MySpace
myspace music


Clã da Matarroa



Last Updated: 6/8/2009

Send Message
Instant Message
Email to a Friend
Subscribe

Status: Single
City: Matarroa
State: Halo World
Country: PT
Signup Date: 9/23/2006
Tuesday, April 17, 2007 
IV STREET: Como surgiu a vossa colaboração?

Paulo Leitão: A nossa colaboração surge, ainda que de um modo inocente, na
faixa "Clã da Matarroa" da compilação "Matarroêses", sendo esse o momento do
nosso baptismo embora não existissem planos de trabalharmos exclusivamente
os dois. Recebemos o título com orgulho mas conhecíamo-nos à relativamente
pouco tempo e os nosso empenho estava concentrado na colaboração com os
MatoZoo. Na altura andava a ser cozinhado o "Funk Matarroês" e nós acabamos
por ganhar experiência e rotina de grupo nas várias partes da concepção do
álbum desde a produção,a escrita das letras, na gravação e nas actuações ao
vivo, onde começamos a ser conhecidos como a dupla que acompanhava e
complementava os MatoZoo, o "Clã da Matarroa".
Na altura em que começamos a pensar no que fazer a seguir era bastante óbvio
que, por já existir uma grande dinâmica entre nós, iríamos consolidar o
nosso estatuto e dar continuidade ao que tínhamos vindo a fazer na escola
"mais ao lado", mas desta vez com autonomia total. A ideia de "Conversas de
Café" foi quase espontânea, mas para obter o produto final foi necessário
bastante tempo para por os motores em ebulição, acrescentar genialidade,
filtrar conceitos e no fim obter a dose perfeita, numa chávena verde, do
nosso vício preferido.


IVS: No vosso press release, pela forma como vocês se descrevem, ficamos com
uma certa impressão que vocês são dois opostos que se tocam. Mais
concretamente, o que é que vos distancia e o que é que vos aproxima?

Stray: Não somos opostos completos, mas vivemos mundos diferentes. Penso que
este disco resulta justamente por ser importante tanto aquilo que nos
aproxima como o que nos distancia. Não existiram tensões nem conflitos
criativos justamente por usarmos as nossas diferenças como matéria-prima
para a criação. Foi essa a premissa para o disco, aliás. Concretamente... Eu
sou um anti-herói com um halo platinado e tenho um par de sapatilhas com
asas e o Paulo é um vilão Aasgardiano que consegue dobrar o espaço e o
tempo. Fora isso, invertidos os contextos, podíamos ser não o que somos, mas
o que o outro é.

PL: Na verdade eu acho que tenho inveja do Stray e ele de mim, mas somos
demasiado orgulhosos para o admitir (risos). O que é certo é sempre
assumimos, respeitamos e brincamos com as nossas diferenças, tanto que,
acabamos por abusar delas e tornar o "oposto" como imagem de marca. Se cada
um tivesse cedido parte do seu carácter para agradar ao outro, o álbum teria
perdido toda a força que tem, coisa que muitas vezes se nota noutros grupos.
Mas respondendo directamente à tua pergunta distanciam-nos coisas como por
exemplo o modo de pensar e trabalhar, provavelmente fruto do nosso percurso
académico, ou a forma como encaramos as situações porque quando um é
optimista em relação a determinado assunto, o outro é quase sempre
pessimista. Aproximam-nos coisas triviais como o gosto pela música, café,
hip-hop e mulheres (risos).


IVS: A vossa primeira aparição pela editora matarroesa foi na compilação
"Matarroêses". Sentiram algum tipo de rótulo proveniente do impacto que as
vossas faixas tiveram no público?

S: A minha rotulou-me completamente. Acho que essa música foi bastante mal
interpretada. E necessita de ser contextualizada para ser compreendida. Acho
que hoje já é mais ou menos aceite que existem todos os tipos de expressão
lírica no rap, mas nessa época era comum sentir-se um certo "dumbing down"
da música, como se fosse preciso estupidificar ou simplificar as coisas a um
nível primário para que as pessoas prestassem atenção. Sentia muito isso
relativamente às pessoas da minha geração. E ao fazer uma música assim
estava a querer gritar "atenção, cabeças, eu fiz isto assim e vocês também
podem". De uma forma diferente, os MatoZoo já o tinham feito antes de mim,
mas a nível lírico, eu levei isso a um patamar novo e que duvido que alguma
vez venha a ser superado. É óbvio que exagerei na complexidade, mas era
necessário. Se não tivesse expressado um ponto de vista extremo não fazia
sentido nesse momento. A minha intenção era dar um grande pontapé na porta e
acabei por ser praticamente ostracizado. Mas ao mesmo tempo recebi muito
apoio de uma minoria e senti que ajudei outros, que em breve vão dar cartas,
a perceber que também existiam outros caminhos. Foi um rótulo amplamente
negativo mas que acabou por me beneficiar, de alguma maneira.

