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IV STREET: Como surgiu a vossa colaboração?
Paulo Leitão: A nossa colaboração surge, ainda que de um modo inocente, na faixa "Clã da Matarroa" da compilação "Matarroêses", sendo esse o momento do nosso baptismo embora não existissem planos de trabalharmos exclusivamente os dois. Recebemos o título com orgulho mas conhecíamo-nos à relativamente pouco tempo e os nosso empenho estava concentrado na colaboração com os MatoZoo. Na altura andava a ser cozinhado o "Funk Matarroês" e nós acabamos por ganhar experiência e rotina de grupo nas várias partes da concepção do álbum desde a produção,a escrita das letras, na gravação e nas actuações ao vivo, onde começamos a ser conhecidos como a dupla que acompanhava e complementava os MatoZoo, o "Clã da Matarroa". Na altura em que começamos a pensar no que fazer a seguir era bastante óbvio que, por já existir uma grande dinâmica entre nós, iríamos consolidar o nosso estatuto e dar continuidade ao que tínhamos vindo a fazer na escola "mais ao lado", mas desta vez com autonomia total. A ideia de "Conversas de Café" foi quase espontânea, mas para obter o produto final foi necessário bastante tempo para por os motores em ebulição, acrescentar genialidade, filtrar conceitos e no fim obter a dose perfeita, numa chávena verde, do nosso vício preferido.
IVS: No vosso press release, pela forma como vocês se descrevem, ficamos com uma certa impressão que vocês são dois opostos que se tocam. Mais concretamente, o que é que vos distancia e o que é que vos aproxima?
Stray: Não somos opostos completos, mas vivemos mundos diferentes. Penso que este disco resulta justamente por ser importante tanto aquilo que nos aproxima como o que nos distancia. Não existiram tensões nem conflitos criativos justamente por usarmos as nossas diferenças como matéria-prima para a criação. Foi essa a premissa para o disco, aliás. Concretamente... Eu sou um anti-herói com um halo platinado e tenho um par de sapatilhas com asas e o Paulo é um vilão Aasgardiano que consegue dobrar o espaço e o tempo. Fora isso, invertidos os contextos, podíamos ser não o que somos, mas o que o outro é.
PL: Na verdade eu acho que tenho inveja do Stray e ele de mim, mas somos demasiado orgulhosos para o admitir (risos). O que é certo é sempre assumimos, respeitamos e brincamos com as nossas diferenças, tanto que, acabamos por abusar delas e tornar o "oposto" como imagem de marca. Se cada um tivesse cedido parte do seu carácter para agradar ao outro, o álbum teria perdido toda a força que tem, coisa que muitas vezes se nota noutros grupos. Mas respondendo directamente à tua pergunta distanciam-nos coisas como por exemplo o modo de pensar e trabalhar, provavelmente fruto do nosso percurso académico, ou a forma como encaramos as situações porque quando um é optimista em relação a determinado assunto, o outro é quase sempre pessimista. Aproximam-nos coisas triviais como o gosto pela música, café, hip-hop e mulheres (risos).
IVS: A vossa primeira aparição pela editora matarroesa foi na compilação "Matarroêses". Sentiram algum tipo de rótulo proveniente do impacto que as vossas faixas tiveram no público?
S: A minha rotulou-me completamente. Acho que essa música foi bastante mal interpretada. E necessita de ser contextualizada para ser compreendida. Acho que hoje já é mais ou menos aceite que existem todos os tipos de expressão lírica no rap, mas nessa época era comum sentir-se um certo "dumbing down" da música, como se fosse preciso estupidificar ou simplificar as coisas a um nível primário para que as pessoas prestassem atenção. Sentia muito isso relativamente às pessoas da minha geração. E ao fazer uma música assim estava a querer gritar "atenção, cabeças, eu fiz isto assim e vocês também podem". De uma forma diferente, os MatoZoo já o tinham feito antes de mim, mas a nível lírico, eu levei isso a um patamar novo e que duvido que alguma vez venha a ser superado. É óbvio que exagerei na complexidade, mas era necessário. Se não tivesse expressado um ponto de vista extremo não fazia sentido nesse momento. A minha intenção era dar um grande pontapé na porta e acabei por ser praticamente ostracizado. Mas ao mesmo tempo recebi muito apoio de uma minoria e senti que ajudei outros, que em breve vão dar cartas, a perceber que também existiam outros caminhos. Foi um rótulo amplamente negativo mas que acabou por me beneficiar, de alguma maneira.
