SUPER
DESINTERESSANTE
Ana e
Jonas estão se maquiando. Conversam tranquilamente enquanto se pintam e trocam
de roupa.
Ana:
Sabe que hoje, antes de vir para cá, eu tava meio
desanimada; meio sem saco. (Pequena
Pausa).
Jonas:
É?
Ana:
Aí, tomei um banho, sabe aquele banho de horas, que
você pensa com a água batendo na cabeça? Depois dobra para a água beter nas
costas? Eu não tava pensando nada de especial não, sabe? Tava com a cabeça
vazia… (Pequena Pausa) É uma delícia
quando a cabeça fica vazia, né? (Pequena
Pausa) Tá me ouvindo Jonas?
Jonas:
Tô
Ana:
Então… aí saí na rua, olhando as caras das pessoas,
o céu. Você olha o céu?
Jonas: Às vezes.
Ana:
Sabe que às vezes eu esqueço que tem céu? Hoje tava
lindo: meio nublado.
Jonas: Às vezes.
Ana:
O ônibus nem tava muito cheio. Também não tava vazio. Tava legal. Aí eu sentei,
olhando… a cabeça meio vazia, um pensamentozinho aqui outro ali… Aí entrou um
cara no ônibus vendendo bala. Normalmente eu fico meio constrangida com esses
caras; esse jeito que eles têm de falar, parece uma ladainha. Mas me deu uma
vontade de comer bala. Fiquei com boca de bala. Tava com tanta boca de bala,
que quando botei na boca uma vermelha, chegou a doer aqui atrás. Fiquei o resto
do caminho chupando bala. Quer uma bala? Ainda tem.
Jonas:
(sem resposta)
Ana:
Jonas! Cê quer uma bala?
Jonas: Hã?
Ana: Tô te oferecendo uma bala,
quer bala?
Jonas:
Ah… quero.
Ana:
Cê não tá prestando a menor atencão no que eu estou falando, né? Aí, quando eu
saltei do ônibus, aí aconteceu: bateu um ventinho. (Tempo)Um ventinho manso, sabe? Sabe aqueles
ventinhos que não dão frio?, dão uma refrescada. Que são tão levinhos que
parece um carinho na pele? Pois é. Minha pele arrepiou. Aí, quando arrepiou foi
que eu senti. Sabe o que eu senti?
Jonas: Não tenho a menor
idéia.
Ana:
Eu também não. Quer dizer, eu sei, mas não sei explicar. É um troço assim, que
é tanta coisa junta… era uma coisa… uma espécie de inchaço… sabe? Como se
tivesse um balão aqui dentro? Assim, branco.
Jonas: Às vezes pode ser gazes.
Ana: Eu fiquei parada
na ponto.
Jonas:
Isso sempre te acontece?.
Tempo
Ana contente sentindo.
Ana:
Parecia uma onda de amor, mas não era por ninguém. Era por tudo. Uma coragem.
Era como se eu fosse uma bola de amor. Um embolado… Sei lá.
Reação de Jonas, que cantarola uma música POP que fala de amor.
Ana:
Uma sensação assim meio depois de trepar. Era como
se o mundo tivesse me comido, sabe? Uma comida daquelas boas?
Jonas:
Não. Não sei.
Ana:
De repente, eu tava lá sozinha no meio da Barão de
Mesquita,
Jonas:
Me empresta o seu baton?
Ana:
não precisava ninguém: nem Deus, nem explicação,
dinheiro; não precisava de nada. Uma calma.
Me deu uma vontade de ter netos, bisnetos, fazer pão.
Jonas:
Ana, você fumou um beque antes de vir?
Ana:
Como se… Eu tô viva! Não precisava inventar. Não precisava
mudar nada. Tava feito.(Tempo) Tudo,
todo o mundo…
Jonas:
Vai ver é alteração hormonal.
Ana:
Uma vontade de rir. (Tempo) De rir assim, no rosto, aqui dentro cheinho, uma coisa boa…
Parada, ali na Barão de Mesquita… o ventinho… uma leveza…
Jonas:
Cê se importa se eu ligar o rádio?
Ana
não responde porque está lá, com cara de alegre, nem escutando o que ele diz.
Jonas liga o rádio.