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São uma das bandas mais veteranas da série Optimus Discos mas encaram cada canção como se fosse a primeira. Pop luminosa e transatlântica com carimbo de Viana do Castelo.
Amantes de cinema, como a referência ao realizador no nome da banda
deixa antever, os Madame Godard têm uma história insólita e sinuosa que
já dava um filme. Em finais da década de 90, graças a vários concertos
que caíram no goto de público e imprensa, a rapaziada de Viana do
Castelo angariou títulos como os de "grande promessa" ou "banda
revelação" da música portuguesa. Mas mesmo então, os Madame Godard
mostravam ser pouco dados à estagnação - em Paredes de Coura, há
precisamente dez anos, apanhavam de surpresa o repórter BLITZ. "Quando
me preparava para mais uma sessão de música funerária, eis que irrompe
pelas colunas do palco um amontoado de samples minimais onde se
percebia a presença de "Mic Check", de Cornelius. Esfregam-se os olhos
e apuram-se os sentidos com tamanha demonstração de bom gosto: seriam
mesmo os Madame Godard?", interrogava-se, estupefacto, o nosso
jornalista. Eram mesmo, e num ano em que bandas como os dEUS ou os
então popularíssimos Gomez deram um ar de sua graça no anfiteatro
natural do Tabuão, os vizinhos Madame Godard - naturais de Viana do
Castelo - acabaram por dar um dos concertos mais falados do Verão. A
reportagem BLITZ salientava, com gosto, a "profunda reestruturação
estética" a que a banda se submetera, e o sentimento geral era de que o
futuro aos Madame Godard pertencia. E eis-nos chegados a 2009, sem que
daquelas bandas tenha saído um disco que seja. A pergunta que se impõe
- afinal, o que é que os Madame Godard andaram a fazer? - é respondida
com bom humor pelo vocalista Juvenal Vieira.
"Em 1999 ou 2000 tivemos alguma expressão uma data de oportunidades.
Na altura tínhamos 19, 20 anos, e o pessoal estava na faculdade, a
estudar fora [de casa]", recorda. "A música era uma prioridade,
tínhamos tempo para ela. Por volta de 2001 houve pessoal que foi
estudar para o estrangeiro, outros desinteressaram-se da música, e
acabámos por estar sem tocar uns cinco ou seis anos. Os Madame Godard
estiveram mesmo em stand-by. Juntávamo-nos para tocar de vez em quando,
mas numa perspectiva... mais a brincar", explica, entre risos.
No ano passado, porém, rumores de que os Madame Godard estariam a
gravar o seu primeiro álbum começaram a surgir em vários quadrantes,
internet à cabeça. Qual foi a gota de água nesta ressurreição da banda
de "Love Is Poker"? "Houve aquele sentimento de "temos de fechar o
ciclo"", avança Juvenal Vieira. "Com o tempo começámos a pensar que até
tínhamos feito umas coisas porreiras, mas nunca tínhamos fechado o
ciclo, editando um disco". Em finais de 2006, a banda reuniu-se para
começar a urdir um ponto final para esta sua primeira encarnação.
"Achámos que tínhamos de gravar um disco, porque tínhamos canções que
mereciam ser editadas".
É neste ponto que a rota dos Madame Godard é novamente desviada,
desta feita por uma boa causa: o convite de Henrique Amaro para que
integrar a série Optimus Discos, para ela criando um EP. "Achámos que
era de aproveitar", explica Juvenal Vieira, garantindo que Aurora, o
conjunto de cinco solarengas canções reunidas no EP, não atrapalha o
parto do tão adiado álbum. "Se as coisas correrem bem sairá em Setembro
ou em Outubro, no máximo. E, provavelmente, terá um ou dois temas do
EP".
A brincar, a brincar - e a perspectiva lúdica é algo que os Madame
Godard, nas suas arejadas canções, nunca perdem de vista - o grupo de
Juvenal Vieira, Pedro Amaro, Paulo Oliveira, Paulo Gonçalves e José
Ribeiro acaba de atravessar duas décadas bem distintas no que à criação
e ao desfrute da música diz respeito. Será que sentiram o "poço de ar"
entre os anos 90 e os 00? "Sem dúvida", exclama Juvenal, vocalista e
homem do theremin. "Hoje em dia há uma ideia, que me parece geral e
correcta, de que a música portuguesa está de boa saúde e que há muita
criatividade e diversidade. Eu acho que isso é resultado das
ferramentas tecnológicas que os anos 00 nos trouxeram. A começar pelas
plataformas de divulgação na internet - o myspace, o YouTube - e de
composição. Hoje, um indivíduo que tenha uma ideia para fazer uma
canção, com um PC ou um portátil é capaz de gravá-la e masterizá-la. Há
10 ou 15 anos era mais complicado".
2 OU 3 COISAS A FIXAR
Uma versão acalorada de "Spanish Bombs", dos Clash, foi uma das grandes
surpresas do recente concerto dos Madame Godard na Loja Optimus da Casa
da Música, no Porto. Perante uma plateia de fãs e convidados, a banda
apresentou as canções do EP Aurora e também aquelas que darão corpo ao
seu primeiro longa duração, previsto para o Outono.
FACTO
No retrato "de família", os Madame Godard aparecem com a cara tapada
por fotos de Jimi Hendrix, John Lennon e Elvis Presley, entre outros
ilustres da linhagem rock. A ideia era ilustrar "a liberdade" da banda
na hora de fazer música, explica o vocalista Juvenal.
Aurora
OPTIMUS DISCOS/COMPACT RECORDS
Dez anos passaram desde que os Madame Godard abandonaram, pela primeira
vez, o "ninho" de Viana do Castelo, mas a sua pop mestiça- com Brasil,
França e América sempre por perto - não perdeu um grama de frescura.
"Queens of Twilight" ou "Hardly Alone" são capazes de animar qualquer
Primavera e cativar fãs de Belle Chase Hotel, Stowaways ou Belle &
Sebastian.
Texto: LIA PEREIRA |