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Eliane Arthman



Last Updated: 6/24/2009

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Country: BR
Signup Date: 2/6/2008
Friday, April 11, 2008 

Trinta páginas de meu próximo livro.                          

                           A Profecia do Secrominon
                               (O Dia do Pesadelo)
 
 
 
Fenícia entrou na sala de aula e sentou-se.
 
Ótima aluna da "Escola de Mistérios", em Atlântida, ela teria mais uma aula de materialização naquela manhã. Ali muitos jovem eram iniciados e dedicavam treze anos de suas vidas aos exercícios espirituais.
Três desses anos, seriam voltados para o aprendizado dos Mistérios Menores, que envolviam todos os conhecimentos históricos e científicos da humanidade. Nesse período incluía-se, também, a confecção de mandalas, a repetição dos mantras e a pronúncia correta das palavras sagradas.
Os Mistérios Maiores diziam respeito ao domínio da mente e do espírito. Nos dez anos de aprendizado, os alunos eram iniciados em várias práticas mentais, que requeriam deles extrema dedicação. Algumas dessas práticas eram:  a realização de um corpo ilusório; a preservação da consciência nos sonhos; a percepção da realidade da Luz e a transferência da consciência para qualquer ponto da Eternidade.
 
Nos três últimos anos do curso, o aluno ficava interno na escola, pois os aprendizados eram rigorosos e exigiam sua completa concentração mental. Aprendia-se a lidar com o silêncio tanto espiritual quanto físico, sem se perder em tolas divagações.
 
Muitos mestres de uma outra famosa escola de Atlântida, vinham supervisionar os estudos dos alunos, para que estes pudessem dominar magistralmente o seu saber inato, que consiste em cada um trazer consigo mesmo, principalmente, o potencial de perceber a projeção da Consciência Cósmica. Eram eles conselheiros da Escola de Saber Oculto, que tinha como base o estudo profundo da religiosidade e da Cabala Sagrada.
 
Naquela época havia uma disputa de bastidores entre as Escolas de Atlântida e Lemúria, com as filosofias seguidas pelas Escolas Obscurantistas e Escolas Iniciáticas. Havia, ainda, uma grande preocupação por parte dos Grandes Mestres quanto ao ensino nada convencional das escolas que eram adeptas da Força Negativa, que enaltecia o poder do mal sobre a Terra, pregando o caminho contrário ao amor e à luz.
 
O Rei de Lemúria era adepto da Conjura do Silêncio, outra filosofia que era  completamente adversa a dos mestres de todas as Escolas de Atlântida, já que esse movimento era favorável à prática da Magia Negra e não exigia de seus seguidores a intelectualidade necessária, que os estimularia a buscar o equilíbrio e a eqüidade de espírito através do estudo.
 
Fenícia cumprimentou seus colegas de turma e sentou-se, aguardando a chegada de Mestre Ménon, que era o  responsável pelos alunos do sétimo ano. Ménon era detentor de profundos conhecimentos ocultos, sendo aceito e respeitado como o protetor da Magia Branca, em todos os continentes.
 
Ao chegar naquela manhã, Ménon colocou seis cadeiras em círculo no centro da sala, pedindo que cinco de seus vinte alunos as ocupassem. O restante dos alunos ficaria de pé em torno do círculo prestando atenção no desenrolar das lições. Fenícia foi uma das escolhidas e sentou-se ao lado dos outros.
 
Mestre Ménon sentou-se e pediu que cada um colocasse as mãos em forma de concha e que pensassem firmemente numa pétala de flor, de qualquer espécie ou cor que preferissem.
 
Durante dois minutos o silêncio permeou a sala. Em seguida, Ménon pediu que materializassem em suas mãos a pétala que descansava em seus pensamentos.
 
Quando as abriram, a decepção foi geral, pois nenhum dos alunos obteve êxito. Ménon pediu que tivessem paciência e que tentassem mais uma vez.
 
Dessa vez todos conseguiram, menos Fenícia, que sorriu desanimada diante de algo que parecia ser uma flor disforme, que descansava entre as suas mãos. Logo os cinco foram substituídos por outros cinco alunos que se sentaram e fizeram o mesmo exercício, obtendo os mesmos resultados dos colegas anteriores.
 
No último grupo de alunos, uma das alunas se destacou, pois conseguiu a materialização de primeira. Seu nome era Lemulia e, ao invés de materializar a pétala, ela materializou a flor inteira.
 