PL: A faixa do Stray criou realmente uma onda de choque! Já no meu caso não senti uma reacção tão forte, talvez pelo facto da minha faixa na compilação ser mais básica e eu estar um pouco menos exposto do que ele. Hoje os meus amigos fora do hip-hop ainda brincam comigo por causa desse som. Na altura recebi críticas boas e más, satirizaram-me em blogs, mas recebi tudo com muito carinho. Afinal foi a minha primeira música editada.
IVS: Se sim, identificam-se com esse perfil?
S : De certa forma. As pessoas que só me conhecem através das minhas músicas até este álbum ficam sempre surpreendidas quando me conhecem pessoalmente. Isto porque pensavam que eu seria muito mais fechado nesse modo mais "snob", chamemos-lhe assim, de escrever. As minhas influências são estupidamente variadas e deixa-as chocadas perceber que eu gosto e sinto muito algumas coisas muito mais mundanas. Sou um grande fã de Hip Hop acima de tudo, por isso o meu perfil abrange a sua totalidade.
PL: O meu único rótulo é Matarroa e identifico-me totalmente com o perfil.
IVS: Acham que este álbum vai corresponder ao que as pessoas estão à espera?
PL: Sem querer parecer muito pretensioso acho que vai superar. Mesmo nós que sempre pensámos alto chegamos ao fim surpreendidos com o resultado. Até acho mesmo que vamos conseguir conquistar aquelas pessoas que acompanham o movimento e já nos conhecem mas que não sentiram o nosso trabalho até agora. O nosso objectivo foi criar um álbum à nossa imagem e não propriamente agradar ao público, até porque não se pode agradar a todos, mas acho que chegamos a um bom produto final, capaz até de cativar as pessoas que nem estão à espera.
S : Não sei exactamente o que as pessoas estão à espera. Há coisas muito pessoais neste álbum, pedaços muito estranhos e abstractos e passagens paranóicas. Está lá o dito "alternativo" mas também o amor ao Hip Hop como ele se faz sentir mais comummente. Faz muito sentido que assim seja. Se estão a espera da mesma linha de trabalho anterior, este álbum tem a evolução disso, mas também coisas distintas, embora coerentes. Foi um disco muito pensado, muito construído, que sofreu grandes e contínuas alterações ao longo destes anos. Nada está lá por acaso nem a mais, tudo faz sentido. Foi muito sofrido, tenho a certeza que quem gostava de nós antes vai gostar do álbum mas também vai ficar muito surpreendido.
IVS: Há quanto tempo estão a trabalhar neste álbum?
S : Desde que acabamos de trabalhar com os MatoZoo no "Funk Matarroês", embora alguns conceitos precedam até isso...3 anos e tal, portanto.
IVS: Sentem que fizeram um álbum intimista? Até que ponto a forma como falam de vocês próprios é verdadeira?
S: É realmente complicado responder a isso. Perguntam-me muitas vezes se a "Sobrancelhas" é uma canção que retrata algum desgosto amoroso ou alguma história de traição. E se eu faço mesmo o que digo que faço na "Gajas".Bem, sim. Eu divido muito a minha criação artística em duas vertentes principais que nem sempre são estanques. Por um lado tenho a minha poética mais abstracta, mais surreal... esse é o meu lado mais "nerd", mais de gajo esquisito que bebe café a mais e tem medo do mundo. E depois há o meu lado mais terreno. É daí que surgem músicas como a "Sobrancelhas" ou a "Maníaco"...essas lidam com sentimentos mais...palpáveis. Esse é o tipo de copo na mão a olhar para a miúda mais gira do sítio a pensar como lhe vai mentir e tentar provar que é diferente dos outros, quando, muito provavelmente, é pior. Não digo que lide com todas as mulheres como descrevo na "Gajas" mas já tive e vou tendo fases da vida em que isso acontece. E não sou o tempo todo como me descrevo na "Maníaco", mas já várias vezes me acusaram de o ser. Nem eu tinha bem a certeza, mas sim, apercebo-me de este é um álbum muito intimista. Acho que estou metido em sarilhos.
