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Luisa Amaro



Last Updated: 11/18/2009

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[19 Mar 2009 | Thursday] 









Peregrinação pelos seus Meditherranios



São as experiências auditivas, não a música em si,
 que geram as verdades ficcionais.

K.L.Walton


A guitarra portuguesa – instrumento tradicionalmente interpretado por homens desde a sua criação no séc. XVIII, talvez a partir do cistre inglês, e popularizado modernamente pela sua associação a um género musical específico, o Fado, nas duas vertentes de Coimbra e de Lisboa – encontra em Luísa Amaro uma protagonista duplamente corajosa: como intérprete, foi a primeira mulher a ousar gravar esse instrumento maior e emblemático da música portuguesa; como compositora, ensaiou-lhe toda a riqueza de novos perfis sonoros e associou-o a horizontes tímbricos inesperados.

Em “Meditherranios”, Luísa Amaro desenvolve uma teoria musical muito própria para a guitarra portuguesa, aliando-a ao guitolão – uma guitarra barítono de que apenas existem dois exemplares no mundo, concebida por Mestre Carlos Paredes e desenvolvida por Gilberto Grácio, herdeiro de uma ilustre família de construtores de guitarras – aos clarinetes e à percussão oriental. Nesta busca de sortilégios ancestrais, que é ao mesmo tempo uma viagem de pesquisa e criação pelos mais profundos itinerários do passado, evoca a complexa miscigenação cultural que Portugal experimentou ao longo da sua história, em que se cruzaram as influências judaicas e muçulmanas provenientes desse  grande mar Mediterrâneo que em tempos uniu povos e foi veículo de uma civilização sui generis.

Se o guitolão nos sugere a memória do alaúde árabe, se o clarinete nos leva de viagem aos Balcãs e à Turquia, se a percussão nos transporta ao Oriente Médio,  a guitarra portuguesa devolve-nos ao exacto local onde Luísa Amaro nasceu, se criou e se reinventou: a guitarra portuguesa. Por isso nesta aventura de peregrinação pelos seus “Meditherranios” recriados, nesta fusão de sonoridades e de lugares longínquos, o lirismo assume plenamente a voz da nostalgia – a recordação de que houve um tempo e um lugar em que a música poderia ter sido assim. E a introdução do piano, na sua composição que Mário Laginha acompanha, nada mais faz do que comprovar que esses ritmos provenientes das funduras da história estão, afinal, mais vivos e interpelantes do que nunca.


LUÍSA AMARO
Guitarra portuguesa

Luísa Amaro estudou Guitarra Clássica no Conservatório Nacional de Lisboa com o Professor Lopes e Silva e prosseguiu os seus estudos em Barcelona, em 1983, com a guitarrista argentina Maria Luisa Anido. No ano seguinte começa a tocar com Mestre Carlos Paredes (1925-2004), que acompanha em guitarra clássica em centenas de concertos por todo o mundo, interrompendo essa actividade em Dezembro de 1993. Paralelamente, em 1989 frequenta o Curso Internacional de Guitarra em Castres (França), com o guitarrista argentino Roberto Aussel.

Desde 1996 que Luísa Amaro se dedica à guitarra portuguesa como compositora. Da sua busca incessante de novas envolvências tímbricas e de um reportório diferente para um instrumento carregado de tradição simbólica, nasceu em 2006 o projecto In-Canto, desafiando a guitarra portuguesa para outros pulsares e ritmos.

Dos inúmeros concertos realizados em todo o País, e para além das dezenas de espectáculos com a apresentação do trabalho “Canção para Carlos Paredes”, de 2004, destacam-se: espectáculo com a Orquestra Académica do Porto, sob direcção do maestro António Saiote (2001); música para “Devaneios Flutuantes”, bailado de Ana Rita Barata e Pedro Sena Nunes (2001-2002); concerto de Jubileu do Cardeal Patriarca de Lisboa (2003); concerto no Círculo Eça de Queiroz (2005); participação no Festival de Lisboa e no Festival MED de Loulé e concerto inaugural do Festival Islâmico de Mértola (2007).


ANTÓNIO EUSTÁQUIO
Guitolão

António Miguel Raimundo Eustáquio nasceu em Portalegre a 2 de Junho de 1961. Frequentou o Conservatório Regional de Castelo Branco, onde estudou Educação Musical, Piano, Composição, História da Música e Acústica. Prosseguiu a sua formação em Paris, estudando Música Antiga com Henri Agnel. Depois de cumprido o serviço militar, em que integrou a Orquestra Ligeira do Exército, estudou guitarra na Academia de Amadores de Música em Lisboa.