Ménon cuidou de explicar que os últimos participantes foram privilegiados, pois já se preparavam desde o começo da aula, dando força a seus pensamentos. Antes do final da aula, ele pediu que todos treinassem para a aula do dia seguinte, pois certos alunos seriam escolhidos para participar de um exame especial.
 
Naquela tarde, Fenícia resolveu reler seus antigos livros e refazer seus velhos exercícios. Do final daquela tarde, até o começo da noite, ela materializou flores de todas as cores. Ela procurou todos os livros da Irmandade Branca, onde havia muitos exercícios que estimulavam a força mental e os leu e releu inúmeras vezes, até quase o dia amanhecer.
Dormiu apenas duas horas e meia, mas levantou-se disposta e feliz. Fenícia não incomodou-se com o feito de Lemulia, pois Mestre Ménon havia explicado bem que os últimos foram beneficiados pelo privilégio da observação. Mas queria instruir-se mais, aprender mais, aproveitar mais as aulas de magia!
 
Atlântida era um continente muito místico e a maioria dos seus habitantes possuía poderes mentais que usava para o auxílio à coletividade. Desde a mais tenra infância, o aprendizado começava sem terminar jamais.
 
Fenícia era filha única de ricos comerciantes de tecidos da cidade e sua educação sempre fora alvo de profunda preocupação de seus pais. Antes de ingressar na famosa Escola de Mistérios, Fenícia recebera aulas particulares de mestres em várias artes ligadas aos poderes da mente. Depois de muitos treinos, ela sagrou-se como iniciada na arte da magia.
 
Naquela manhã, depois de uma noite em claro, revendo seus aprendizados, Fenícia sentou-se confiantemente em sua mesa escolar. Mestre Ménon a olhou e sorriu.
 
- Vejo que andou revendo seus velhos livros, Fenícia!
 
Sem espantar-se com a vidência do Mestre, Fenícia concordou.
 
- Sim, Mestre. Reli todos os meus livros e pratiquei muitos exercícios que já estavam apagados de minha mente!
 
- Pois então venha aqui na frente mostrar o que andou treinando, minha cara!
 
Ménon pensou um pouco, acariciando sua comprida barba branca e pediu:
 
- Fenícia, quero que materialize uma nuvem de vapor com aroma de eucalipto. E que essa nuvem tome todo o chão da sala.
 
Fenícia abriu os braços, fechou os olhos e pronunciou algumas palavras mágicas. Singelo vapor espalhou-se pelo chão da sala, suave e homogeneamente, exalando um refrescante aroma de eucalipto.  Fenícia sorriu feliz.
 
- Muito bem, Fenícia! Agora, faça as paredes e o teto desaparecerem!
 
Novamente ela concentrou-se. Sua face ficou vermelha pelo esforço e sua respiração mais acelerada.
Depois de alguns instantes, longos demais por sinal, as paredes foram apagadas pela força mental da aluna de Ménon, sendo substituídas por uma paisagem de pradaria iluminada pela luz do sol, com luxuriante vegetação rasteira ao redor. Parecia mesmo que todos estavam sentados em meio a relva!
 
- Muito bem, muito bem! Obrigado Fenícia. Creia que valeu a pena ter se esforçado tanto!
 
Depois que Fenícia sentou-se, Ménon chamou outra aluna.
 
- Agora é a sua vez, Lemulia! Venha até aqui.
 
Lemulia foi até ele devagar, com um riso desdenhoso nos lábios. Ménon caminhou de um lado a outro da sala e, depois de muitos vai-e-vem, parou diante dela, muito sério.
 
- Na verdade, minha querida Lemulia, eu queria que você fosse a primeira a ser testada... – o Mestre acariciou sua longa barba, criando um clima meio teatral, no intuito de causar algum impacto no aprendizado daquela lição - mas quis que pensasse que sua magia banal estivesse funcionando! Enquanto Fenícia estava concentrada, notei que  você tentava prejudicá-la com seu pensamento e notei, também, que esforçou-se para impedir-me de chamá-la agora!
 
Lemulia deu uma gostosa gargalhada. Ela tinha certeza de que Ménon perceberia as suas intenções, mas, mesmo assim, não queria deixar de desafiá-lo. No dia anterior ela havia interferido nas criações mentais de Fenícia, impedindo-a de obter a materialização da pétala da flor. Ela não preocupou-se de ocultar de Ménon a sua artimanha, e o mestre comunicou-se com ela através de um canal mediúnico,  permitindo essa interferência, no intuito de fazer com que Fenícia se esforçasse mais nessas aulas.
 
