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THE VICIOUS FIVE are Lies.

THE VICIOUS FIVE



Last Updated: 10/15/2009

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Status: Single
City: Lisbon
Country: PT
Signup Date: 6/16/2005
Tuesday, November 08, 2005 



THE VICIOUS FIVE

Urgência Em Loop

The Vicious Five. Alma. Energia. Descontentamento. Força. Hinos. Ritmo. Rock. Desconstrução. Inconformismo. 33 minutos. Vontade. Suor. Punk. Inteligência. Incitação. Velocidade. Êxtase. Liberdade. Peso. Urgência. Groove. Atitude. Carisma. “Up On The Walls”.

 

Os Vicious Five estão apresentados, mas Portugal está, por vezes, pouco habituado aos termos acima descritos. O leitor lembrar-se-á de bandas como os Zen, Mão Morta ou Loosers para refutar parcialmente a afirmação anterior. No entanto, não é exagero dizer que há anos que Portugal não via nascer uma banda rock (o punk fica, por agora, de lado) deste calibre. Apesar deste parecer ser o momento oportuno para a banda, eles dariam que falar nem que fosse na Tasmânia. Os Vicious Five são oportunistas ou criaram as condições para “Up On The Walls” estar a bater forte (na minha cabeça, na de outros, na dos media) como está? Oportunistas são e gostam de o ser. Pilharam as influências, assimilaram-nas, deram-lhes um chega para lá, escreveram o disco durante um ano e gravaram-no em dois dias. A curiosidade dos media cresce, o público aumenta a cada concerto e a internacionalização dá passos pequenos mas seguros. Segue-se a conversa com quatro quintos da banda.

 

Croustibat, Human Beans e Renewal. No vosso background musical já constam alguns nomes. Os Vicious Five nasceram das cinzas dessas bandas ou não existe nenhuma relação entre ambas as coisas?

 

Paulo Segadães – Noutros tempos integrámos essas bandas e agora estamos todos juntos, mas os Vicious Five são uma banda nova. Não há relação entre esta e as nossas bandas do passado.

Joaquim Albergaria – Se calhar por não ter muitos pontos de contacto é que este projecto surgiu.

 

Acho que estão a conseguir um dos objectivos de qualquer banda que se preze: desligarem-se das influências de modo a conseguirem uma sonoridade cada vez mais própria. Os ecos de Refused, Snapcase, At The Drive-In ou JR Ewing já vão um pouco longe. Destes talvez escolhesse os JR Ewing como a influência mais visível actualmente...

 

Bruno Cardoso – Sou capaz de perceber a relação devido às guitarras e principalmente ao novo álbum deles, a voz lembra-me os Jane’s Addiction... de Snapcase não vejo nada...

Pois, é discutível...

PS – Sim, mas mesmo sendo discutível não fazemos nada pensando que vamos soar como este ou como aquele grupo mas há-de haver partes que soam a essas bandas.

O que quero dizer é que cada vez se nota mais uma identidade própria, ficando as influências mais para trás.

PS – É natural, quando tu começas estás sempre mais ligado às coisas que ouves, às coisas que cada um dos membros transporta para a banda, mas à medida que vais tocando mais e compondo as músicas em conjunto começas a distanciar-te das tuas influências e acabas por criar a tua cena...

 

Quando escrevi sobre o EP “The Electric Chants Of the Disenchanted” para a Mondo Bizarre [nº 18 – Março/2004] vocês eram bastante desconhecidos. Saiu o EP, seguiram-se uns quantos concertos em Lisboa, alguns no resto do país (Sudoeste incluído) e incursões até Espanha. Tem sido uma correria...

 

JA – Não tanto como nós queríamos...

PS – Gostávamos de tocar muito mais. Nós achamos que tocamos pouco. Se pensares, no Verão tocámos dois ou três concertos, e em Portugal o usual é tocar o Verão inteiro. Já temos alguns agendados mas é coisa de fim-de-semana em fim-de-semana.

 

Sim, mas também andavam entretidos com a gravação e composição do disco...

 

JA – Sim, decidimos não tocar muito por isso mesmo.

PS – Mas gostávamos de tocar muito mais, fazer digressões mais extensas, tipo quinze dias ou um mês se pudéssemos. Claro que nós temos as outras vidas, trabalhamos, etc.

 

Agora fazem parte da família Loop:Recordings normalmente associada ao sons hip-hop/soul/funk, mas na descendente Loop:Off que busca outras sonoridades. Sentem-se integrados?