António Eustáquio é membro fundador do Quarteto do Sol, para o qual gravou um CD. Fundou o Quarteto Sons do Tempo, com guitarra portuguesa, compondo para esta formação a obra “Suite das Folhas”. Foi ainda fundador da Camerata Lusitana, conjunto instrumental que propõe a utilização da guitarra portuguesa na execução de repertório de música do período barroco, com a qual gravou dois CD’s (Vivaldi em guitarra portuguesa e Bach em guitarra portuguesa). Presentemente interpreta um novo instrumento português – o guitolão – com que gravou um DVD integrado num suporte promocional da Vila de Marvão; ainda com o guitolão, formou um Duo com o contrabaixista Carlos Barretto. Integra o projecto In-Canto com Luísa Amaro.


BALTAZAR MOLINA
Percussão oriental

Baltazar Molina iniciou os seus estudos musicais em Guitarra Clássica em 1996,  tendo em 1998 descoberto a darbuka, uma percussão cilíndrica tradicionalmente encontrada em países como o Egipto, Turquia, Tunísia, Argélia, Marrocos, Grécia e algumas regiões dos Balcãs. A darbuka tornou-se então o seu principal instrumento, juntamente com uma profunda paixão pelo «modo egípcio» de sentir a música árabe. Este modo veio, na verdade, ajudar a desenvolver o seu próprio sentido de expressão de sentimentos através da música. Ao longo deste percurso, muitos foram os encontros com diversas pessoas, situações e projectos musicais que o ajudaram a manter viva e luminosa a chama da paixão, num sempre crescente processo evolutivo.


GONÇALO LOPES
Clarinete

Gonçalo Lopes nasceu em 1970 em Seattle, Estados Unidos da América. Cursou Design de Interiores no IADE até 1994, altura em que iniciou os seus estudos de Clarinete na Academia de Amadores de Música. Com uma breve formação na escola do Hot Clube de Portugal, vem participando em diversos workshops dentro e fora do País, nomeadamente o Workshop of Popular Music em Sarajevo (1998) e o workshop com Adam Lane integrado no Ensemble JACC, iniciativa do Jazz ao Centro (2005). Em 1996 foi-lhe atribuído o 1º Prémio no Concurso Jovens Criadores da Europa e Mediterrâneo com o grupo Pablibutsone, tendo no ano seguinte sido Representação Portuguesa em Turim. Pertence ao grupo Macacos das Ruas, de Évora, tendo colaborado com encenadores portugueses em diversas peças de teatro e participado em projectos de jazz, dança, música de rua e novo circo, musicando ainda cinema mudo desde 1999. Integra o Quarteto Interlunio, dirigido por Ricardo Freitas. Recentemente, formou o Duo Alf@rroba com Jozé Oliveira.


MÁRIO LAGINHA
Piano

A sua "casa" é o jazz, mas recusa encerrar-se lá dentro. Na sua música podemos encontrar um pouco de quase tudo, porque não fecha as portas a quase nada. Mário Laginha procura em vários lugares a matéria com que constrói o seu próprio universo musical.
Para Mário Laginha, fazer música é também um acto de partilha. E tem-no feito com personalidades musicais fortes: Maria João, Bernardo Sassetti e Pedro Burmester. Nos três duos é evidente a sua criatividade, uma grande solidez rítmica, uma enorme riqueza harmónica e melódica.

Criou o Trio de Mário Laginha com o contrabaixista Bernardo Moreira e o baterista Alexandre Frazão com o qual acaba de editar o CD "Espaço"em que relaciona a sua música com o universo da Arquitectura. Na sua discografia, já extensa, tem ainda trabalhos  a solo (o premiado "Canções e Fugas") em quinteto e ainda em duo com Maria João, com Bernardo Sassetti e um com Pedro Burmester.
Tem tocado e gravado com músicos excepcionais, como Wayne Shorter, Wolfgang Muthspiel, Trilok Gurtu, Gilberto Gil, Lenine, Ralph Towner, Manu Katché, Dino Saluzzi, Julian Argüelles, Django Bates.