Olhando para Lemulia por cima dos óculos, com um potente tom de voz, Ménon pediu:
 
- Quero que faça soprar uma brisa suave.
 
Não demorou muito para que uma brisa fresca, com aroma de jasmim, soprasse sobre todos.
Lemulia ia sempre além daquilo que lhe era pedido.
 
- Querida Lemulia, jamais vá além do que lhe é pedido! Lembre-se: cabe ao mestre a paciência e ao discípulo a   o b e d i ê n c i a ! Fui claro, minha cara?
 
- Sim, mestre! Ouvi e prometo sempre lembrar-me desse detalhe!- respondeu Lemulia muito séria.
 
A brisa tornou-se, então, inodora.
 
- Muito bem, Lemulia. Transforme o teto da sala numa tela de cinema, onde um filme inédito esteja sendo projetado! Já que gosta de provar seus poderes, crie uma história fantástica, que convença a todos os seus colegas. Projete as suas idéias ali – disse ele apontando para o teto da sala – e crie uma ambiência propícia a uma história de magia!
 
Depois que as pesadas cortinas foram fechadas, todos se deitaram no chão da enorme sala, usando os colchonetes que faziam parte do material usado em sala de aula, e ficaram em silêncio enquanto uma imensa tela surgia no teto.
Lemulia fechou os olhos e sentou-se em posição de lótus, com os dedos médio, indicador e polegar unidos. Sem que ninguém percebesse, o espectro de uma linda mulher saiu do seu corpo espiritual. Ela era o inverso exato da loira Lemulia, pois tinha  compridos cabelos negros a lhe cobrir as costas. Trajando um elegante vestido negro que deixava-lhe a mostra os firmes contornos do corpo, ela caminhou pela sala feito uma sonâmbula, para logo começar a andar em círculo, como se contornasse  algo que habitasse apenas a sua imaginação.Ménon fingiu não notar, para deixá-la bem à vontade.
Depois de mais ou menos um minuto assim, repetindo algumas palavras mágicas que Ménon apesar de esforçar-se não conseguiu entender,  sua forma foi se desfazendo, até ser absorvida pelo filme que já estava começando a ser projetado no teto.
 
"Estava escuro e dois vultos surgiram em meio a essa escuridão. Uma mulher escondia-se por detrás de um manto negro, enquanto um homem admirava-se diante de uma caixa de vidro, onde uma luz azul brilhante pulsava.
A visão era linda demais! A luz envolvia todo o ambiente e parecia trazer  o Universo para iluminar e engrandecer aquelas duas personagens que ganhavam vida na tela. Suas mãos tremiam, enquanto ele tentava tocar no vidro onde estavam oito jóias, que brilhavam esplendorosamente.
 Ele repetia:
"Vou conseguir, vou conseguir! Só um pouco mais, um pouco mais!".
Depois de algum tempo, ele conseguiu. Mas, tão logo sua mão tocou no vidro, uma descarga elétrica percorreu-lhe o corpo. Imediatamente o homem  foi jogado violentamente contra a parede, o que provocou um barulho forte e assustador, fazendo com que todos os alunos estremecessem de susto.
A luz azul continuava a pulsar e o homem permanecia no chão, como que aturdido e semi-inconsciente.
Ouvia-se milhões de vozes sussurrando orações, como se pedissem a ele que não tornasse a tocar no vidro.
Ele ergueu-se devagar tentando buscar forças para tornar a caminhar até o vidro e quase desistiu de fazê-lo, ficando algum tempo de pé ali no chão, como a deixar-se banhar pelos eflúvios de paz emitidos por aquela claridade. Aquele era o brilho da própria divindade!
O homem estava sem forças para maculá-la, por um simples capricho. Mas a voz da mulher o estimulava ao mal. Ela o mandava quebrar o vidro e destruir a Lei.
    "Foi chegado o momento! Somente para o Rei! O Rei desse mundo mortal! Nada poderá superá-lo!".
Ela passou, então, a pronunciar palavras mágicas:
 
"Om Orakust, Hemiad, Kiratus. Le Al Hokbras, Ektua".
 
 Ela pronunciava bem alto o encantamento, tentando superar as vozes que sussurravam as orações.
Uma luz desceu do teto e envolveu o homem que tremia. Era uma cortina de luz azul. Uma cortina protetora, que seria como um campo de força poderoso. Ele passou a repetir as mesmas palavras mágicas que eram pronunciadas pela mulher.
"Nada poderá me deter! A Lei será quebrada e o mal reinará absoluto sobre todas as terras!".
As paredes do lugar foram substituídas por chamas poderosas, que aqueciam o ambiente, tornando o ar extremamente sufocante. O homem tentava repetir as palavras mágicas num tom mais alto, mas sua voz parecia estar presa na garganta. Ele contorceu-se e depois de muito esforço, começou a sussurrar alguns sons inaudíveis. A mulher continuava a pronunciá-las o mais alto possível, para que o poder contido em cada uma delas materializasse a força e a treva que as criaram!
 