 

BC – A começar principalmente pelo método de trabalho, entendemo-nos todos bem em relação aos objectivos, tem sido uma boa simbiose.

Rui Mata – A maneira deles fazerem as coisas agrada-nos.

PS – A maneira de pensar também, revemo-nos nisso.

BC – Eles têm respeitado o nosso território, não tentam inventar nem nada disso.

 

Gravaram este disco em apenas dois dias e no melhor estúdio de Portugal (Valentim de Carvalho, em Paço D’Arcos). Sentiram-se pressionados por estes dois factores?

 

JA – Nós nunca gravámos sem pressão. Não tínhamos nem tempo nem dinheiro para gravar, foi sempre o máximo no mínimo de tempo possível.

PS – Quase que foi um milagre.

BC – O primeiro objectivo era gravar a bateria num estúdio bom porque é o mais difícil de gravar. O resto seria aqui e ali, por exemplo, na nossa sala de ensaios onde gravámos algumas vozes. O som é bom e as guitarras sairiam de lá com um bom som, mas foi melhor gravar em Paço D’Arcos, até porque fizemos bons takes com a banda a tocar toda ao mesmo tempo e isso transmite um feeling diferente.

RM – Nós não esperávamos sair de lá com o instrumental todo gravado.

PS – Foi uma surpresa. Chegámos ao fim do primeiro dia e percebemos que a maior parte estava feita.

 

As vozes não foram gravadas lá?

 

JA – Três delas foram, as outras foram na sala de ensaios. O disco estava feito há meses e meses. Tudo mais que ensaiado, passámos um ano a fazer o disco.

RM – Foi uma pressão positiva, chegares lá e olhar para aquela parafernália toda...

BC – Fomos lá para gravar, não para inventar nada. Fizemos uma ou duas coisinhas novas.

PS – Pequenos pormenores, mais coisas de voz. Todo o instrumental estava muito bem preparado antes de entrarmos em estúdio. Para uma banda das nossas dimensões nem há outras condições, não temos dinheiro para estar num estúdio a criar.

JA – Nem nós funcionávamos da mesma maneira a escrever em estúdio.

PS – Se pudéssemos estar no estúdio sem gastar dinheiro poderia funcionar, mas pressionados com o factor orçamental para nós não dá. Acho que conseguimos fazer um bom trabalho com o pouco tempo que tivemos.

JA – O disco no total foi feito em quatro dias, mistura e tudo.

 

Este disco mostra uns Vicious Five mais maduros na composição, mais conscientes do que fazem e para onde querem seguir. O EP era como um “olá, nós existimos, ainda vão ouvir falar de nós.” E este “Up On The Walls” é mais como um “crescemos, se não nos ouviram podem-se morder todos.”. Concordam?

 

JA – O primeiro EP é um bocado especial porque surgiu numa altura de ruptura da própria banda, com mudanças de formação dentro do estúdio, e o próprio espírito de composição foi demasiado descontraído, pouco pensado, mais emocional. Por isso é que o disco é tão urgente, tão rude. Este demorou um ano a ser escrito, em que íamos tocando e compondo e, quando estava quase pronto, fomos abordados pela Loop, houve conversações e acabámos o disco. A pré-produção foi feita em ensaio, o Luís Caldeira veio aos ensaios ver como se podia abordar a gravação, e em quatro dias o disco estava feito. Enquanto que o outro disco demorou seis meses, com um orçamento muito inferior. Fizemos um take directo, com os overdubs de voz em três dias, num estúdio de qualidade inferior. Foram situações diferentes, com pessoas diferentes, a conjuntura, os meios e o modo de operar foi também diferente. Sinto-me mais confortável com este disco. Foi discutido, pensado, planeado e composto pelos cinco, o artwork foi feito pelos cinco... tudo muito mais oleado, mais maturado, conversado. O outro foi simplesmente excreção.

A urgência de pôr uma gravação cá fora...

BC – O objectivo da gravação nem sequer era gravar um EP de fábrica, era gravar uma cassete, depois é que nos apercebemos que se calhar valia a pena investir um pouco mais visto o som não estar assim tão bera. Acho que foi uma boa aposta.

PC – Foi uma questão financeira, a coisa saiu bem e o CD não era assim tão caro como isso.

