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Ludovic



Last Updated: 1/5/2010

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Country: FR
Signup Date: 8/26/2008
November 9, 2009 - Monday 

Category: Blogging
Os rapazes gostam de se manter meninos por mais tempo, sem dúvida. Seja a ir à bola com os compinchas (e chegar a casa aos “ésses”), ou – como foi o caso do meu pai – investir na tal Harley Softail Heritage que sempre se sonhou, ao virar os 50… ou então (porque não??) experimentar ser DJ! 

Claro que não é preciso chegar à meia-idade para que essa aspiração se instale. Há histórias que atestam a ideia de que esse impulso a uma ascenção social nocturna não depende necessariamente de uma crise de meia idade. Exemplos rápidos: a menina apresentadora que se fartou do surf e comprou pratos… o excelso senhor advogado que gostava de passar discos dos anos 80 no antigo Indústria de Lisboa… ou o famoso apresentador de televisão que ia animar o Kremlin às quartas-feiras… Infelizmente, o DJ’ing é uma actividade livre e, até agora, não regulamentada. Está portanto sujeita a que estas incursões de gente pouco formada sejam, não só, bem sucedidas, como espalhem a mais abjecta ignorância sobre esta cultura. 

É normal que isto ocorra numa área onde há uma ausência de formação profissional - porque os cursos de DJ e produção são no geral pequenos passos, comparados com o quanto se deve saber sobre música, e não são factor preditor de sucesso na área… Vejam só se o mesmo acontecesse em outras áreas! Também já sonhei seguir medicina, mas nunca entrei num consultório de estetoscópio erguido, pronto para fazer uma cirurgia cardíaca… assim, sem dizer nem ai nem ui, fazendo-me valer da minha notoriedade como DJ para ordenhar a vaca da labuta médica. 

Vamos esclarecer uma coisa: há tal coisa como um DJ a sério. Já os vi por aí, várias vezes. São gente normalmente íntegra, trabalhadora, com enorme sentido de sacrifício. Um DJ a sério não decidiu ser DJ porque tinha piada passar música. Decidiu sê-lo porque sentiu um dever real de transmitir aos outros, a alegria que sentia ao ouvir certa música. Um DJ a sério não procura que o seu nome seja entoado em cântico benfiquista na quebra de grandes épicos, mas antes que um tema especial encontre, por via do seu trabalho, um lugar no coração dos seus ouvintes. Um DJ a sério passa fome (pelo menos uma dúzia de vezes) para comprar música – porque respeita o trabalho dos seus autores. Acarta malas pesadíssimas calçada acima para ganhar uma miséria, e é – no geral – um relativo desconhecido da vida pública que vive uma existência romantica e onírica, insegura e sem apoio social algum, sujeito a ter um mês com pouco trabalho no qual mal paga a renda. É um tipo (ou uma tipa, perdoem-me), que vasculha lojas de música horas a fio (ao vivo, ou na net); é pessoa para nunca viajar sem visitar espaços onde fazer o seu valioso “digging”, e é, em última análise, alguém que se sacrifica pela diversão alheia. Quantas vezes, ao olhar um DJ solitário a subir uma colina lisboeta, com bagagem imensa, não me lembrei das últimas horas da vida d’Aquele que se sacrificou por todos nós. 

E quão pouco essa personagem é valorizada… Há sempre um pindérico que estraga o esquema, que destrói com ignorante arrogância a dedicação do DJ a sério. É aquele que está disposto a oferecer soluções musicais fáceis e familiares, sem mestria alguma, a troco de copos e traços de farinha colombiana. Não digo com isto que já não haja novos DJs a sério, ou que hoje em dia qualquer um que sinta o “chamamento” seja necessariamente um imberbe sem talento. Mas que é cada vez mais raro ver um miúdo que saiba realmente o que é ser um DJ. Ao mesmo ritmo que os valores estéticos que embebem o underground se tornam fórmulas de pop, também – pelo menos, uma vez por década – a miudagem decide tornar-se DJ em grande escala. Quando se dá este fenómeno, outro sucede imediatamente: a qualidade da música decresce estupidamente. 

A quem não conhece muita música (ou a quem procura apenas o glamour dos pratos), é principalmente o facilitismo que dita a música. E claro, isto apela em grande escala a todos os que tomam a música nocturna como um papel de parede sonoro que acompanha inconsequentemente um ritual de engate, ou uma bebedeira frívola. Assim, como sempre, dá-se um fenómeno de rotatividade dos desinspirados: onde aqueles sem-talento-com-fome-de-fama que atrofiaram o mercado laboral nocturno são substituídos por outros com igual configuração psicológica, cinco a dez anos depois. 

São os hypes, as manias, os fugazes 15 minutos de fama. E cá atrás, discretamente, os DJs a sério, mantêm-se puros e fiéis, pobres em tudo menos em espírito… aproveitando esta sazonal queda dos parolos para se estabelecerem um pouco mais, para se darem a conhecer como pessoas que não abandonam o barco. Já dizia o Billy Ocean “when the going gets tough, the tough get going”… e é nestas mudanças de ares que se distinguem os meninos dos homens. 

Portugal é particularmente volátil a estes fenómenos, principalmente pela falta de formação geral (amplamente perceptível) a respeito do que é um bom DJ, a respeito do que é o manifesto laboral e criativo do bom DJ (saber o que se deve – de facto – valorizar e o que é ou não acessório). Mas principalmente, a respeito do que é – ou não – boa música e como isso se distingue de música simplesmente funcional (um bom carro é mais do que apenas um carro económico). 

Nesta ocasião, deixo o meu repúdio claro, sobre todos os que poluem e sufocam o universo nocturno do nosso país, ao jeito de Almada Negreiros (em ocasião semelhante) n’ O Manifesto Anti-Dantas… “morra o DJ-Pintas, morra… PIM”. 


Fonte: http://www.ruadebaixo.com/separar-os-meninos-dos-homens.html
RiskoDisko

 
belo texto!

 
Posted by RiskoDisko on November 10, 2009 - Tuesday - 10:56 PM
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