Percebia-se que estava havendo uma grande luta entre o bem e o mal, entre a treva e a luz, entre a razão e a loucura!
O homem levantou-se lentamente e caminhou até a caixa de vidro. Quando a tocou, o chão começou a tremular. Tudo ondulava enquanto o homem permanecia com a mão sobre a caixa de vidro. Seus olhos refletiam a sua loucura!  Ele pensava:
 
"Estou louco!, estou louco! Não posso e não devo continuar aqui!".
 
Seus olhos pareciam rodopiar nas órbitas, dando mostras de sua fraqueza. Mas a voz da mulher o fez despertar de seus devaneios e seus olhos pareceram voltar ao normal. Novamente tornaram-se olhos de fera, que ansiavam por sangue. O terror quase materializava-se na tela e o medo envolvia a todos.
(Um frio gélido envolveu a sala, fazendo com que todos os alunos se encolhessem).
Ele era um homem de guerra, de contendas e de ambições desmedidas. Jamais recuara diante de inimigo algum. Mas aquela luz a pulsar, fazia com que ele ouvisse o murmúrio do Universo. Ele sabia que o portal seria aberto. O portal que divide o mensurável do incomensurável, o finito do infinito. Ouviu-se, então, muitos gritos.
O foco mudou e logo se pode ver um exército de homens montados em seus cavalos. Todos usavam máscaras de ferro e suas roupas que eram feitas de correntes metálicas trançadas. Eles gritavam:
 
"Que o Rei ressuscite e nos traga a força de volta!".
 
No céu, as estrelas pareciam mudar de lugar, enquanto nuvens pesadas envolviam todo o firmamento. O mundo inteiro parecia estar em silêncio, acuado e aterrorizado. Os murmúrios de oração tornaram a atrair o foco e viu-se o homem tentando manter sua mão encostada ao vidro. A luz azul dentro da caixa pulsava violentamente sob suas mãos trêmulas. Não havia como desistir ou voltar atrás, pois nos umbrais do inferno, vozes de lamentação se erguiam.
A besta queria a liberdade e aquelas duas personagens lhe abririam as portas que foram fechadas por poderosa magia. As portas do inferno, que haviam sido fechadas há milênios, teriam de ser abertas, para que as sombras envolvessem todas as terras do mundo!
Logo, a face disforme da besta Kundum surgiu, arrancando murmúrios de pavor dos alunos de Ménon.
O seu urro fez com que todos levassem as mãos aos ouvidos, tão forte era!
"Malditos sejam todos aqueles que me aprisionaram! Vou destruir essas jóias e acabar com a paz do mundo!"
De repente, um barulho ensurdecedor se fez ouvir. A caixa de vidro começava a rachar e as jóias sagradas que descansavam em seu interior começavam a pulsar mais rapidamente. Finalmente as jóias explodiram e o impacto foi tão forte, que pedacinhos de vidro resvalaram da tela, que apagou imediatamente".
 

Os alunos ficaram com suas roupas cobertas de vidro estilhaçado. Tudo parecia ser extremamente real!
Ménon ergueu as mãos, fez os estilhaços desaparecerem e recolocou o teto no lugar.
 
- Estão todos bem? – perguntou calmamente.
 
Depois de passado o choque, todos se levantaram. O filme parecia ter durado uma eternidade e não apenas alguns minutos.
Ménon segurou Lemulia pelos ombros e carinhosamente a olhou.
 
- Você sabe me dizer qual era o tema desse filme, Lemulia?
 
Ela estava pálida e quase tão assustada quanto os colegas.
 
- Não, Mestre! Eu apenas usei a imaginação, nada mais!
 
Diante da sua sinceridade, Ménon a abraçou afetuosamente, beijando seus cabelos dourados.
 
- Tenha cuidado com a sua imaginação, minha querida, pois ela pode destruir tanto a sua paz, quanto a paz do mundo!
 
E enquanto seus alunos dobravam e guardavam seus colchonetes, ele anunciou o final da aula e novamente pediu que estudassem mais para a aula do dia seguinte.

Eliane Arthman

 

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