MySpace
myspace music


carolina diz



Last Updated: 9/28/2009

Send Message
Instant Message
Email to a Friend
Subscribe

Status: Single
City: Belo Horizonte
State: Minas Gerais
Country: BR
Signup Date: 3/12/2007
Thursday, April 24, 2008 
..TR> ..TR> ..TABLE> ..TABLE>
9:51 PM
 

CAROLINA DIZ - CRÔNICAS DO AMANHECER

 

por Lafaiete Jr


As grandes metrópoles contemplam grandes e incríveis personagens do cotidiano, mas desconhecidos da maioria, escondidos pelas sarjetas de ruas imundas e obscuras. E um desses personagens é Carol, com seus quase trinta anos, que sempre diz não gostar da vida que leva, mas vive com a satisfação e o pudor necessários para manter uma vida pacata, sem grandes pretensões. A não ser o anseio por felicidade. Ainda assim, vez ou outra deseja dinamitar a tal cidade em que habita, a Belo Horizonte do século presente. Principalmente quando as paredes riem de sua solidão, não sabendo elas que a festa rola solta mesmo é por paredes não muito distantes dali.

Seis da manhã de uma terça-feira qualquer e o relógio desperta com o barulho perturbador de sempre. Carolina levanta-se da cama e coloca o disco de uma banda xará para tocar enquanto vai arrumar o café e preparar sua filha, Lúcia, para a escola. E o verso "me diz quando isso vai terminar", de "Hotel Esplendor", nunca fez tanto sentido como naquela manhã. Sofreu bastante na noite anterior. A rotina é a mesma, não importa qual o dia da semana. Ajoelha-se diante de uma imagem de Cristo crucificado murmurando uma prece. Porém, de fácil identificação com "Mariana", canção crua e pop que há um bom tempo não se houve e que ecoa ao final do estreito corredor, enquanto sua filha toma café na pia da cozinha. Não, naquele lar não há mesa. Fim da prece de uma e do café da outra, as duas saem rumo a escola da mulher que ainda não sofreu os desafetos e as dores da vida. E às sete da manhã Lúcia fica na escola, enquanto Carol sai para pagar as contas e resolver as pendências de um lar sem uma figura masculina.

O disco – "Crônicas Do Amanhecer" – que estava escutando pela manhã em casa agora a acompanha pelas ruas daquela manhã cinza por meio de seu aparelho MP3, presente de um de seus clientes mais legais e humanos, segundo ela mesma. Sua única família era o filhote que acabara de deixar a porta da escola e que lá permaneceria até o início da noite, de todas as noites. Carol não se dava muito bem com sua família. Dizia, assim como na deliciosa e seca "Chinelos No Corredor", que "basta uma família pra me sentir entre inimigos / por isso não quero ouvir chinelos no corredor". Exceto as pantufas do Bob Esponja de Lúcia.

Sempre escuta esse disco, pois ali estão músicas que traduzem com uma perfeição incomum sua vidinha estranha e desconhecidamente conhecida. Há tempos atrás ela aposentou o suicídio e resolver, ao seu modo, buscar o dinheiro que dá ordens e o pão de cada dia. Em suas andanças pelas ruas da cidade, chega ao hospital para buscar o resultado de um exame que fez há três ou quatro semanas e, com certo espanto, acha estranha a coincidência entre as canções que entram em seus ouvidos com as cenas que seus olhos registram. Ali mesmo, no corredor daquele lugar com paredes de açougue, "A Mesma Cruz", com o verso "nossos dias são constelados por furos de balas perdidas" exemplifica o "cadáver adiado na fila do SUS" exposto aos olhos de qualquer ser humano capaz de enxergar. Pega o exame e sai aliviada, tanto por ficar longe daquelas paredes quanto por saber que o resultado deu negativo. Um alívio para ela.

Dentro do ônibus, as guitarras sujas e entrelaçadas de "O Que Me Faz Cantar" trazem à memória tristes lembranças da noite anterior. As lágrimas descem quando Humberto Teixeira canta "e ficaram deuses e demônios / no céu do meu corpo / a ilusão do seu gosto / na devoção de outro rosto". Talvez ela não chorasse, talvez. Principalmente se não tivesse aquela melodia. E que melodia, pensava ela enquanto secava os olhos com a manga da blusa verde desbotada. Desce do circular e, logo numa esquina qualquer, esperando que o semáforo ascenda a luz verde para sua travessia segura, lê em um papel colado no poste com uma foto em preto e branco manchada pela chuva: "Letícia dos Santos desaparecida desde sábado / foi vista pela última vez na praça 1º de Maio / trajava saia e blusa azul, morena, cabelos encaracolados / ao irmão disse apenas que iria comprar cigarros". Ficou perplexa com as informações do humilde cartaz e ainda mais assustada quando atravessou a rua e leu a manchete de um desses jornais sensacionalistas, dizendo que encontraram a mesma Letícia dos Santos "com cortes em todo o corpo e um dos olhos arrancado / foi encontrada por vizinhos num ferro-velho abandonado".