PL: Acho que sim. Eu gosto de me reconhecer nas minhas letras, caso contrário acho não era "emcee". Não diria todo o "sumo" mas sim todo o "café" do álbum é espremido daquilo que eu penso faço e sou. Claro que há momentos em que estou a falar de medos ou sonhos, como no caso da "Ovelha Negra" ou da "Brilho", onde estou a falar de mim mas não se pode questionar se estou a ser verdadeiro ou não. Não me considero a ovelha negra da minha família, mas nada me garante que de hoje para amanhã não cometa um erro e me torne um dos meus maiores medos. Daí ter encarnado o papel e ter escrito a "Ovelha Negra" na primeira pessoa, sem deixar de escrever com total sinceridade. Há também faixas nas quais surgem uma rimas mais hiperbólicas, fruto daquele lado paranóico que todos temos apesar das aparências, e ainda as eternas e inevitáveis músicas sobre mulheres.
IVS: Um dos vossos temas favoritos são as "gajas". Prevêem um leque de fangirls muito alargado?
PL: O plano é esse senão nada disto faz sentido! (risos)
S : (risos) Bem... A nossa música é boa para raparigas evoluídas e actuais! De preferência giras...ou que gostem de nos pagar bebidas (risos) Não, agora a sério. Uma boa componente do disco trata da nossa relação com as mulheres por isso...acho que pode ajudá-las a compreender algo sobre nós, homens. Suponho que fosse bom. Decididamente, uma mulher pode apreciar a nossa música.
IVS: Porque é que optaram por convidar o DJ Ovelha Negra em vez do Bezegol, o DJ "oficial", por assim dizer, da Matarroa?
PL: Não foi propriamente uma opção. O Bezegol apesar de andar atarefado com o seu trabalho a solo (venha a bomba!!!) chegou a riscar em 3 faixas que, curiosamente, não foram incluídas no álbum na altura em que nos sentamos a ouvir todas as faixas gravadas e fizemos a tracklist, mas iremos toca-las ao vivo. O DJ Ovelha Negra surgiu por intermédio do Martinêz (El Presidente) e foi uma grande oportunidade para nós em ter a participação de alguém fora do Porto. Já conhecíamos e admirávamos o trabalho dele pelos brindes no site da Matarroa (façam download!!!) e ficamos gratos e satisfeitos com a colaboração dele no nosso álbum.
IVS: Qual a vossa faixa favorita, aquela com que se identificam mais?
S : A "Maníaco" diz-me muito. Receio que se torne intemporal na minha vida. Mas não posso optar só por essa...a "Cafeína" é muito a banda sonora da minha maior adição, café, não posso passar sem a referir. Sou um grande fã da "Fósforos", adoro essa música. Ainda me surpreende imenso. Não consigo escolher apenas uma, também estou a pensar na "Sobrancelhas" e na "Brilho". Não consigo optar.
PL: Pois... é mesmo difícil escolher! Ao fim deste tempo aprendemos a amar cada rima de cada música. Talvez a "Sobrancelhas" não por identificar mais, mas sim por achar que foi muito bem conseguida quer em termos de música, onde tivemos a colaboração do grande Dino, quer pelo vídeo que deve estar quase a arrebentar nas televisões. Há que ter amor pelo primeiro single! (risos)
IVS: Até que ponto se sentem influenciados pelo indie rap dos EUA? O que é que vos fascina nessa forma de estar no Hip Hop?
S : Não é a nossa única influência, mas posso arriscar dizer que é a maior. O fascínio que tenho por editoras como a Definitive Jux e a Rhymesayers, bem como a Stones Throw e a Anticon supera largamente qualquer outra coisa. Não só a nível musical, mas como atitude. Também tenho muito apreço pela Battle Axe e pelo Buck 65, não é só dos EUA que vem a influência, mas maioritariamente sim. Talvez me identifique mais com a Def Jux porque apesar de serem muito experimentalistas e vanguardistas não descuram nunca o amor ao rap. Irrita-me um bocado a tendência de muito boa gente de pintar a música que fazem de forma a puderem dizer "sim, mas isto não é bem rap", como se ao fazê-lo afastassem algum estigma ou fossem mais legitimamente músicos. É um pouco a mentalidade de fazer o que se gosta, como se quer, sem olhar a pressões e preocupações exteriores e tentar elevar sempre a fasquia da criação. Independent as Fuck.
