"Vamos directos: são cinco músicos italianos residentes em Portugal, que decidiram juntar-se para explorar o cancioneiro do seu país natal. Nas palavras deles: «Anonima Nuvolari afunda as suas raízes na música popular e consiste numa viagem através dos últimos 50 anos da canção italiana». Renato Carosone (1920 – 2001), Fred Buscaglione (1921 – 1960) e Adriano Celentano (n. 1938) são nomes do passado que são tão irrequietos nas goelas de quem lhes conhece as melodias agora, como o eram nos seus tempos de entusiasmo. Paolo Conte (n. 1937) e Vinicio Capossela (n.1965) – este bem mais novinho –, também caminham nos braços deste quinteto-lâmpada.
Cinco: Calimero Nuvolari (voz e acordeão), Mick Nuvolari (voz e guitarra acústica), Xiamma Nuvolari (sax), Ciccio e [ou] Jamaica Nuvolari (contrabaixo), e Benja e [ou] Paolo Nuvolari (percussão). E de novo a palavra aos rapazes, antes de encher o prato com a delícia das cores, a explicar os porquês do grupo: os músicos «juntaram-se com o objectivo comum da recuperação e valorização do património musical italiano na sua vertente mais alegre e dinâmica». Lê-se isto tudo no sítio oficial Anonima Nuvolari. Apresentados, adiante.
Não há idade para a festa Anonima Nuvolari: o povo é dança.
Esta malta está pejada de simplicidade e alegria, e não possuem quaisquer pruridos em contaminar – aqui, sim: fatalmente – todo o mundo em redor. Que é achatado, não é redondo – já sabemos há muito –, não é perfeito. Mas quem se importa? Desde que as nuvens e o chão reflectido das nossas próprias mãos se misturem numa malga de sopa que as crianças, os pais, os primos, os genros, os netos, os avós, os tios e os amigos agarram com o entusiasmo da partilha. Lembrem-se: do meio da rua. Para todos: no passeio, na estrada, na varanda, à porta, à janela, mortos do trabalho, preguiçosos, prostitutas, dissidentes, snobes e encantados – todos!
O silêncio só deveria ser furtado a partir das cavalitas destes rapazes. Embebedai-vos, dir-vos-ia Baudelaire. De vinho também, sim: tinto! Mas sempre com música e poesia, com o arco-íris nas mãos e as lágrimas nos pés, com os corações sempre grávidos. Com a noite a entrar aberta pela rua, indigente. Sem o insosso fado do cansaço. (Quem não dança Bella ciao?) Com a bola de trapos na barriga e o correio azul no nariz. O silêncio. Esse menino órfão de roupas rasgadas a entrar pelos centros comerciais, pelos palcos enormes, defuntos do próprio jogo de holofotes. Vai perdido, com fome. Mas quando se abre uma garrafa destas, não há mais que acenar devoção, agradecer com um obrigado apertado e regressar incondicionalmente às vossas passadas." (Hugo Torres - Rascunho.net -10/10/2007)