JA – E é diferente, este foi pensado como um disco o outro foi um bocado como as músicas que tínhamos até à altura. O próprio conceito dos Vicious Five estava um pouco em desenvolvimento, e ainda está. Há uma identidade mais própria não só a nível musical, quem é que nós somos, como é que funcionamos juntos, quais são as expectativas de cada um em relação à banda, tudo isso está muito mais claro e discutido. A prova disso é que no EP tens mais facilidade em apontar as referencias, desta vez tens mais dificuldade em equipará-lo a alguma coisa. Podes perceber que fomos buscar as guitarras ali ou acoli, a maneira de compor ali ou acoli, mas em relação ao todo não consegues arranjar paralelo.

 

Não é só em termos de composição que se encontram diferenças entre o álbum e o EP. “Up On The Walls” está mais produzido, com um som mais limpo. Como foi trabalhar com um produtor conceituado como o Luís Caldeira?

 

BC – Ele é conceituado mas discreto, essa é a minha opinião mais imediata dele. Gostei muito de trabalhar com ele porque entendeu logo o que queríamos e não tentou meter o dedo.

PS – Ele foi muito inteligente porque percebeu que não tínhamos nem muito dinheiro nem muito tempo e como nos tinha visto tocar, percebeu como é que nós queríamos soar. Percebeu que o nosso som resultava de uma certa forma, que nós não somos os melhores músicos do mundo, que não podíamos estar cada um a perder muito tempo a gravar o seu instrumento. Arranjou uma maneira inteligente de gravar de modo a que nós conseguíssemos transmitir a energia que temos ao vivo.

JA – A questão é simples: O Luís é um roqueiro, ele percebe a urgência do volume, do peso, a abrangência de som, percebe isso tudo intuitivamente e por amor, como nós. Nós queríamos soar alto, ter um som real: ele disse “perfeito, vamos tocar juntos, acho que a vossa energia vai ficar boa, vamos gravar em fita, fica logo o quente que vocês querem.”. Para nós gravar em fita foi uma oportunidade fantástica, nós tínhamos o fetiche do analógico há anos e nunca se tem dinheiro para essas coisas...

 

Como é que funcionou o processo de composição? Alguns temas já tinham cerca de um ano. Sentiam que ainda havia um longo caminho a percorrer?

 

BC – Este período serviu para fazer algumas mudanças mas a estrutura principal foi mantida, o que foi bom, principalmente para a voz. É difícil para uma banda que toque numa garagem, com tudo alto, perceber bem a voz. O Quim sabe o que está a cantar mas para nós é complicado.

 

O tema “About Teennihilism” era, na versão demo, mais enérgico, mais cru, resultado da parte de guitarra na primeira mudança de ritmo. Porquê a mudança na versão final?

 

BC – Essa é a música mais antiga do disco.

JA – Foi a primeira música que escrevemos a seguir ao EP.

 

Talvez por isso tivessem mais vontade de a alterar?

 

JA – Nem tem muito haver com isso. Não foi por consciência de picos e vales, quando é que há a tensão, quando há o release, resolvemos foi abrir mais aquela parte do descanso. Eu sempre fui apologista do imediato, eles são os músicos em si e tendem a pensar mais nas coisas, como é que a coisa pode fluir melhor, como é que pode respirar melhor. Uma ideia presente neste disco foi como fazer a nossa música respirar. As outras músicas eram mais curtas, com estas quisemos criar mais ambiente, que elas respirassem para quando as levantasses outra vez as levantasses ainda mais... e eu sempre fui fã de levar sempre ao extremo. Eu gosto muito das duas versões, e é das músicas que mais gosto, ao contrário deles. A versão nova faz sentido como um todo nos Vicious Five de agora, a outra era uma versão de transição. É uma boa forma de testemunhar o nosso progresso.

BC – É giro porque essa música foi a última a ser decidido como iria ser gravada apesar de ter sido a primeira a ser escrita.

 

Uma das mais-valias do vosso som são os riffs de guitarra. Parecenças sonoras à parte, fazem-me lembrar os Franz Ferdinand. Riffs muito angulares, certeiros, cativantes e viciantes. À semelhança das dos escoceses, acho que oito nonos das músicas davam um bom single.

 

BC – Penso que tens alguma razão. O nosso som tem a drive dos Hot Snakes com um bocado do groove dos Franz Ferdinand.

JA – É catchy. Uma das forças que nós temos é possuirmos ouvido tanto para o ataque punk como para a solução fácil e eficaz da pop. Temos a escola punk, do simples que funciona como ponte entre o drive e o anzol, essa equação saiu-nos bem, sem grande esforço.

Porquê a escolha de “Bad Mirror” para single?

