MySpace
myspace music


Jorge Cruz



Last Updated: 9/3/2009

Send Message
Instant Message
Email to a Friend
Subscribe

Country: PT
Signup Date: 5/22/2007

Blog Archive
[Older      Newer]
 /  / 
December 3, 2007 - Monday 

Na berma da estrada a brisa sopra a sua canção em movimento, não inunda o mundo, reconstroi-o ao revelar-se num suspiro, densa e amordaçada, aninhada como uma raposa entre silvas, urgente e insignificante como a vida de uma borboleta que sobrevoa bosques, aldeamentos, igrejas e campos de batalha e se mistura em formigueiros urbanos para contornar um bilião de faces com a sua solene indiferença, leve, dolente, alegre e cansada, a brisa segue impávida na berma da estrada, sem distinguir virtudes de defeitos mas a aprumar danças sobre estradas vazias e campos silenciados, a agitar com prazer folhas soltas a cada curva, a visitar sem descanso as casas dos abandonados, dos mortos de frio, daqueles que se untam em febre e afirmam conhecer a verdade, dos vigilantes, dos infâmes, dos homens de queixo caído que atravessam ruas escondidos debaixo de chapelões antigos, dos queimados por cigarros, daqueles que passam por todos os ofícios, dos que nunca se repetem, dos que não vergam, não imitam, nem se vestem de papagaios para ir festejar o carnaval ao bairro alto, dos que assustam, desesperam nas esquinas e falam com cartazes brilhantes nas paragens de autocarros, dos que falham, matam e se arrependem, dos que dormem debaixo de chuva e tomam banhos nus em lagoas desconhecidas, dos deserdados, dos tristes e malfadados, dos que guardam três segredos, dos anões e dos gigantes, dos iguais a si próprios, dos que não pertencem a nada, dos que não têm preço, dos que não hesitam em vender-se por cinco escudos, dos sem pátria, invadidos por exércitos de ratazanas, que avançam pachorrentemente na berma da estrada onde a brisa corre serena sem sentido nem desgraça, sem dó nem desprezo, sem esperança nem vaidade a levantar a poeira de uma canção que não se ouve mas fala aos ouvidos da humanidade com a melodia que as aves e os esquilos facilmente reconhecem, a melodia triste e misteriosa que conforta o velho guru da constituição, esparramado num banco de jardim, de barriga nua e óculos de sol côr-de-rosa, que nos visita depois de atravessarmos o deserto sozinhos, pedirmos para ser salvos, pensarmos que morremos e finalmente desistirmos, exaustos e atentos, prontos para escutar a melodia simples e assombrosa que é no fim de contas a da nossa própria voz, a voz na qual repousa o tempo e tudo aquilo que conhecemos, a voz em movimento que observa a vida com a aceitação fanática de uma chita do quénia avançando sobre a savana em absoluta liberdade e obstinação, que nos chama e nos escapa, que nos foge mas à qual não poderemos fugir, tal como não fugiremos a sermos os elefantes, as libelinhas, os bandidos profetas, os bardos embriagados que celebram nas margens do rio, ao som de canções de amor e de perda, os rumores da guerra distante que nos afaga sem nos tocar como um golpe de comédia no átrio real encenado pelo bobo mal vestido, rasgado e vencido, que desce as escadas rumo à taberna e murmura para si próprio o que nunca virá a saber-se.