I want a little sugar in my bowl
Ela calçou as sapatilhas de porcelana e foi rodopiando até o banheiro. A porta estava fechada e de lá vinha uma música alta e agradável aos ouvidos. Música que dava vontade de dançar. Ela bateu na porta e não houve resposta. Então resolveu abri-la assim mesmo e entrou. Era uma festa. Ninguém notou sua presença. Ninguém, exceto eu, que fui em sua direção com meus sapatinhos vermelhos de cristal. Minha visão estava embaçada pela fumaça das vozes abafadas. De repente a música parou e só se ouvia o barulho violento de uma cachoeira, enquanto os coelhinhos saíam de suas gaiolas. Os gatos passeavam livremente pelo banheiro e alguns até dormiam sobre a pia. Ela falou comigo, foi ela quem falou primeiro. Então eu senti medo porque a voz dela era uma mistura de creme de amêndoas com cobertura derretida de chocolate branco. E ela disse que eu tinha voz de menininha assustada, assustada, arrogante, doce e cruel. Sim, ela disse que eu tinha uma voz doce e cruel das crianças que sentem medo do escuro e não medem as conseqüências de suas brincadeiras. A música voltou nesse instante e eu perguntei se ela queria dançar comigo. O que você vai fazer de mim?, ela me perguntou. O que você quer que eu faça de você?, eu perguntei a ela. Não me faça sofrer demais, ela respondeu. Passei a mão pelos cabelos ondulados e soltos dela e nossos rostos se tocaram, nossos lábios se encontraram, as mãos delas percorriam minhas costas e a mão direita foi direto até meu seio esquerdo, e minhas mãos foram subindo por debaixo do vestido dela – e assim ficamos durante toda a música, trocando palavras e tateando nossos corpos. Procuramos um lugar mais isolado, o banheiro estava cheio demais apesar de ser maior que o apartamento inteiro onde moro. Onde você mora?, ela me perguntou. Na Rua das Camélias. Numa cobertura, sétimo andar, e você? Eu moro aqui, moro na cozinha, vamos até a minha casa? E fomos. Ela tirou primeiro meus sapatinhos de cristal vermelhos e depois tirou as sapatilhas de porcelana dela. Depois ela tirou o vestido e eu tirei a minha blusa e a minha saia. Então ela começou a cantar I want a little sugar in my bowl… E eu me deitei no chão da cozinha de pernas abertas. Ela percorria minhas pernas com a língua e parava de vez em quando para cantar. Eu gemia baixinho e me perguntava se íamos nos ver de novo. Adivinhando meus pensamentos, ela disse que me ligaria no dia seguinte, assim que acordássemos.
Liz Christine

As horas brancas
"Something in your eyes was so inviting
Something in your smile was so exciting
Something in my heart told me I must have you" (Frank Sinatra)
Amor. O que é isso? É a tranquilidade do azul e o ritmo das ondas. A dança do mar. É a palavra que não inventaram implícita em todas as frases. A palavra que não aprisionaram num certo número e combinação de letras. Amar é rosa. (Mas o amor é azul claro) O prazer é todas as tonalidades e sombreados de verde. E hoje o dia é branco. Branco como o céu que habita em cada música. Eu sonhei com orquídeas. Orquídeas num vaso sobre uma banheira vazia. Eu fumei um balde. Um balde cheio de água do mar e peixinhos prateados.
"Lovers at first sight
In love forever
It turned out so right
For strangers in the night" (Frank Sinatra)
Liz Christine
Lilases
A mulher nua sorriu com as mãos cheias de gelo picado. Ela despejou em mim os alfinetes que ela tirou da gaveta lilás. Não tive reação. Nenhuma palavra. As palavras fugiram todas da minha boca quando ela mordeu meu ombro esquerdo. Eu estava de calcinha e sutiã, cabelos úmidos, lendo, quando as janelas se abriram e eu fechei os olhos. Então uma fantasia cega despertou em mim e eu cantei o sorriso dela e perguntei – "o que você fez do gelo picado?". "Espalhei no chão", ela me respondeu. O mesmo chão onde eu estava deitada. Ela sentou do meu lado, fumando, e as paredes caíram com um suspiro.
Dentro da cômoda roxa tem uma taça transparente com sorvete de flocos coberto de calda de chocolate quente. Dentro da cômoda roxa tem um bebê de três meses que já aprendeu a falar. Dentro da cômoda roxa tem dois livros que atormentam minha rotina. Minha rotina é a cômoda roxa. Ela me surpreende com seus esmaltes e me cansa com suas queixas. Ela se queixa. Reclama quando é preciso acordar. E acorda mal-humorada, apontando meus tropeços e inconclusões. Sou um ser sem conclusões. E me tranco dentro da cômoda roxa.
Sinto sede mas as pessoas andam secas. E eu quero me embriagar dos sonhos delas. Os meus, eu quero desenhar. Desenhar meus sonhos nos seus olhos. Sinto fome mas as pessoas andam reticentes. E quero ser a sobremesa delas. A sobremesa gulosa e também reticente. Andamos todos reticentes. Mas eu transbordo incoerência. A incoerência do desejo que recua. Recua ante a aridez das paisagens. A profundidade me atrai. A intensidade me assusta. Eu caminho com o medo. O medo das pessoas que andam secas.
A mulher nua sorriu aproximando uma vela do meu rosto. Beijei as mãos dela. Ela perguntou por que eu andava meio apática. "É o medo", respondi. "Medo de quê?", ela quis saber. "Dos seus alfinetes", eu disse, "tenho medo dos seus alfinetes". Então ela recolheu do chão todos os alfinetes e os guardou na gaveta lilás. Deitou do meu lado e eu logo me acomodei sobre ela. Sobre a nudez macia dela. Dissemos tudo uma à outra. Tudo que palavras não podem exprimir. A comunicação entre gemidos e pernas e línguas. Dividimos um cigarro e as barreiras desabaram com o dia nascendo.
Sinto sede, ansiedade, fome e cansaço. Pessoas reticentes. Vidas mal dosadas. Falta intensidade. E a profundidade não é bem vista. O cansaço também não é bem visto. E a ansiedade, a ansiedade de caminhar, ir ao encontro de, ir ao encontro de.
Liz Christine