Carol estava muito sensível naquele dia, seus olhos se encheram de lágrimas tão verdadeiras e serenas quanto a declamação do baterista César Gilcevi, amparado por guitarras singelas, na canção cujo nome é não menos que "Letícia". Resolveu ir para casa e passar o resto do dia lá. A caminho de seu lar, uma vendedora de qualquer substância para emagrecer trinta mil calorias por segundo, percebe seu triste semblante e lhe oferece "duas pílulas de satisfação a cada refeição". Ela não aceita e lembra do casamento certeiro de eletrônica com riffs de guitarra de "Canção Para Animais Modernos" e do livro de Aldous Huxley, "Admirável Mundo Novo". Pensa que tais pílulas devem ser as mesmas do visionário autor.

Já em casa e de volta ao som do disco da mesma manhã, a mulher triste daquele dia lembra que a noite estava para chegar e encontra um conforto torto em "O Migrante", já que para ela "as ruas parecem ter sido seu berço / um cativeiro sem fim e sem começo". Mas tenta não pensar muito nisso e começa a varrer sua casa, seu refúgio em meio a noites tão obscuras e melancólicas. Ainda assim se acha diferente do resto do mundo. Definitivamente não faz o estilo de "patricinhas ripongas pagode / funk axé e shopping", versos de "Só Me Filio À Raça Humana Nas Contas A Pagar". Embora pague suas contas em dia e grite tão alto quanto o final apoteótico das guitarras de Fernando Prates nessa mesma canção. Além de que também não é raro ela ficar tão brava e densa quanto o baixo de Denis Martins, em "Esperando Por Mim" e berrar todas as suas raivas e mágoas ao estilo de "Em Qualquer Lugar", cujo verso "a justiça dorme tranqüila nos lençóis da prostituição" ela entende com toda propriedade. E como entende...

Alguns toques codificados a porta avisam que a vizinha, um verdadeiro anjo suburbano, trazia Lúcia para casa, depois de buscá-la na escola, junto de seu filho, e lhe dar o que comer. Talvez fossem umas dez horas da noite. Carol coloca Lúcia para dormir e vai tomar banho escutando, no radinho de pilha do banheiro, uma notícia parecida com "A Balada De Mateus E Renata". Na qual um casal antecipou sua estadia na selva de concreto em busca da cumplicidade eterna. Uma notícia tão longa e sadicamente apaixonante quanto os eternos e instigantes minutos da canção da Carolina Diz com suas diferentes nuances. Termina o banho junto com a notícia do radinho, troca-se rapidamente, coloca suas roupas a lá femme fatale para o trabalho, despede-se de sua filha com um beijo doce na testa daquela pequena mulher que ainda não tem idade para sofrer. Tranca a porta do apertado apartamento e, como toda noite, parece que ela vai "Nascer De Novo". Desce as escadas cantarolando a urgência pessoal de "e vamos nós / nascer de novo / recomeçar".

O táxi está a sua espera na esquina do quarteirão de baixo, perto de algumas "escadarias de spray e mijo". E lá vai Carol, pronta para atravessar meia Belo Horizonte que se confunde com a beleza não maquiada de "BH Blues". O cliente de hoje marcou o encontro justamente no Edifício Maletta, tendo o casaco marrom e o cara que vende papelotes como ponto de referência. Ela já é calejada nesses encontros profissionais e não demora em encontrar sua figura masculina da noite. Bebem algumas cervejas para esquentar o frio da lua cheia e aquecer o gás da cama que está por vir e saem em direção a um motel de segunda. Onde a festa rola solta entre paredes que não riem de sua solidão, mas sim se entusiasmam com a verdadeira crônica que é a sua vida, fazendo com que sua noite seja mais noite que a própria noite.

Powered by
Google Translate
English
Albanian
Arabic
Bulgarian
Catalan
Chinese
Croatian
Czech
Danish
Dutch
Estonian
Filipino
Finnish
French
Galician
German
Greek
Hebrew
Hindi
Hungarian
Indonesian
Italian
Japanese
Korean
Latvian
Lithuanian
Maltese
Norwegian
Polish
Portuguese
Romanian
Russian
Serbian
Slovak
Slovenian
Spanish
Swedish
Thai
Turkish
Ukrainian
Vietnamese