PL: A faixa do Stray criou realmente uma onda de choque! Já no meu caso não
senti uma reacção tão forte, talvez pelo facto da minha faixa na compilação
ser mais básica e eu estar um pouco menos exposto do que ele. Hoje os meus
amigos fora do hip-hop ainda brincam comigo por causa desse som. Na altura
recebi críticas boas e más, satirizaram-me em blogs, mas recebi tudo com
muito carinho. Afinal foi a minha primeira música editada.


IVS: Se sim, identificam-se com esse perfil?

S : De certa forma. As pessoas que só me conhecem através das minhas músicas
até este álbum ficam sempre surpreendidas quando me conhecem pessoalmente.
Isto porque pensavam que eu seria muito mais fechado nesse modo mais "snob",
chamemos-lhe assim, de escrever. As minhas influências são estupidamente
variadas e deixa-as chocadas perceber que eu gosto e sinto muito algumas
coisas muito mais mundanas.
Sou um grande fã de Hip Hop acima de tudo, por isso o meu perfil abrange a
sua totalidade.

PL: O meu único rótulo é Matarroa e identifico-me totalmente com o perfil.


IVS: Acham que este álbum vai corresponder ao que as pessoas estão à espera?

PL: Sem querer parecer muito pretensioso acho que vai superar. Mesmo nós
que sempre pensámos alto chegamos ao fim surpreendidos com o resultado. Até
acho mesmo que vamos conseguir conquistar aquelas pessoas que acompanham o
movimento e já nos conhecem mas que não sentiram o nosso trabalho até agora.
O nosso objectivo foi criar um álbum à nossa imagem e não propriamente
agradar ao público, até porque não se pode agradar a todos, mas acho que
chegamos a um bom produto final, capaz até de cativar as pessoas que nem
estão à espera.

S : Não sei exactamente o que as pessoas estão à espera. Há coisas muito
pessoais neste álbum, pedaços muito estranhos e abstractos e passagens
paranóicas. Está lá o dito "alternativo" mas também o amor ao Hip Hop como
ele se faz sentir mais comummente. Faz muito sentido que assim seja. Se
estão a espera da mesma linha de trabalho anterior, este álbum tem a
evolução disso, mas também coisas distintas, embora coerentes. Foi um disco
muito pensado, muito construído, que sofreu grandes e contínuas alterações
ao longo destes anos. Nada está lá por acaso nem a mais, tudo faz sentido.
Foi muito sofrido, tenho a certeza que quem gostava de nós antes vai gostar
do álbum mas também vai ficar muito surpreendido.


IVS: Há quanto tempo estão a trabalhar neste álbum?

S : Desde que acabamos de trabalhar com os MatoZoo no "Funk Matarroês",
embora alguns conceitos precedam até isso...3 anos e tal, portanto.


IVS: Sentem que fizeram um álbum intimista? Até que ponto a forma como falam
de vocês próprios é verdadeira?

S: É realmente complicado responder a isso. Perguntam-me muitas vezes se a
"Sobrancelhas" é uma canção que retrata algum desgosto amoroso ou alguma
história de traição. E se eu faço mesmo o que digo que faço na "Gajas".Bem,
sim. Eu divido muito a minha criação artística em duas vertentes principais
que nem sempre são estanques. Por um lado tenho a minha poética mais
abstracta, mais surreal... esse é o meu lado mais "nerd", mais de gajo
esquisito que bebe café a mais e tem medo do mundo. E depois há o meu lado
mais terreno. É daí que surgem músicas como a "Sobrancelhas" ou a
"Maníaco"...essas lidam com sentimentos mais...palpáveis. Esse é o tipo de
copo na mão a olhar para a miúda mais gira do sítio a pensar como lhe vai
mentir e tentar provar que é diferente dos outros, quando, muito
provavelmente, é pior. Não digo que lide com todas as mulheres como descrevo
na "Gajas" mas já tive e vou tendo fases da vida em que isso acontece. E não
sou o tempo todo como me descrevo na "Maníaco", mas já várias vezes me
acusaram de o ser. Nem eu tinha bem a certeza, mas sim, apercebo-me de este
é um álbum muito intimista. Acho que estou metido em sarilhos.

