
Os Espelho Mau editaram recentemente, pela net-label Necrosymphonic Entertainment, o Split "Gay Music for Straight People" em conjunto com La Chanson Noire.
Este split pode ser adquirido em suporte fisico, como está disponível para download no site da editora.
Assunto que serviu de mote para uma conversa entre Paula Cristina Martins e os elementos da banda.
Espelho Mau… Nome curioso para uma banda. Contem-nos um pouco do vosso percurso até aqui.
Paulo - É um percurso razoavelmente comum. Três pessoas com diferentes percursos musicais, com influências comuns e vontade de tocarem juntas, e com a noção de que se perguntarmos ao espelho se há alguém melhor, mais bem sucedido, etc., que nós, o dito espelho, mau, responde: "Olhem bem, este é o lugar da garagem donde até os ratos fogem. E são vocês que estão aqui." Daí o nome. E reflecte o nosso mercado e o nosso panorama musical actuais.
Alex - Nome curioso? Talvez… Todos cometemos actos de que nos arrependemos; às vezes custa-nos olhar no espelho, enfrentar quem somos… é a dura realidade do dia-a-dia. O percurso é curto mas rico de experiências. Uma mão cheia de concertos e um split com La Chanson Noire.
Nuno - A uma certa altura já não ligamos muito ao que os outros dizem e começamos a falar para o espelho. Mas o sacana é mau, nunca responde…
Vocês vêm de projectos distintos mas sempre com um elemento predominante, a batida electrónica. Porquê?
Alex - Nem sempre. Vimos de projectos distintos, alguns com baterista. Nomeadamente Gondolin (o Paulo), Blood Quest e Noctívagus (Alex), e A Kausa e Vodka Pedra (Nuno). Não vejo nenhum motivo em particular nem nenhuma aversão a bateristas. Aconteceu assim.
Paulo – Mas é uma opção assumida desde o início. Também porque o som acaba por ser sempre algo plástico, e se olharmos à nossa volta…
Nuno - Nem é uma cagança estética, nem um mero calculismo. Calhou e resultou.
Paulo
Tanto nos Disclosure como nos Espelho Mau a bateria entra, mas feita através de computador. Porque não inserir na banda um baterista? Por alguma razão em especial? Ou sentem que um baterista limita e com o computador não há limites?
Paulo - O baterista é muito bom para bandas com dinheiro. Nós vivemos a contar os trocos. Logo, levar o baterista ao colo em vez de sermos obrigados a levar um segundo carro. Um exemplo: há 3 anos convidaram-me para ir ao Porto tocar e ofereciam-me cem euros para ajudas de custo - pagava apenas um dos carros, e ninguém falou em jantares nem estadias.
Acham que o facto de cantarem na nossa língua traz uma mais-valia ao panorama musical nacional?
Alex - Sem dúvida. Ainda que sem qualquer sentimento nacionalista nisso. É a língua que conhecemos melhor, o que torna mais fácil transpor certos sentimentos.
Paulo - Não faço ideia, nem me interessa. Gosto de cantar em português porque é a minha língua e é uma marca da nossa cultura, da nossa história e da nossa tradição. É o principal símbolo da nossa identidade, e eu gosto da nossa identidade. Se for bom para o panorama nacional, tanto melhor.
Nuno - É somente uma língua, por acaso a nossa. Não é ditadura estética, nem fundamentalismo linguístico: grande parte das músicas têm atraído o português, o futuro poderá trazer outras.
Para uma banda que queira chegar o mais longe possível numa carreira musical além fronteiras, será que cantar em português é uma escolha sensata?
Paulo - É. Perguntem aos Ramstein.
Alex - Não sei… perguntem à Amália ou aos Madredeus.
Sentem que isso vos pode limitar em termos de expressões e ideias ou acham que a nossa língua é subaproveitada?
Alex - Sem dúvida que é subaproveitada. Mas também cantamos em Inglês, e até temos uma versão em castelhano de um dos nossos temas. Há coisas que se dizem melhor em certas línguas.
Paulo - Com uma língua tão bonita e completa como a nossa, o que me espanta é que o resto do mundo ainda fale estrangeiro, mas como é largamente subaproveitada… O que nos limita não é a língua, é a falta de formação da generalidade do público.
