Umpletrue estreiam-se com "Fab Fight"
Há sonhos assim
Felizes aqueles que ao acordar recordam o que sonharam momentos antes. Os Umpletrue são um exemplo disso. Ter a ajuda de PJ Harvey num sonho, que acabou por originar o refrão do tema que dá nome ao seu álbum de estreia, «Fab Fight», é uma bênção de que nem todos são dignos. Carlos Oliveira foi-o e arrastou para esta luta fabulosa, que diz ser a de "fazer boas canções", o baterista José Carlos Duarte e o guitarrista Tiago Granja. Pop-rock, carregado de electrónica, e muito dançável é o que a banda tem para partilhar neste seu debute na cena musical portuguesa.
São da Marinha Grande, foram descobertos pela editora Cobra em Budapeste e, dessa forma, conseguiram colocar no mercado o seu álbum de estreia, «Fab Fight».
O nome da banda, Umpletrue, chegou a Carlos Martins (vocalista e principal compositor) através de um sonho. "Não significa nada… Um amigo meu apareceu-me num sonho e disse-me Umpletrue. Quando acordei achei que era o nome ideal para o projecto", explica Carlos Martins, que é acompanhado nesta aventura por José Carlos Duarte e Tiago Granja, o elemento que por "uma surpresa óbvia" foi o último a integrar o colectivo. Aliás, os sonhos são um elemento fulcral nas composições dos Umpletrue, uma vez que alguns versos e até o refrão completo do tema que empresta o título ao álbum surgiram em sonhos. Como conta Carlos Martins, o refrão de «Fab Fight» foi-lhe cantado num sonho por… PJ Harvey. Após actuarem num festival em Budapeste, os Umpletrue foram abordados pelos Mão Morta: Adolfo Luxúria Canibal e António Rafael, que os assinaram logo pela Cobra Discos. O som rock do grupo, com uma forte camada electrónica, confere à sonoridade dos Umpletrue uma componente de dança extremamente aliciante. Inicialmente, apenas Carlos Martins (voz e máquinas) e José Carlos Duarte (bateria electrónica) subiam a palco, mas, entretanto, Tiago Granja (guitarra e máquinas) alargou a formação para trio. E diga-se que, assim, o projecto em palco faz muito mais sentido. Como refere Tiago Granja, "antes faltava o factor erro"… O som que fazem cativa e, por isso, estejam atentos aos Umpletrue… desfrutem!
As vossas composições têm uma evidente fusão de rock com música de dança. Que balanço fazem dessa mistura?
Tiago Granja (TG) – É complicado falar em música de dança… Mas a verdade é que temos muitas influências.
Carlos Martins (CM) – Isto tudo começou com um convite de um bar para tocarmos…
José Carlos Duarte (JCD) – Deixa-me contar essa história bem. Eu fui convidado para fazer uma noite num bar, mas como não sei fazer música tinha um problema… Então, lembrei-me que o Carlos até tinha umas músicas fixes no computador. Aquilo era passado uma semana e disse-lhe para tirar as baterias e cantar.
CM – O convite era para o Zé Carlos tocar bateria ou percussão por cima de música de dança… Achei que aquilo era interessante, mas com temas originais. Fomos, então, para o meu quarto desenvolver a coisa e, depois, considerámos que o que tínhamos feito não era algo apenas para desenrascar, que podia ter pernas para andar.
TG – Bem, eu não concordo que isto seja música de dança. Tem arranjos e tem misturas de dança, mas daí a chamar-lhe música de dança…
CM – Foi assim que começou… Depois, quando escrevo sou sempre muito pessoal e até autobiográfico e quando surgiu esta oportunidade tentei adaptar-me à circunstância, mas passado música e meia já lá estava eu outra vez. E quando já lá estava eu outra vez o projecto tinha nascido. Aquilo já era alguma coisa. Já não era só para fazer aquela noite, mas um projecto para continuar.
E como foi ser descoberto em Budapeste?
CM - Foi em Budapeste por que estávamos no mesmo festival que o Adolfo [Luxúria Canibal] e o [António] Rafael, que também tocaram com o projecto «Estilhaços». Eles viram o nosso concerto e passado um ou dois dias falaram connosco. Estávamos lá perdidos num palco enorme, mas conseguimos pôr o pessoal todo a dançar, até o Adolfo...
E que luta (Fight) é esta afinal?
CM – A luta, que não é luta nenhuma, é fazer o melhor que conseguimos fazer. Para mim isso é o mais importante, ou seja, fazer boas canções. «Fab Fight» vem de um sonho, aliás o refrão todo do tema chegou-me num sonho em que estava a ser perseguido por mafiosos num Mercedes preto, no meu jardim…
JCD – Mas no teu jardim não cabe…
CM – Era um sonho!... E ouvi "Fab fight, Fab fight, I got a Fab fight", cantado pela PJ Harvey. Este refrão não é meu, porque eu estava a dormir… Chegou-me.
Então, PJ Harvey mais uma colaboradora deste álbum?
JCD – Sim, mas ela não sabe…
CM – Até houve um gajo a quem contei isto que me perguntou se aquilo não seria uma parte de uma música dela… Sei que não, porque conheço o trabalho dela e não é. Foi um momento muito mágico… E quando acordei, corri para o computador, alinhei a coisa e nasceu a música. «Fab Fight» nasceu num sonho. E há mais músicas que têm frases que nasceram em sonhos. Os sonhos são muito importantes, são ajudas. Se forem bem interpretados há sonhos que são estúpidos, que não têm que ver com nada, mas há coisas que chegam e que são muito importantes, porque encaminham. Para mim isso é muito importante.
A transformação de duo em trio foi uma opção, ou uma necessidade?
CM – Quando recebemos o convite para gravar o álbum, achámos que teríamos que nos esforçar um bocadinho mais e imediatamente surgiu a ideia de arranjar mais uma pessoa e lembrámo-nos logo do Tiago. Ele sempre foi influenciador directo dos Umpletrue. Agora, e podíamos ser dois mais um, somos três. Para tornar a coisa mais acessível ao vivo tivemos que fazer esta reviravolta e chegarmos a esta solução, que para mim é bem melhor. Assim, Umpletrue ao vivo está mais orgânico, mais perto das pessoas e estas identificam-se melhor com o que fazemos. Penso que acabam por sentir mais as canções desta maneira.
TG – Primeiro, isto não é uma banda, isto são três amigos e tudo o resto vem por acréscimo. Mesmo musicalmente somos amigos há muito tempo e era inevitável que isto acontecesse assim.
O que é que este projecto tem que outros em que participam, ou já participaram, não têm?
CM – Esta amizade.
JCD – Muitos projectos começam e depois é que se acaba por ficar amigos, este é diferente, porque nós já éramos amigos antes de formamos a banda.
Podemos traduzir Umpletrue por amizade?
CM – Não. Umpletrue pode ser uma plataforma para desenvolver amizades. Até porque Umpletrue são músicas perfeitamente egoístas e em que a única coisa que interessa é fazer coisas boas. Para mim, o mais importante é fazer o melhor que conseguimos naquela altura com aqueles meios.
Onde é que os Umpletrue almejam chegar?
CM - Eu quero apenas chegar a mim…
Pedro Vasco Oliveira (in Primeiro de Janeiro)