PL: Acho que sim. Eu gosto de me reconhecer nas minhas letras, caso
contrário acho não era "emcee". Não diria todo o "sumo" mas sim todo o
"café" do álbum é espremido daquilo que eu penso faço e sou. Claro que há
momentos em que estou a falar de medos ou sonhos, como no caso da "Ovelha
Negra" ou da "Brilho", onde estou a falar de mim mas não se pode questionar
se estou a ser verdadeiro ou não. Não me considero a ovelha negra da minha
família, mas nada me garante que de hoje para amanhã não cometa um erro e me
torne um dos meus maiores medos. Daí ter encarnado o papel e ter escrito a
"Ovelha Negra" na primeira pessoa, sem deixar de escrever com total
sinceridade.
Há também faixas nas quais surgem uma rimas mais hiperbólicas, fruto daquele
lado paranóico que todos temos apesar das aparências, e ainda as eternas e
inevitáveis músicas sobre mulheres.


IVS: Um dos vossos temas favoritos são as "gajas". Prevêem um leque de
fangirls muito alargado?

PL: O plano é esse senão nada disto faz sentido! (risos)

S : (risos) Bem... A nossa música é boa para raparigas evoluídas e actuais!
De preferência giras...ou que gostem de nos pagar bebidas (risos) Não, agora
a sério. Uma boa componente do disco trata da nossa relação com as mulheres
por isso...acho que pode ajudá-las a compreender algo sobre nós, homens.
Suponho que fosse bom. Decididamente, uma mulher pode apreciar a nossa
música.


IVS: Porque é que optaram por convidar o DJ Ovelha Negra em vez do Bezegol,
o DJ "oficial", por assim dizer, da Matarroa?

PL: Não foi propriamente uma opção. O Bezegol apesar de andar atarefado com
o seu trabalho a solo (venha a bomba!!!) chegou a riscar em 3 faixas que,
curiosamente, não foram incluídas no álbum na altura em que nos sentamos a
ouvir todas as faixas gravadas e fizemos a tracklist, mas iremos toca-las ao
vivo. O DJ Ovelha Negra surgiu por intermédio do Martinêz (El Presidente) e
foi uma grande oportunidade para nós em ter a participação de alguém fora do
Porto. Já conhecíamos e admirávamos o trabalho dele pelos brindes no site da
Matarroa (façam download!!!) e ficamos gratos e satisfeitos com a
colaboração dele no nosso álbum.


IVS: Qual a vossa faixa favorita, aquela com que se identificam mais?

S : A "Maníaco" diz-me muito. Receio que se torne intemporal na minha vida.
Mas não posso optar só por essa...a "Cafeína" é muito a banda sonora da
minha maior adição, café, não posso passar sem a referir. Sou um grande fã
da "Fósforos", adoro essa música. Ainda me surpreende imenso. Não consigo
escolher apenas uma, também estou a pensar na "Sobrancelhas" e na "Brilho".
Não consigo optar.

PL: Pois... é mesmo difícil escolher! Ao fim deste tempo aprendemos a amar
cada rima de cada música. Talvez a "Sobrancelhas" não por identificar mais,
mas sim por achar que foi muito bem conseguida quer em termos de música,
onde tivemos a colaboração do grande Dino, quer pelo vídeo que deve estar
quase a arrebentar nas televisões. Há que ter amor pelo primeiro single!
(risos)

IVS: Até que ponto se sentem influenciados pelo indie rap dos EUA? O que é
que vos fascina nessa forma de estar no Hip Hop?

S : Não é a nossa única influência, mas posso arriscar dizer que é a maior.
O fascínio que tenho por editoras como a Definitive Jux e a Rhymesayers, bem
como a Stones Throw e a Anticon supera largamente qualquer outra coisa. Não
só a nível musical, mas como atitude. Também tenho muito apreço pela Battle
Axe e pelo Buck 65, não é só dos EUA que vem a influência, mas
maioritariamente sim. Talvez me identifique mais com a Def Jux porque apesar
de serem muito experimentalistas e vanguardistas não descuram nunca o amor
ao rap. Irrita-me um bocado a tendência de muito boa gente de pintar a
música que fazem de forma a puderem dizer "sim, mas isto não é bem rap",
como se ao fazê-lo afastassem algum estigma ou fossem mais legitimamente
músicos. É um pouco a mentalidade de fazer o que se gosta, como se quer, sem
olhar a pressões e preocupações exteriores e tentar elevar sempre a fasquia
da criação. Independent as Fuck.

