
Público - Ípsilon de 1 de Maio de 2009
Em "John Captain", o álbum de estreia, o pó que cobria a música dos Born A Lion era desértico - tragédias country em terra de ninguém e riffs stoner-rock atravessando terrenos áridos em alta velocidade. Com "Bluezebu", o segundo disco da banda da Marinha Grande, deixa de haver um território simbólico tão facilmente "cartografável".
O que há aqui, ou melhor, o que já existia neles mas que agora se torna mais evidente, é uma crença na ideia e nas formas do rock'n'roll clássico que insufla vida a estes grooves "Zeppelianos", a este negrume Sabbath, às guitarras "wah wah" enfurecidas e à secção rítmica cavalgando em ritmo de jam libertina. Agora, não há fronteiras definidas: isto é rock'n'roll de peso e alimenta-se do excesso - conferir as vagas eléctricas da guitarra ou a voz grave que, em "Daisies and diamonds", encarna um Lee Hazelwood entregue aos prazeres do "boogie" (depois, a canção levita até psicadelismos Floydianos e Hazelwood torna-se memória esbatida).
Nesta fantasia rock'n'roll feita violento escapismo, os Born A Lion conjugam tudo num corpo uno: são os Deep Purple a inventarem-se enquanto Funkadelic em "Space traveling" (órgão Hammond e coros femininos incluídos), ou uma balada acústica que cresce até se transformar em blues catártico, culpa do piano gingão do convidado Filipe Costa, dos Sean Riley & The Slowriders.
"I live my life in a rock'n'roll tone", cantam os Born A Lion naquele refrão. A questão não é isso ser ou não verdade. Soa verdade - e isso, aqui, é tudo o que interessa.
Mário Lopes
Disco Digital
«Bluezebu», Born a Lion
Davide Pinheiro
Os portugueses Born a Lion estão de regresso com um manifesto de rock..n..roll clássico mas verdadeiro.
E porque não sonhar com uma outra vida num tempo distante? «Bluezebu» é rock..n..roll retroactivo gerido por quem não se sente confortável com as grandes invenções tecnológicas. Nada que não se esperasse destes marinhenses inconformados.
Demoníaco na forma como suja os blues de Robert Johnson, «Bluezebu» é um disco de palco gravado em estúdio transpirado até ao último segundo com excepção da balada «Rock..n..'Roll Tone» (em que Sean Riley e Filipe Costa dão uma mãozinha).
«Bluezebu» versa a vida de uma banda de rock na estrada, de caminhos sinuosos, de promessas, enfim, de um mundo proibido mas apetecido que só pode ser relatado por quem lá anda. Esse universo quase «circense» é transformado em canções lascivas.
Os Born a Lion ouviram os grandes clássicos e perceberam as regras do jogo. Mesmo sem desejos reinventivos, «Bluezebu» é uma seta apontada ao inconformismo e à testosterona. Não há muitos discos de rock tão verdadeiros como este.
Born A Lion
«Bluezebu»
Lux/Compact Records