Com enorme versatilidade e domínio da composição, escreveu para diversas formações, como a Big Band da Rádio de Hamburgo, a Orquestra Metropolitana de Lisboa, a Orquestra Filarmónica de Hannover, o Remix Ensemble, o Drumming Grupo de Percussão, a Orquestra Nacional do Porto e a Orquestra Sinfónica de Bruxelas . Também compõe para cinema dança e teatro.


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No Jardim do Tempo


É a nostalgia a mais secreta flor deste jardim cujas alamedas são sem tempo, porque eternas.

Cada melodia, qual encantada serpente, envolve-nos em doce amplexo, bem dentro do nosso sangue e alma.

Esta música do presente guia-nos de volta àquela época de ouro em que beleza, requinte e tolerância perfumaram o tempo árabe do nosso território.

As melodias de Luísa Amaro, por ela e pelo ensemble «In-canto» superiormente executadas, têm o dom de nos transportar no tapete voador da imaginação. E, ao consolar-nos os sentidos, convocamos também para uma serena meditação. Assim, convida cada um a penetrar no seu jardim secreto.


Adalberto Alves


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O instrumento do destino



No timbre da guitarra portuguesa encarnou-se um estranho destino: desaparecida do resto da Europa, sobreviveu com orgulhosa tenacidade em terra lusitana até identificar as cordas mais íntimas e as vibrações mais subtis. A sua voz – porque de uma voz se trata – toca o coração desde a primeira nota; as suas ressonâncias colocam em movimento sentimentos que pareciam esquecidos; nela afloram emoções que as palavras não conseguem descrever. Há qualquer coisa de antigo e de nobre no timbre deste instrumento, que tem aparentemente origens humildes e que encontrou no fado o seu habitat ideal.

Mas a guitarra portuguesa, se é a essência do fado, vive para além dele. Demonstraram-no músicos que souberam exaltar o seu extraordinário potencial expressivo, revelando um universo sonoro original e fascinante. Luísa Amaro está entre eles. Crescida artisticamente com Carlos Paredes, assimilou um ilimitado interesse pelo som como exercício criativo de exploração do mundo. Com grande sensibilidade e extrema delicadeza construiu um diálogo íntimo com as culturas musicais do Próximo Oriente. Percebeu a respiração das suas dimensões universais, desafiando-lhe a matéria sonora e interpretando-lhe a sua essência através de um trabalho de tradução elaborado sobre uma trama tímbrica extremamente sóbria.

A personalidade única da guitarra portuguesa é colocada em evidência pela elegante e discreta presença do clarinete e da percussão, com a cumplicidade de um segundo instrumento de cordas, o guitolão, que é a sua natural extensão. Este instrumento, construído ex-novo por Gilberto Grácio, é fruto da imaginação de Carlos Paredes, que desejava ampliar o registo da guitarra portuguesa para se aventurar além dos limites objectivos impostos pela sua estrutura.

Esta subtil e constante inquietude, tão intrínseca e requintadamente lusitana, reflecte-se no trabalho de Luísa Amaro através da evocação de um Portugal mourisco, como expressão de uma insinuante nostalgia. Qualquer coisa de longínquo no espaço e no tempo, e ao mesmo tempo tão próximo de se tornar motivo de efabulação sonora. Se a saudade fosse som, teria a voz do seu instrumento.


Paolo Scarnecchia


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Mediterrâneos


Este CD reúne nove composições da autoria de Luísa Amaro, oito das quais são interpretadas pela compositora à guitarra portuguesa, acompanhada por um guitolão, clarinete alto e baixo e vários instrumentos de percussão do Médio Oriente. Uma das composições conta igualmente com a colaboração do pianista Mário Laginha.