IVS: Sentem que o tipo de Hip Hop que fazem vos marginaliza dentro do movimento?
S : Sem dúvida. Mas também acho que já existe um pequeno exército de pessoas, dentro e também fora do "movimento", que desejavam ouvir algo como a música que fazemos há algum tempo. Essa pressão parece-me vir mais do público do que propriamente dos outros artistas. Exceptuando um ou outro caso, nunca obtivemos nada senão respeito e aceitação por parte de outros músicos.
PL: Concordo com o Stray. Se alguma vez fomos marginalizados a tendência agora é para que cada vez menos isso aconteça.
IVS: E não fosse esta uma entrevista a um par de matarroeses - Stray, a forma como te vestes é um fashion statement ou um Hip Hop statement?
S : Ambas e sobretudo um statement de individualidade. O Hip Hop é uma cultura muito visual. Sei que existe muito a mentalidade que tudo o que é físico e visual não é importante e que não passam de preocupações que representam banalidade. Mas o Old School e o Mid-School não têm uma iconografia própria? Não ajudam a contextualizar os momentos? Teria o "Renegades of Funk" a mesma dimensão não fosse também a originalidade do vídeo e a linguagem visual do Afrika Bambaataa? Teria o LL Cool J tido o mesmo apelo sem o chapéu da Kangol? Qual a importância das Adidas nos pés dos Run-DMC? A pala e a corrente do Slick Rick? O relógio do Flava Flav? Talvez tenha a ver com a minha área de interesse e de estudo, mas não consigo conceber Hip Hop sem imagem. Não me refiro ao culto da imagem, mas à preocupação de criar um universo visual que retrate, até a um certo grau, a música. A Matarroa é exímia também nesse aspecto e é um caso único. Fora isso, nesse domínio, o movimento por cá ainda está muito atrasado. Talvez seja por isso que muita gente não é levada a sério, porque descuidam essa vertente completamente. Mas voltando à pergunta, tem muito a ver com a minha individualidade. Gosto muito do conceito de Street Couture e de Street Fashionismo e sou muito influenciado pela cultura Japonesa. Hip Hop e Anime, siga a rusga.
IVS: Uma pergunta que não posso deixar de fazer - que tens a dizer ao crescente número de pessoas que adoptaram o novo grito de guerra "Halo G Shit"? S : É o sinal da vinda do Apocalipse. Tem que ser. Halo G SHIIIIT. GJYEAH! Fico contente por me aperceber que o rap alternativo está finalmente a infiltrar-se. Já estava na hora. O "Patrástoplay no teu Melão" e o "Funk Matarroês" são a fundação. Agora o "Conversas de Café" do Clã da Matarroa e o "Eu Não das Palavras Troco a Ordem" do Nerve vão fazer barulho e escola. Halograma é o Futuro. É tudo o que posso dizer para já.
PL: (risos) É sinal que estamos cada vez mais próximos de 2014!
IVS: Mensagem final?
PL: Resta deixar um big up a todos que nos apoiam! Injectem fogo nas turbinas, ponham as mãos no tecto e mastiguem fita-cola!
S : Obrigado à IVStreet pela oportunidade. Todos os meus nerds. O Halo brilha. Halo G Shiiiit, aguardem. Dj Ovelha Negra, Nervoso, Notwan, Pulso, DarkSunn : O Futuro. Shout out ao Sistema Intravenoso, Blasph, Pródigo, Viruz, Dj Sims, TH. Fantasmagoria! Matarroa! Obrigado à Min pelas fotos and stuff. Nitronious. Ao Lino pela ajuda e paciência. "Conversas de Café" disponível para encomenda em www.matarroa.com. Passem por www.myspace.com/cladamatarroa para verem as novidades e actualizações. Vários concertos em Março, confirmem no myspace, Santiago ALquimista e Fnacs! Brindem connosco. Café, Café, Cafeína!
4:17 AM
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