JA – De todas [as músicas] penso que é a que tem o carácter mais FM. Chegámos à conclusão, em conjunto com a Loop, que seria uma boa aposta para primeiro single.

É uma boa porta de entrada para vos conhecerem.

JA – Sim, e no “Bad Mirror” reconheces muitos tiques de rock mais acessível, o que poderia ser mais difícil de encontrar noutra música de Vicious Five, a música é mais aberta, a própria construção é em acordes maiores.

BC – É dançável. Mesmo sendo sujo e berrado tem aquele toque mais FM. Nós tínhamos mais hipóteses mas numa conversa de cinco minutos com a Loop escolhemos esta.

Joaquim, o teu registo no disco está um pouco diferente do EP, mais cantado e menos gritado. Isso foi algo intencional ou é maioritariamente fruto da produção do disco?

JA – Essencialmente é uma evolução dado que a gravação do EP coincidiu com a minha primeira experiência como vocalista.

BC – Não houve um único ensaio antes da gravação do EP.

JA – Nunca tinha sido vocalista de banda nenhuma. O resultado deste disco é fruto de um ano de concertos, ensaios, treino e experimentação com a minha voz. É uma surpresa tanto para ti como para nós. Ficámos um pouco espantados com o resultado, eu um pouco menos, afinal de contas vivo com a minha voz na minha cabeça – com toda a esquizofrenia que isto possa indicar. (risos) Foi uma evolução, a vocalização foi premeditada mas a voz em si, o seu registo fruiu da percepção que nós os cinco tivemos do que é que eu conseguia fazer como vocalista. Já surgiram montes de ideias novas sobre coisas que se podem fazer, percebemos a potencialidade, pela maneira como eu abordo as novas músicas, já o faço com uma consciência diferente do meu aparelho vocal. Já todos temos uma ideia mais concreta do que consigo fazer.

BC – Por vezes nos ensaios nós dizíamos-lhe para ele encaixar mais melodia, ele dizia que o estava a fazer e nós ficávamos tipo “hãhã, tás tás...”. Um gajo num ensaio ouve barulho e um gajo aos gritos. Quando ele foi gravar a primeira voz (“Suicide Club”), uma música com registo vocal gritado, para a frente, ficámos todos parvos. O registo é, como o era habitualmente, projectado, forte, mas ele consegue encaixar melodia. A métrica é um bocado peculiar, não encontro mais vocalistas que o façam desta forma. Eu atrapalhava-me a tocar essa música depois de saber como é que ele a cantava mesmo, parece que entra fora de tempo mas não entra, só que eu atrapalhava-me... e isso é uma mais-valia da voz dele.

JA – É a mais-valia dum baterista a cantar.

 

“The Electric Youth” é perfeita para fechar o disco. Possui uma estrutura diferente, é mais directa, mais in your face. Foi propositado?

 

JA – Sempre foi vista assim. Saiu naturalmente assim. É uma boa música para encerrar porque é uma música que não tem fim. Há um fim ilusório, há um punchline que é um reabrir de conclusões. Seja melódico, seja de forma, seja de conteúdo. É o fim clássico pós-moderno, mostra a mecânica e é inconclusivo, é obra aberta. Instrumentalmente é inconclusiva e obriga as pessoas a carregar no play outra vez, eventualmente a reler ou mesmo a pensar no que está a ser dito no disco. Nos concertos é perfeita porque as pessoas ficam a pedir por mais. Deixar as pessoas com sede numa época de piscinas é uma boa estratégia.

 

Ao vivo porque é que não usam tanto os coros como em disco?

 

BC – Na gravação eram bastantes pessoas...

JA – Estamos a contar com o público. A visão desses coros no disco foi a de imaginar aquele fim quase épico, de uma sala inteira a entoar exactamente a mesma coisa: uma sala cheia de putos num concerto com as vozes do público a abafar por completo a banda. Isso é a nossa visão dum final de concerto perfeito. Toda a gente a sentir-se uma juventude eléctrica.

 

Vários membros dos Vicious Five andam entretidos com outros projectos. Os Caveira e as iniciativas da Kid City, entre outros, ajudam a manter-vos ocupados. Sentem necessidade disso?

 

JA – E mencionaste alguns de muitos...

 

Vi até um concerto duma banda do Paulo na Universidade Nova...

 

JA – Os Wifes Knives num evento da Kid City. É ele, o Rui e dois elementos dos Day Of The Dead. Há os míticos e infames Gafanhoto que ninguém sabe quem são. (risos) Nós inventamos uma por dia.

