Entrevista falada pro Jornal Tribuna Lençoense transcrita na íntegra por Cristiano Guirado.
O Monumental Caipira
...
Antes da entrevista, um café com leite e cigarro. Eram quase 15, e ele tinha acabado de acordar. Liguei meia hora antes pra avisar que ia atrasar mais meia hora. Certamente ele aproveitou pra tirar mais um cochilo. Dez minutos antes de ir, ele me liga.
- Cara, você faz um favor pra mim?
- Diga
- Traz um Hollywood vermelho?
Depois do café e uma ajeitada no cabelo, já sabendo que seria fotografado, ele teve suas idéias:
- Vamos tirar uma foto consertando a máquina de lavar – sugeriu.
- Podemos até tirar, mas não vai sair no jornal.
Entramos. O cantinho de Rafael Castro é um quarto/suíte/ estúdio, onde a cama divide espaço com os instrumentos musicais que coloca em suas músicas. Detalhe: ele grava cada voz, cada ritmo e cada acorde de sua produção musical. Tudo direto no computador, e do PC para a internet, onde divulga sua produção.
A entrevista foi para falar do festival da Trama Virtual, onde ele emplacou o segundo lugar, com a música "Fobia Aguda de Pessoas que Batucam Mal", do CD "Combustão Espontânea", lançado em 2007.
JT: Como foi essa aventura do festival da Trama?
RC: Rolou o concurso, apareceu uma garota e disse, "oi pq você não se inscreve, a gente quer ver você tocar aqui". Nunca tínhamos tocado em São Paulo. Me inscrevi e a música foi selecionada para ir para a votação popular. Ficou em segundo e a gente foi tocar lá dia 10 de julho. E foi massa, foi gostoso, o pessoal já conhecia as músicas. Outras pessoas ficaram com ar de surpresa, mas foi bem divertido, até saiu uma resenha depois, que eu publiquei no Myspace, caso ajude a complementar a matéria...
JT: Você não foi processado ainda por uso indevido de imagem?
RC: Não, não. A Sabesp é tranqüila, uma empresa tranqüila...
JT: Você acha que esse resultado no festival pode ser um caminho para a incursão no mercado da música, que é tão cruel, pelo menos com os bem intencionados?
RC: Esse negócio de mercado é meio esquisito né cara? Não tem mercado rock, não existe isso daí. Mercado rock de verdade não vende mais nada. Tem bandinhas assim de garotos bonitos, e eu nunca fui um garoto bonito, nem que eu quisesse não ia rolar. Mas não tem, ninguém vende disco assim, ninguém funciona nessa idéia de fazer música bacana e tocar por ai.
JT: Como é a sobrevivência pra quem tem um som diferente?
RC: Tem que inventar uma grande parada, uma parada monumental, faraônica. Inventar um monte de mentira, que seja os novos Mutantes, ou ser apadrinhado por alguém, inventar um circão daqueles pra tentar agradar alguém que forme opinião e que construa alguma estrutura de que música de verdade e não uma banda de rock. É a imagem da banda de rock que está falida.
JT: Falar em bandas falidas, como foi a chegada aos Monumentais? O SuperQuase não deu certo, ou deu certo e teve seu prazo...
RC: Ah cara, o lance do Superquase é que tava todo mundo louco. O Marcelo fazendo faculdade, o Fi também. Tem que ir, voltar, aí o Jonas engravidou a menina, e rolou a coisa de não ter tempo de ensaiar nem de fazer nada. Achei que era melhor parar, se não ia ficar perdendo tempo, ficar fazendo ensaio à toa. Se rolasse de tocar por ai e tal, às vezes um ou outro não ia poder ir, então não tinha porque continuar. Terminei com a banda e comecei a fazer acústico com o Cleiton, e sempre que ia tocar nego ficava pedindo minhas músicas. E não era a idéia na hora que tivesse fazendo acústico, não é todo dono de bar que conhece a gente. Depois comecei a pensar em fazer um projeto menor que uma banda, algo pequeno, só pra tocar meu som em lugar que nego pede. Eram férias, o Fi tava de boa, o Marcelo também, e resolvemos fazer um triozinho, alguma coisa despretensiosa pra tocar em algum lugar só pra divertir até acabar as férias. Juntou e foi da hora, deu certo. A sonoridade ficou interessante em três, com muita energia e tosco. Às vezes as músicas têm um puta arranjo, e em três rola só energia. Os shows que fizemos na Barra Bonita foram bem legais e cismamos. Começamos a trocar idéia com o Wander, que mora em São Paulo e toca também. Fomos morar lá, os quatro morando em uma quitinete. Ficamos uns três meses lá e não deu nada certo. Voltei, mas os contatos que fizemos acabaram rolando agora, e estamos fazendo os shows e tal.
JT: Ali na mesa do café você fez uma análise interessante de sua passagem pela capital...
RC: Incubadora de glamour. Você não ganha nada, mas reserva alguma coisa.
JT: A divulgação do seu trabalho é muito específica. Você nunca tocou nas rádios, na TV, não deu entrevista nos jornais nem nada.
RC: Só internet, o "Sabesp" aí.
JT: Onde estão seus maiores públicos?