Cor de caramelo
Fico racionalizando. Tentando não pensar em você. Tentando não escorregar. Escutando Nina Simone. Sempre música. Mas não tenho controle total sobre meus pensamentos. E escorrego. Escorrego dentro das pupilas dilatadas do gato cor de caramelo. Já leu Ionesco? Tenho a impressão de que você já me falou sobre algum livro dele. É isso o que tenho, impressões. Tenho a impressão de que sua voz se dissolve dentro da minha sede enquanto sonho acordada. É, sonho acordada. E não tento mais racionalizar. Eu me deixo dentro das pupilas do gato cor de caramelo. A realidade me assusta. A realidade das palavras trocadas no cotidiano me assusta. O que elas me escondem? O quanto elas me escondem? O quanto te revelam? O quanto se parecem com um movimento de recuo incerto? Só quero avançar. Avançar de palavras trocadas à ação definitiva. O que é definitivo? O que é definitivo dentro da minha incerteza? Nem sei o que quero dizer. Eu devia pensar antes de te procurar assim. Te procurar dentro de Nina Simone. E dentro de Ionesco. Estou assim, confusa. Não consigo te afastar de nada que me caia nas mãos. Em qualquer livro, eu te penso. Eu me lembro. Eu nos vejo. Sinto mais fome do que o normal. Mais distraída que de hábito. O hábito. Me agarrar aos hábitos para não escorregar? O que acontece se eu me deixar completamente entregue? Completamente entregue ao rumor distante de palavras trocadas em sonho? Eu me pergunto se. Cada encontro foi um devaneio. Eu me pergunto se em cada conversa nossa realmente nos encontramos. Não me entendo mais, tudo é dúvida. Tento esquecer as dúvidas, uma a uma. Pensar apenas meu cotidiano. Mas você. Sempre música. Você. Sempre dúvidas.
Não sei ao certo. Tenho me controlado bastante. Onde eu estaria agora, se me deixasse livres as palavras.
Você rói as unhas. Eu me lembro das suas mãos. Estou sublinhando o xerox de uma peça e me lembro das suas mãos. A memória de quando eu não hesitava em tocar.
Distante. Ainda te vejo. Eu não quero mais. Não quero mais. Não quero mais pensar em alguém que nunca se esclarece. Sempre me coloca em dúvida. Mas e eu? Eu sou tão clara assim? Às vezes nem para mim. Outras sim, não sei mais. Desde que te conheci, não sei mais. Só sei que me destraio nas horas mais indesejadas. O tempo todo. Quase.
Sempre música.
Liz Christine

Felinos na Noite
pelos móveis pelo chão
ronronando
felina satisfação
contaminando
o ambiente com carinho
pêlos e sofisticação
de raça ou de rua
seres da madrugada
sinistros ou fofinhos
longilíneos ou pequeninos
gatos
passeando
pela casa
madrugando
em meu colo.
Liz Christine
