A dor. Sinto o meu corpo a desfazer-se com a dor. Os suores são como rios de lava que sobem pelas pernas queimando, esgotando, fervendo o mais puro fluído. A essência. A leve e pura raiz de todos os sentidos, vai com o tempo, vem com o vento e torna-se cada vez mais diluída com o bater das portas. A dor. A dor que me faz dobrar e parar, que me faz chorar e pedir. Levanto as mãos ao céu como um pedinte de luz que percorre o tempo sem saber o trilho das horas. Pode ser hoje, pode vir amanhã. Parece que está sempre à espera do ataque, da perfuração. Esgoto-me, dia para dia luto contra o derramar das sensações. Parado, reflicto. Fecho os olhos e respiro. Conto até dez em lufadas de revigorante estado de calma. Rodeado, flectido, ecoam as respirações e as almas que se elevam em busca do estado de leveza. O estado de puro sentido que nos torna mais dentro do menos. Mistura de cores e outro sabores, tudo se completa com as alterações do vazio. Tudo se inunda com a alegre tristeza de perceber quem realmente somos. Com o partir, com o quebrar. Com a abertura deste leque que tanto me ensina e que agora fica pousado à espera de que a dor me deixe, de que a dor me permita abrir o leque que tanto me ensina e tanto me emociona com o seu abrir.
Dia 1
Acordo. Este é o primeiro dia. Começo. Abro os olhos e percorro os cantos pensando que esta noite ela não apareceu. Menos um dia. Bebo o néctar que a vai fazer parar. Volto para o silêncio. Hoje conta como o primeiro dia em que não me vou mexer, em que a música não vai acompanhar os movimentos dinâmicos que me fazem acordar, que me fazem ver o mundo com explosões mágicas de sequências de movimentos que batem e estalam nas horas de perdição. Agradeço toda a ajuda. Aqueço. Como. Saio e percorro o mesmo caminho que sempre percorro quando ela vem. Hoje acompanha-me, ténue, surda. Hoje vai comigo e espero que não me acompanhe por ter-me perfurado com uma, duas, três, quatro, cinco, seis e ligo-me à corrente. Start. São vinte, são momentos de dispersão constante com trémulos espasmos internos com resultados silenciosos. Sinto a revolta, sinto o percorrer do lixo pelos tubos que me unem as vísceras. Ando, ando, ando e olho-me com o pensar de não querer que me volte a acontecer, falta menos um dia. Estou ansioso. Tento refugiar-me no meu espaço de refugio. Espero que esta noite passe rápido. Amanhã segue-se o segundo dia. Será menos um dia. Será mais uma pequena vitória neste calvário existencial. Não vou deixar-me vencer. Agora chegou o momento de lutar e explodir. È no interior, é no mais escuro ponto da alma. È no ser. È no existir.