Caros cúmplices, aqui vos deixo uma carta de despedida em três actos.
Falo-vos de Escancarada Boca Negra Vermelho Sangue como sempre o fiz e só assim o sei fazer:
O SANGUE
Cantar para mim ou fazer música para mim nunca foi um hobby. E para fazer algo honesto aqui ou noutro campo tem que haver necessariamente paixão. Um hobby é aquela coisa que se faz porque nada mais se tem para fazer… é giro… faz-se… vai-se fazendo…
Da paixão e de outros demónios já não podemos encaixar na mesma medida epicurista. É aqui que esta se torna em trabalho. Trabalho, responsabilidade, concentração, verdade última a ser assegurada. Neste sentido namoradas, jantaradas sociais, alheios compromissos matrimoniais e outras que tais (a preguiça também) não estão à frente da música, nem de nada que se queira fazer realmente na vida. É uma questão de objectivos e prioridades. É a diferença em vencer ou fingir que se vence. Não sou pessoa para suportar derrotas ou atitudes derrotistas. Não gosto disso.
Fico contente de ter tocado pelo país fora, de ter proporcionado concertos na Festa dos Estudantes da cidade na qual estudo aos outros quatro conimbricenses com quem toquei. Fico feliz por ter feito isto acontecer… contactos, modelos, designers, fotógrafos, músicos, duas religiosas idas diárias ao gmail e outras demais ao myspace. Chatear, furar, teimosear num país onde poucos apoios existem e mercado ou sítios para tocar parecem escassear cada vez mais.
É aqui que toda uma energia dispendida não estava ser recompensada para mim. Tenho mais vida para além dos Cynicals e uma banda digna desse conceito não pode ser largada 80% nas costas de um só. Quero sair, já há tempos que não me sinto feliz, ando esgotado e já nem artísticamente me sinto estimulado. Não se trata só de fazer uma música à gogol bordello, outra à hives ou outra à ornatos. Há que haver personalidade, estímulo e cumplicidade, de outra maneira ou não resulta ou resulta em fraude.
A MORTE
O alvor chega sempre depois de uma qualquer morte. O renascimento a partir de uma qualquer estagnação. Como tudo o que é belo em si, jamais se pode procurar, mas apenas sentir e descobrir o que há realmente de novo apenas pela surpresa. Apenas partir e não procurar encontrar. Acontecer onde a plenitude não pactua com a reserva. Eu nunca suportei cobardias. Fazem-me ir morrendo antes de morrer.
Eu quero mais, sentir mais, onde o cómodo gelo não teme o abrasivo sol. Fazer porque há algo a dizer.
Abandono os Cynicals apenas com pena de não editar o trabalho todo que vim a desenvolver desde 2004, mas deixo-vos o "I didn’t kill rock’n’roll (so it must have been you..!)" para dele fazerem o que entenderem. É um grito. Uma verdade. Uma ironia.
Vão ter que contactar a banda, pois o disco não terá nem edição, nem distribuição comercial. Ou contactem-me a mim, quero receber-vos, beber com vocês, namorar com vocês, discutir com vocês.
A PRIMAVERA
Março no alentejo. A catarse. A minha terra natal é a mais bonita do mundo na primavera.
Aqui renasce-se;
sinto-me fortemente inundado pela liberdade de respirar bem fundo outra vez e, de novo ter o mundo nas mãos com as suas sempre renovadas hipóteses de cheiros, cores, sabores, espanto e melodia. Vou fazer de novo coisas novas. Só esta ideia imprecisa faz-me sorrir, sentir a cara lavada ao sol, rasgar a terra, cavar mil sorrisos.
A todos Vós que aplaudiram, apuparam, acarinharam, assobiaram, adularam, criticaram e amaram e odiaram o meu mais profundo e sincero Muito Obrigado. Fico bastante grato pelas experiências várias que na minha alma depuseram. Cresci como ser humano e vivi bastante.
Acerca dos Cynicals, vendo-os como uma bela relação amorosa em declínio, creio ser melhor para todos afastarmo-nos enquanto nos restam algunas farrapos de dignidade. A eles desejo os melhores votos de boa fortuna. A Vós…. que continuem a povoar o meu MUNDO. Para mim e para todos os Joões Macías por aí fora..
Até Já e um Bem Haja*****************
Alentejo, Março 2008
João Macías