BC – Se os Vicious Five agora acabassem nós teríamos não sei quantos projectos para fazer, as ideias não estão assentes em papel mas estão na cabeça. Quase que brincamos com isso. Não sei se parte do facto de sermos melómanos...

JA – Acho que está relacionado com o facto de sermos melómanos, viciados em música, e na escola punk rock sempre foi muito fácil começar a banda a seguir. É tipo um desporto da nação punk.

 

Com uma maior legião de seguidores e com um disco quente nas lojas, como se sentiam antes de o estrear oficialmente (os Vicious Five tocaram 15 dias antes do lançamento do álbum, no Mercado, em Lisboa) numa sala – a ZDB – que já vos conhece bem?

 

BC – Eu estava um bocado nervoso... nervoso não, ansioso...

JA – Aquela ansiedade curiosa de ver o que é que isto dá. A realidade dava-nos dois timbres: uma era tipo tem calma, a outra mostrava-nos que se abriram montes de possibilidades, de repente há montes de gente a prestar atenção ao que nós fazíamos quando estávamos habituados ao anonimato completo, tocar para amigos e curiosos. Acho óptimo, acredito que a qualidade do que estamos a fazer merece atenção. É extremamente bem vinda mas, mesmo sentindo que é merecida, não deixamos de estar surpresos com tanta atenção. Se eu não fosse desta banda estaria à porta deste concerto.

BC – Nesse concerto da ZDB todos sentíamos uma ansiedadezinha...

 

Nos concertos queixas-te da falta de reacção (física) do público às vossas canções. Como dizes no tema “The Smile On Those Daggers”, achas que somos “…a generation of cinderellas”?

 

JA – Sim, acho que sim. Por muito subjectivas que sejam, as nossas letras estão muito relacionadas com a condição portuguesa. Isso pode-se referir a uma juventude global mas é muito mais visível na juventude portuguesa. O estarmos à espera de qualquer coisa, um Sebastianismo inconsciente. (risos) As pessoas nem querem... tipo “eu não estou à espera de nada, não preciso de ninguém”, e isso faz parte da arrogância contemporânea e da questão individualista que cada sociedade incute, tipo “sou auto-suficiente” mas isso em Portugal é mentira. É muito fácil aos portugueses apontarem bodes expiatórios e conseguirem responsabilizar outros pela falta... pelo não sucesso... não tenho medo de dizer essa palavra, acho que o sucesso é bom, a ambição é boa, numa base de respeito, de amor pelo próximo e por ti próprio. Quando eu digo que somos todos uma Cinderela à espera do sapatinho, está relacionado com essa cultura. Nós recebemos muita informação, dos media à escola. É tipo uma doença da abundância. Tendo nós tocado uma data de concertos em que 99 por cento das pessoas estavam de braços cruzados a ver todo e qualquer movimento que nós fazíamos, quando eu sei que são inteligentes o suficiente para depois de saírem do concerto conseguirem fazer um report daquilo que viram. A energia que é gasta a observar, a opinar, seria muito mais bem empregue a criar, a usufruir da própria experiência que é um concerto de rock, de punk-rock como é um concerto dos Vicious Five que acima de tudo é sobre celebração e dança.

 

Como foi a experiência de tocar no Sudoeste?

 

JA – É uma liga que não é nossa. Sentimo-nos como um clube pequenino que vai a Alvalade jogar para a Taça.

BC – Mas nós fomos a Alvalade ganhar!! Foi o que sentimos porque o Paulo estava lá desde o primeiro dia e disse-nos que àquela hora (o concerto era às 17h00) estavam lá gajos das festas dos dias anteriores, ou à sombra por casa do Sol ou a dormir. Mas quando chegou à hora do concerto, a tenda estava cheia. E o público aderiu bem, não com o entusiasmo que gostávamos que houvesse, mas também era muito material novo...