RC: Tem bastante público em Lençóis mesmo. Em São Paulo, de tanto ficar tentando fazer show lá. Em Campinas tem um pessoal que gosta... estão espalhados por ai.
JT: Existe alguma estratégia pra você solidificar isso em forma de carreira musical?
RC: Na real deve ter várias coisas, mas se pá não pode nem falar. Tem uns caras de olho, querendo trabalhar o negócio e querendo até botar uma grana, e não pode falar quem é, até rolar. Depois que rolar até falo. Eu estou trabalhando em uma empresa de mídia, e o dono dessa coisa é ex-presidente de uma grande gravadora, então é um contato possível. Nas horas vagas que eu não to folgando eu sou analista sênior de gambiarra pra essa empresa. Cada um dos cabeças cuidam de uma parte: vendas, tecnologia, programação, hardware, conteúdo, documentação. O lado que aperta eu vou.
JT: Em 2003 saiu o primeiro CD, aquele com a música da estratosfera. Você esperava essa aceitação? Queira ou não você pirateou e vendeu seus CDs para mais de 200 pessoas.
RC: Foi. O primeiro disco oficial ali é de 2004, e foram cinco CDs de lá pra cá. Em 2003 começou com o cdzinho com a galera vendendo. Depois não tinha mais pra quem vender e fiquei só no virtual mesmo. É, funcionou. Não sei se esperava. A gente sempre espera que role algum negócio quando você está fazendo. Acontece de nego me parar na rua e falar "ô, você que é o Rafael Castro?".
JT: Você tem um jeito peculiar de fazer CD....
RC: Será que é peculiar? Eu sento e começo escrever e gravar. Gravo uma depois a outra... Dominar, dominar, não domino nenhum instrumento, mas o que eu uso na música são os que estão nesse quarto: violão, guitarra, baixo, teclado, cavaquinho, gaita. Às vezes tem uma caixinha de fósforo, um balde, alguma coisa.
JT: Continua produzindo?
RC: Estou fazendo dois ao mesmo tempo agora. Um que chama "Maldito", que a idéia é fazer algumas músicas realmente estranhas, pra ninguém gostar. E tou fazendo um sertanejo também. Um sertanejo mais sertão mesmo, na real.
JT: Já tem data pra lançar?
RC: Não tem cara, nunca tem. Quando eu canso de fazer, vejo que tem umas 12 músicas e não tem mais idéia, fecho um pacotinho, faço uma capinha bonitinha, e aviso a galera pelo Orkut, Msn, Myspace e tal.
JT: O que você tem ouvido ultimamente?
RC: White Album e Abey Road, os dois dos Beatles. To gostando, entendeu? Ta funcionando, eu ouço pra fluir a coisa. Acho que estou me inspirando com isso agora.
JT: Qual é a sua formação musical?
RC: Com seis ou sete anos fazia aula de piano clássico, até os 10 anos. Mudei pra Lençóis e parei de fazer aula e ir pro violão, algo mais popular. Eu cito como influência Mutantes, Jards Macalé, Juca Chaves, Jorge Mautner... Raul eu considero também uma influência.
JT: Ajuda ou atrapalha um cara com idéias como as suas em uma cidade como Lençóis Paulista?
RC: E se eu falar que ajuda? De repente, em São Paulo, ia parecer porra louca demais... de re pente por ser do interior o povo diz "olha, lá em Lençóis tem um lance assim...", desperta uma curiosidade. Igual o cara escreveu na revista da Trama, "Lá em Lençóis em Paulista, há 300 quilômetros da capital, vive um cara de bem com a vida" (risos). Acordo três horas da tarde! Muito de bem com a vida! Se pá, o cara paga pra escrever na Trama, é muito falida a Trama. O pessoal é muito preguiçoso, não pára pra ler, pra ouvir, e sai fazendo perguntas.
JT: Diz a lenda que todo artista tem algo que perturba a cabeça naquele momento de criação. O que tem te perturbado?
RC: Nossa velho, que pergunta pessoal, hem? Não vou saber dizer. Tanta coisa que não tem nada a ver com música; Mas na verdade as músicas saem de perturbações, quando tá rolando perturbação sai uma música nova. É só ouvir as músicas e estão lá todas as perturbações. Tem um cara construindo uma casa aqui do lado, é perturbação o dia todo, sete horas da manha ele começa, e meu pai tem mania de ficar espantando passarinho. É uma perturbação constante e prolongada.
JT: Você vai participar de mais festivais?
RC: Não quero mais participar de festivais. Esse daí da Trama a gente não precisava fazer porra nenhuma, era só inscrever a música. Você colocava a música e se nego votasse a gente ganhava. Agora, festival que tem pagar inscrição, ir lá não sei onde pra tocar, e tem eliminatória, semifinal, final. Acaba gastando tempo e dinheiro pra caralho, e sempre tem um amigo do cara que organiza que vai ganhar. Ladroagem isso. Não vale a pena festival nenhum, não recomendo pra ninguém.
Depois da entrevista, saindo do quarto/estúdio, ele cobra:
- Porra, aquelas fotos concertando a máquina não vão rolar mesmo, né?
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