalou sua pequena botica e, no andar de cima do prédio, a família. Trabalhava noite e dia e aos poucos consegiu se estabelecer. Comprou o quarteirão inteiro, abriu uma loja de departamentos. Mandou a filha caçula e predileta estudar em Nova York, fato absolutamente incomum para a
época, num colégio para moças – as pouquíssimas cubanas que estudavam só o faziam com tutores em casa. Celie Sarrá Hernandez era cheia
de energia e questionadora. A mãe, muito controladora, não
gostou nada. Mas ela foi, expandiu o pensamento (foi até sufragette) e voltou quando o pai morreu.
Celie conhece Octavio e apaixonam-se, contra a
vontade da mãe despótica de Celie, casam-se. José havia dado em vida uma casa a cada filha.
O que salvou o casal, já que a mãe de Celie
tinha o hábito de deserdar seus filhos por pequenas discórdias
domésticas, "por no portarse bien" – ainda que
depois voltasse atrás. Numa dessas idas e vindas,
a mãe morre, deixando Celie, ironicamente a predileta do pai,
sem herança nenhuma. O casal prospera e tem três filhos. Nasce Aleida Sarrá Averhoff, que mistura a curiosidade da mãe com a rigidez do pai. Alva, olhos muito escuros e profundos, era comportada e levada ao mesmo tempo.
Estudou em Briacliff, Nova York, montava a cavalo, tocava
piano, violão, pintava, escrevia, falava cinco línguas, adorava
moda, tinha seu próprio carro, "una mujer completa".
Um dia uma amiga convidou Aleida para visitar um
conhecido seu, grande atleta, que estava convalescendo após um
acidente. Era Fernando de la Riva, um moço de olhos verdes
de mar, cabelos pretos e um pouco triste, apesar de simpático. A
afinidade foi imediata, e Aleida ofereceu-se para levá-lo a passear no dia seguinte, para tomar um ar. Fernando aceitou e, entre o
mar e o Malecón, se apaixonaram. Queriam ficar juntos, nunca mais se
separar, o problema era contar à família dela, tradicional.
Fernando a pediu em casamento, para horror dos Averhoff, que não
viam com bons olhos a diferença social. Aos poucos, com seu carisma
inigualável, foi aceito. Aleida e Fernando casaram-se em 26 de
dezembro de 1932. Ano agitado, tensão política no ar, a cerimônia
aconteceu dentro de casa. Partiram para a lua-de-mel em êxtase, uma
princesa e um guerreiro apaixonados. Na volta, Aleida e Fernando
vão morar em Rancho Veloz, salina que era seu ganha pão. Viviam em uma casa muito simples, de madeira e sapé, quase sem móveis.
Aleida descobriu árvores caídas e as transformou em cadeiras e
mesas. Aleida engravida, nasce o primeiro filho, "varón", também
Fernando, celebrado e cuidado a maior parte do
tempo pelos avós Octavio e Celie. Depois veio uma menina,
Aleidita.
A vida seguia, Fernando era um trabalhador
incansável e genial. Tornou-se um dos homens importantes da economia cubana. Um de seus amigos, grande engenheiro açucareiro, morria de medo de avião. E para fazer projetos com
ele, só indo a Cuba. Foi assim que Fernando
conheceu alguns paulistas, da família Morganti.
Os Morganti ofereceram à Fernando um negócio no
Brasil, no interior do Rio de Janeiro, um engenho que estava
à venda. Ele se interessou, mandou enviados de confiança para
verem de perto a história e fechou negócio. Estava muito ocupado
com uma fábrica de papel que acabara de construir – papel reciclado,
de bagaço de açúcar. Era um visonário, definitivamente. Mas não a
ponto de prever que as novas turbulências políticas iriam mudar
Cuba para sempre. A revolução se instalou, dando uma nova ordem de
não-propriedade e violência em nome da ideologia.
Fernando embarcou Aleida e filhos para a Flórida,
enquanto os Averhoffs seguiram para o México. Ele ficou em
Cuba. Ao tentar enviar por mar um carregamento de açúcar, de sua
própria produção, para sustentar a família, foi traído e entregue
aos revolucionários por um amigo muito intimo. Fernando sofreu as conseqüências,tentou continuar na ilha por mais um tempo, mas
terminou deixando Cuba para encontrar a família na Flórida.
Conseguiu dinheiro emprestado com um banco e alguns amigos, entre eles Henry Ford e o espanhol Ignacio Fierro. Comprou um terreno apropriado, reuniu conhecidos exilados e iniciou a construção de uma nova usina, "Talismã". Que por definição já dizia tudo, era a esperança de muitos. Trabalharam com determinação, dia e noite, sonhando moer os primeiros pés de cana já no ano seguinte. Mas o destino não pensava igual, uma grande geada se abateu sobre os campos de cana, em ponto de corte e perdeu-se uma safra inteira.
O sonho foi desfeito. Fernando, arrasado outra vez, vendeu tudo
para honrar seus débitos. Transformava outravez raiva em
vontade de vencer quase que por orgulho. Mais tarde
diria que a vida era dura, mas que ele era muito
mais duro que a vida.
Decidiu ir para o Brasil dar atenção ao engenho
falido que havia sido comprado por sugestão dos Morganti. Foi parar
em Baixa Grande da Leopoldina, distrito no interior do Rio. Tomou
posse de sua propriedade, arrumou a casa, conseguiu móveis em
uma fábrica e ligou para Aleida de um posto telefônico. Pediu
para que ela comprasse as passagens com o dinheiro que deixara,
bastava fazer as malas e embarcar para o Rio de Janeiro com os seus
filhos. Aleida concordou, mas parecia triste e preocupada.
Desligaram o telefone.
Quinze minutos depois, Fernando recebe uma
ligação. Aleida havia sofrido um ataque cardíaco e morrera. Por essa ele não esperava.
Esmagado pela emoção, volta aos Estados Unidos
para o funeral da mulher, recolhe sua vida mais uma vez e embarca para o Brasil com os filhos. É o ano de 1964.
A vida é sempre um recomeçar, e isso é muito claro
para os de la Riva. Fernando filho se apaixonou por uma
brasileira, mineira, orfã de pai. Margarida Maria tornou-se o elixir dos de la Riva. Flor por natureza, alegre e fervorosa, coloriu a vida dos imigrantes, oferecendo à casa triste a vivacidade de comidas
brasileiras, plantas e frutos. Frutos em vida, netos. Éramos cinco
crianças. Crescemos na mesma casa, cheia de saudades
caladas, imagens, livros, fotos, cheiro de charuto e música.
Fernando agora é avô, o outro é pai, Margarida é a
flor. E eu sou Marina de la Riva, um dos frutos. Meu avô querido,
que me ensinou muito, dizia sempre que a única coisa que não se
pode tirar de um homem é o que ele é. E mordendo seu charuto de lado,
apertando os olhos para que não vissem sua emoção, contava que
a única perda que realmente lhe esmagou foi perder Aleida.
Volto a pensar nos imigrantes, suas decisões e como afetam o mundo. Penso em música, volto ao porto. Nosso porto de todo dia.