 

Texto: Pedro Miguel Guimarães, Fotos: Rita Carmo

 

 

THE VICIOUS FIVE

UP ON THE WALLS (CD Loop:Off)

Ao segundo lançamento (o primeiro foi o disco homónimo dos Mecánosphère) a Loop:Off, subsidiária da Loop:Recordings, mostra estar atenta e estar tudo menos Off. Numa jogada de mestre, evidenciando visão de mercado, uma editora tendencialmente virada para o hip-hop/soul/funk agarra uma das mais promissoras bandas rock portuguesas, dando-lhe condições para em trinta e três minutos, conseguir explanar todo o seu potencial. Quem ouviu “The Electric Chants Of The Disenchanted” dificilmente não reparou nas músicas, na força, na atitude da banda lisboeta, e esses, os que ouviram o EP, terão acreditado que o melhor estaria para vir – e estava mesmo. “Up On The Walls” surpreende pela força, coesão, urgência e pela palete de ritmos capaz de pôr qualquer esqueleto, exposto numa aula de Biologia há mais de 5 anos, a dançar. E caso o esqueleto seja, nas horas vagas, interno de um qualquer colégio de bem comportados, vai certamente incitar à revolução. Com o recurso a hinos como “We're talking to our generation; This time it's all about celebration; Me. you. we are the revolution.” de “The Electric Youth”, “We’re a generation of cinderellas and no slipper on the way.” de “The Smile On Those Daggers” ou “We got enough self esteem to have no self esteem.” de Bad Mirror, não há quem resista.

Os Vicious Five trabalharam para chegar até aqui, tocaram para amigos, curiosos e onde os quisessem, editaram o EP do seu bolso, e, finalmente, as coisas começam a acontecer para estes cinco rapazes. A uma edição com a promoção (e atenção dos media) que se lhe requer, juntam-se os concertos de divulgação do disco e a cereja em cima do bolo é o convite para fazer duas datas espanholas com os noruegueses JR Ewing. “Up On The Walls” é o disco português do ano. (9/10) PMG

Sabrina Marques
Sabrina Marques

 
Que capa jeitosa, hein? ;)
É mesmo verdade, quase qualquer faixa dava um single. (a minha preferida é The Smile On Those Daggers)
JOAQUIM, Se os Vicious5 são a tua estreia como vocalista, tiro-te o chapéu. A tua voz é solta, ampla, potente, e vai mesmo bem com a pose alucinada de embriagado crónico pelo punk. A esquizofrenia da encarnação de um Ian Curtis ou um Mick Jagger , dos Hives ou dos Franz Ferdinand, que explode frenética no palco e me viciou em Vicious5 ao vivo. Gostei de ler a ilustração da CINDERELA que habita em cada português: É muito fácil aos portugueses apontarem bodes expiatórios e conseguirem responsabilizar outros pela falta... pelo não sucesso... (...)Quando eu digo que somos todos uma Cinderela à espera do sapatinho, está relacionado com essa cultura. Nós recebemos muita informação, dos media à escola. É tipo uma doença da abundância. Tendo nós tocado uma data de concertos em que 99 por cento das pessoas estavam de braços cruzados a ver todo e qualquer movimento que nós fazíamos, quando eu sei que são inteligentes o suficiente para depois de saírem do concerto conseguirem fazer um report daquilo que viram. A energia que é gasta a observar, a opinar, seria muito mais bem empregue a criar, a usufruir da própria experiência que é um concerto de rock, de punk-rock como é um concerto dos Vicious Five que acima de tudo é sobre celebração e dança. Tenho a dizer-te, primeiro, que revelas as duas principais questões que não sei se me irritam ou preocupam na nova geração em Portugal: o descontamento abstracto e permanente, invariavelmente justificado pela «culpa do sistema» e excesso de informação que só se torna problemático por ser assimilado directa e superficialmente, sem a intelectualização selectiva pressuposta na maioria das vezes para que não fossemos uns papagaios da globalização, já que não lhe podemos escapar. Digo também que não podia ficar mais contente por saber que os Vicious5 são preocupados com a "juventude portuguesa", por mais que isto possa parecer kitsch, paternalista e de um nacionalismo out. Porque apoio e percebo a pretensão de educar sem a imposição e a teórica e o moralismo obscuro que mesmo nesta geração está ainda enraizado. Antes pelo contrário. E então vou-me atrever a dizer que um concerto de Vicious5 é uma analogia aquela que deveria ser a postura de um jovem na vida: viver é sentir. Viver é individual, e subjectivo, como o espasmo ou movimento que vem de cada um dos corpos que ouve os mesmos acordes no mesmo concerto. É resvalecer consciente para a inconsciência, onde não há outro mundo senão aquele, nem espaço para criticismo ou moralidade ou conduta ou mandamentos, e cada corpo se dilui num êxtase colectivo, onde cada momento é uma nova faixa, sentida do princípio ao fim, com a desconstracção de quem todo o tempo e energia como só a juventude pode ter.

SABRINA LOVES THE VICIOUS!
 
Posted by Sabrina Marques on Sunday, June 18, 2006 - 5:57 PM
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