O que vos influencia no vosso processo de criação?
Paulo - Rigorosamente tudo. Crianças a morrerem à fome, o reflexo da lua no oceano, a injustiça social, um beijo enamorado, a hipocrisia dos líderes mundiais, as aulas de Matemática (risos), uma valente bebedeira, noites sem dormir…
Alex - A vida que levo, a noite, o dia, o amor, o ódio… Por mim, posso dizer que algumas das malhas que mais sentido fizeram foi quando me separei, e tentei transpor através da guitarra o que sentia. O resultado foi bom, para mim e para a banda; uma espécie de exorcismo.
Nuno - A vida que tenho e a que gostaria de ter.
A nível de composição lírica e musical, quais as bandas com mais peso no vosso subconsciente?
Alex - No meu caso, gosto muito de Rock bem retro, de Jimi Hendrix a Led Zeppelin, passando por The Who, The Doors e os grandes Black Sabbath. Gosto muito de Heavy Metal, de Gothic Rock, etc…
Paulo - Espelho Mau.
Nuno - Todas as que gostamos mas de maneira a que não se note. A arte não nasce do vazio, fruto de uma inspiração divina ou metafísica. Reciclar e criar o novo a partir do que existe.
Vocês falam em fazer música por "puro prazer". Será isso recompensador?
Paulo - Claro que sim. Fazemos música pelo gozo da coisa. E tentamos passar esse gozo a quem nos ouve. Para preencher "importantes" lacunas no panorama musical português estão cá os palermas do costume.
Alex
Alex - Sem dúvida. É como sexo! Até se faz de borla, mas se pagarem tanto melhor…
Nuno - O puro prazer leva-nos também para uma certa independência. Não precisar da música para pagar as contas, só precisar dela para viver.
Como surgiu a oportunidade de se juntarem à Necrosymphonic Entertainment?
Paulo - O Carlos Monteiro conhece-nos, sabia do projecto, acreditou em nós e avançou com a proposta da parceria.
"Gay Music for Straight People… e Outras Estórias" é um Ep que dividem com La Chanson Noire. Falem-nos um pouco desse projecto.
Alex - Foi um culminar de experiências comuns, a constatação de que apesar de sermos projectos bem diferentes, tínhamos muita coisa em comum. E o resultado está à vista. Nós ficámos satisfeitos. A começar pela polémica à volta do nome…
Paulo - Primeiro o "Gay Music…" É o resultado da aposta de que falei antes e uma excelente ideia de uma pessoa com visão num espaço (musical) em que quase todos usam bifocais, o Carlos Monteiro. Depois, Chanson. É um projecto português de grande valor, com características muito próprias, que teve o azar de nascer num país onde a criatividade e a inovação não são valorizadas. A prova do que digo é que o nome do CD, que devia ser (e é!) um trocadilho inteligente, provocou dúvidas em parte de um potencial público homossexual e originou gritos de "Ai, Jesus" em velhos do Restelo que ainda não têm 30 anos e nos homófobos do costume.
Nuno - Além disso, tentámos o que a grande parte dos músicos da nossa geração e mesmo os vizinhos não fazem: partilhar, não só ideias mas também custos e esforços. É um certo comunitarismo contra o egoísmo.
Os vossos projectos para o futuro…
Paulo - Acabar o meu curso, ser pai, consolidar o meu emprego, ir de férias para um sítio giro, tocar numa cena gay com a minha mulher a ver, uma estadia de uma semana com tudo pago em Galegos Santa Maria (que tem um dos melhores grupos de folclore do mundo e arredores), fazer um dueto com o António Calvário e cantar tão bem como ele ou o Marco Paulo, representar Portugal no Festival da Canção Infantil e obrigar a RTP a repor a série Jovens Heróis de Shaolin (para eu gravar em VHS). E arranjar um padrinho que nos ponha nos programas da televisão…
Alex - Gravar o nosso primeiro álbum, tocar o máximo possível, ganhar o Euromilhões, fazer a primeira parte do Júlio Iglesias, ganhar o Festival da Eurovisão para Portugal…
Nuno - Continuar a tocar por mais vinte anos, e outra vez outros vinte… foi para isso que vendi a alma.
Nuno