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Se havia álbum matarroês cujos ecos remontassem tão atrás no tempo como este, não tenho memória. Se havia álbum matarroês que estivesse tão incerto de data de lançamento, não tenho conhecimento.
Mas se havia álbum matarroês que tivesse fadado para uma revolução temática tão definitiva como este… então nunca foi editado.
Felizmente, um design cativante não é tudo o que CONVERSAS DE CAFÉ tem para mostrar. Este é um álbum, acima de tudo, livre. Livre de responsabilidade social, livre de dogmas, livre de "ter de parecer" Hip Hop, sendo-o sem qualquer esforço. É o mais próximo de indie que temos tido nos últimos tempos, com a sua mistura entre rimas para decifrar e rimas para sentir e instrumentais alternativos com um certo factor de club hit.
Há uma sinceridade quase impossível de não reconhecer que atravessa todo o álbum, sentindo-se o seu ponto alto em "Sobrancelhas".
"Cafeína" é a banda sonora da vida de todos nós. A sério. Quando estiverem no vosso local de trabalho/estudo, a iniciar a vossa actividade com uma fumegante chávena de café à frente, vão dar por vocês a cantarolar "adrenalina, adrenalina líquida – CAFÉ! – energia, energia aditiva – CAFÉ!...". Encham o depósito desta música e inclinem-se para trás.
A faceta mais surreal, recôndita e viciante de CONVERSAS DE CAFÉ divide-se entre a sombria "Fósforos", a fantástica "Maníaco", o orgulho em ser diferente da "Ovelha Negra" e a luz intermitente da megalomania citadina, explosiva em "Néons". Nesta última, podemos rever o Stray de "Oníricos Desterrados" e o Paulo Leitão de "Diagnóstico".
A presença já previsível de Martinêz acontece em "Conversas de Café" e é um insert de rotina entediante, a característica fundamental de qualquer conversa de café, por parte dos três MCs. Como diz o chefe matarroês, é um "suicídio com sabor a inércia" de que qualquer ser com brilho na alma sente quando se afoga no quotidiano.
A despedida está no nome da faixa 14 ("Adeus") mas acontece na música seguinte, "Brilho". E não podia haver melhor despedida que "Brilho". Vão-se descobrir a pensar no sample introdutório desta música a tempo inteiro, pois desde o sample à produção está, completa e indubitavelmente, 'lá'.
Conversas de Café é, na conclusão de uma crítica que nunca poderia deixar de ter um cheirinho muito subjectivo de uma longa espera, um "clássico entre os clássicos".
Por: Joana Nicolau para a IV STREET
4:22 AM
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