IVS: Sentem que o tipo de Hip Hop que fazem vos marginaliza dentro do
movimento?

S : Sem dúvida. Mas também acho que já existe um pequeno exército de
pessoas, dentro e também fora do "movimento", que desejavam ouvir algo como
a música que fazemos há algum tempo. Essa pressão parece-me vir mais do
público do que propriamente dos outros artistas. Exceptuando um ou outro
caso, nunca obtivemos nada senão respeito e aceitação por parte de outros
músicos.

PL: Concordo com o Stray. Se alguma vez fomos marginalizados a tendência
agora é para que cada vez menos isso aconteça.


IVS: E não fosse esta uma entrevista a um par de matarroeses - Stray, a
forma como te vestes é um fashion statement ou um Hip Hop statement?

S : Ambas e sobretudo um statement de individualidade. O Hip Hop é uma
cultura muito visual. Sei que existe muito a mentalidade que tudo o que é
físico e visual não é importante e que não passam de preocupações que
representam banalidade. Mas o Old School e o Mid-School não têm uma
iconografia própria? Não ajudam a contextualizar os momentos? Teria o
"Renegades of Funk" a mesma dimensão não fosse também a originalidade do
vídeo e a linguagem visual do Afrika Bambaataa? Teria o LL Cool J tido o
mesmo apelo sem o chapéu da Kangol? Qual a importância das Adidas nos pés
dos Run-DMC? A pala e a corrente do Slick Rick? O relógio do Flava Flav?
Talvez tenha a ver com a minha área de interesse e de estudo, mas não
consigo conceber Hip Hop sem imagem. Não me refiro ao culto da imagem, mas à
preocupação de criar um universo visual que retrate, até a um certo grau, a
música. A Matarroa é exímia também nesse aspecto e é um caso único. Fora
isso, nesse domínio, o movimento por cá ainda está muito atrasado. Talvez
seja por isso que muita gente não é levada a sério, porque descuidam essa
vertente completamente. Mas voltando à pergunta, tem muito a ver com a minha
individualidade. Gosto muito do conceito de Street Couture e de Street
Fashionismo e sou muito influenciado pela cultura Japonesa. Hip Hop e Anime,
siga a rusga.


IVS: Uma pergunta que não posso deixar de fazer - que tens a dizer ao
crescente número de pessoas que adoptaram o novo grito de guerra "Halo G
Shit"?
S : É o sinal da vinda do Apocalipse. Tem que ser. Halo G SHIIIIT. GJYEAH!
Fico contente por me aperceber que o rap alternativo está finalmente a
infiltrar-se. Já estava na hora. O "Patrástoplay no teu Melão" e o "Funk
Matarroês" são a fundação. Agora o "Conversas de Café" do Clã da Matarroa e
o "Eu Não das Palavras Troco a Ordem" do Nerve vão fazer barulho e escola.
Halograma é o Futuro. É tudo o que posso dizer para já.

PL: (risos) É sinal que estamos cada vez mais próximos de 2014!


IVS: Mensagem final?

PL: Resta deixar um big up a todos que nos apoiam! Injectem fogo nas
turbinas, ponham as mãos no tecto e mastiguem fita-cola!

S : Obrigado à IVStreet pela oportunidade. Todos os meus nerds. O Halo
brilha. Halo G Shiiiit, aguardem. Dj Ovelha Negra, Nervoso, Notwan, Pulso,
DarkSunn : O Futuro. Shout out ao Sistema Intravenoso, Blasph, Pródigo,
Viruz, Dj Sims, TH. Fantasmagoria! Matarroa! Obrigado à Min pelas fotos and
stuff. Nitronious. Ao Lino pela ajuda e paciência. "Conversas de Café"
disponível para encomenda em www.matarroa.com. Passem por
www.myspace.com/cladamatarroa para verem as novidades e actualizações.
Vários concertos em Março, confirmem no myspace, Santiago ALquimista e
Fnacs! Brindem connosco. Café, Café, Cafeína!