*por Luis Zanin Oricchio (O Estado de S. Paulo) Diferente dos inúmeros filmes sobre música ou músicos que vêm surgindo,
Herbert de Perto, de
Roberto Berliner e Pedro Bronz, apresenta um
aspecto adicional. Além de falar de um ídolo -
Herbert Vianna - aborda
também uma extraordinária história de superação pessoal de um trauma.
Como todos lembram, o líder dos Paralamas do Sucesso foi vítima de um
acidente de ultraleve em fevereiro de 2001, no qual perdeu a mulher,
Lucy, e ficou muito ferido. Em boa medida, o filme é a história dessa
recuperação.
Existe uma estratégia de montagem da obra, que faz do acidente o
divisor de águas (não cronológico) de uma história pessoal. Um antes e
um depois, como muitas vezes se vê na ficção: uma linha de vida que
segue até certo ponto, quando então acontece alguma coisa grave e tudo
se altera. Assim também sucedeu com Herbert Vianna e o documentário é
bastante agudo ao trabalhar sobre dois polos distintos, com esse ponto
de não retorno entre eles.
Então, há uma faceta, a juventude
descompromissada, os anos de formação da banda, a irreverência juvenil,
o contato com o sucesso. Depois do acidente, a narrativa da comoção dos
fãs (e dos não fãs também), os maus prognósticos, o sofrimento, a lenta
recuperação e a volta. Se a história de Herbert não tivesse acontecido
de verdade, poderia ter sido inventada como ilustração de um formato
ideal de roteiro para filme de sucesso. Exposição do personagem, êxito,
queda, enfrentamento de dificuldades extremas, superação. De alguma
forma, essa biografia poderia entrar como ilustração às teses
cinematográficas de Christopher Vogler baseadas na teoria dos
"monomitos" de Joseph Campbell. Narrativa exemplar, como a de um mito,
que nos atinge a todos, porque fala algo ao nosso inconsciente.
É
dessa maneira que Herbert de Perto pode superar, e de muito, o
interesse mais restrito dos fãs da banda ou do rock brasileiro. Por sua
história de vida, Herbert tornou-se, digamos, universal. Foi o que se
viu no Festival de Paulínia, onde o filme foi apresentado ao público
pela primeira vez. Uma decisão inteligente da organização do evento fez
com que o documentário fosse projetado e, em seguida, houvesse um show
ao vivo dos Paralamas, e no mesmo teatro. As imagens vistas na tela
serviram como preparação ao espetáculo que, dessa maneira, se tornou
inesquecível - mesmo para aqueles que jamais teriam escolhido um CD dos
Paralamas para ouvir em suas casas.
É verdade que, em meio à
estrutura bem pensada do filme (e tristemente proporcionada pela
realidade) estão as músicas dos Paralamas, para quem já delas gosta ou
para quem se dispõe a descobri-las. E não é um efeito negligenciável do
documentário conduzir essa descoberta através do personagem que se
constrói na tela. A parte musical já está bem comentada aí ao lado.
Quanto ao cinema, seria preciso destacar quanto o filme é bem montado,
como aproveita (bem) o material de arquivo e o mescla às imagens
contemporâneas para produzir os efeitos que deseja sobre o público.
Herbert
de Perto acaba sendo uma bela história humana, e não apenas por seu
personagem principal. Fica claro que ele escapou da condição muito
grave não apenas por sua força de vontade, mas porque se construiu à
sua volta uma notável rede de solidariedade. Formada pelos familiares e
por seus companheiros de banda. Era preciso que Herbert voltasse, mesmo
contra todo o prognóstico. Várias mãos se mobilizaram para isso, o que
torna o filme ainda mais tocante porque acaba sendo um pouco comum
história de amizade e solidariedade. Tudo aquilo que, pensamos, faz
falta em nosso mundo pragmático e interesseiro.