O primeiro trabalho de Luísa Amaro enquanto solista e compositora, as obras que constam deste CD revelam uma grande maturidade artística e interpretativa.  A música evoca o imaginário de um Mediterrâneo onde múltiplas influências se cruzam e onde o passado de convivência de diversas culturas e religiões inspira esperança num futuro em dialogo. Aliás os cruzamentos e diálogos musicais atravessam todas as composições que constam do CD.  Cruzam-se e dialogam o lirismo da canção de Coimbra e da guitarra coimbrã, enquanto instrumento acompanhador e solista, o legado de Carlos Paredes que a compositora acompanhou durante muitos  anos. Estão também bem presentes a criatividade e subtileza dos percursos melódicos e rítmicos, da ornamentação e da abordagem à improvisação no alaúde Árabe, características da música erudita do Médio Oriente.  A inspiração na música do Médio Oriente está patente em várias composições. Destacam-se Kalipha (faixa 4) e Mouriscas (faixa 8).  A primeira cuja estrutura assemelha-se a da waslah (um sequência de composições instrumentais e vocais, alternadas com improvisação), inicia-se com uma introdução que evoca o taqsim (improvisação instrumental) no alaúde; seguem-se várias secções melódicas alternadas com improvisação. A segunda, começa com um padrão rítmico executado pelo daff (tambor de caixilho) e é constituída por improvisações modeladas no taqsim. Assinala-se igualmente Mediterrâneos (faixa 7), uma composição que conta com a colaboração de Mário Laginha que enriquece a obra da compositora com novas ideias musicais e texturas sonoras.

As obras que constam do CD são interpretadas com lirismo, subtileza e grande expressividade.  A guitarra e os instrumentos que a acompanham estão em perfeita sintonia, produzindo uma textura sonora de grande clareza e onde os vários timbres se complementam. Assinala-se o domínio técnico da guitarra de Luísa Amaro que é inteiramente colocado ao serviço da expressividade.

Uma das raras guitarristas e compositoras femininas, Luísa Amaro está de parabéns por este trabalho que de certo contribuirá para uma visão mais ampla dos Mediterrâneos. 


Salwa El-Shawan Castelo-Branco


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Sons de Tempo(s)



Há nestes sons de Luísa Amaro uma dolência metálica, ou uma saudade mansa e circular, que assenta bem na guitarra portuguesa. E quando tudo começa por parecer previsível - na exacta medida em que o belo tem regras, equilíbrios e balanços adivinháveis, como cumpre às coisas que encerram história - logo vêm, insinuando-se agora numa fímbria de som e tomando depois o corpo do canto, os tocares do guitolão e dos clarinetes, pungentes e doces como erva de esteva, e os ritmos leves da percussão, tão suaves e de penumbra como pés descalços mais do que presenças.

Por esta porta meio encostada penetram então memórias difusas, daquelas que são insinuantes e insidiosas, das que se deixam quase tocar para logo fugirem inquietas, talvez de árabes ou de mouros berberes, de jograis brincando aos cortesãos como califas ou de mouriscas beirãs devaneando em crisálidas, porventura vozes mais fundas ainda, do tempo longe de quando as traves das casas eram de cedro e de cipreste as varandas. “Beije-me ele com os beijos da sua boca, porque melhor é o amor do que o vinho”, diz a guitarra ainda sem gemer; e responde-lhe o guitolão: “Põe-me como selo sobre o teu coração, como selo sobre o teu braço, porque o amor é forte como a morte e o ciúme duro como a sepultura”. O clarinete, que estava estendido ao luar, murmura-lhe: “Agradáveis são as tuas faces entre os teus enfeites, o teu pescoço com os colares”. É verdade, sublinha a percussão, é verdade que “aparecem as flores na terra, o tempo de cantar chega e a voz da rola ouve-se”; e depois repete em cadência, como quem embala: “O meu amado é para mim um ramalhete de mirra, morará entre os meus seios, entre os meus seios, entre os meus seios”.

E todavia - supremo desconcerto, que sempre se deve esperar do falso previsível - tudo nestes toques, mesmo que estranhos, nos diz respeito. Tudo aqui é iniludivelmente português, nosso e não do outro, pois que o outro há muito ficou connosco. Porque estes são sons que trazem um carrego antigo - sons de tempo(s) - tão imemoriais como estratigrafias. Vêm lá do fundo das memórias mal esquecidas, tirados a baldes de nora de um poço comum onde se bebe a nostalgia da mirra e da cidreira e do anis, do aloés e do açafrão e do rosmaninho.

A nossa música poderia ter sido assim. A nossa deles.


Heitor Baptista Pato


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As almas de uma guitarra



De onde vem a guitarra portuguesa? Não sei!

E será isso importante? Para os historiadores sim. Para os que ouvem música, não sei. Talvez que apenas exista. E que exista para ser tocada e ouvida. E as que se ouvem aqui vieram do Sr. Grácio.
A guitarra portuguesa encerra, neste disco, um sortilégio a que ainda pouco estamos habituados. O de ser tocada por uma mulher.
Não uma mulher qualquer, antes alguém que lhe vai bebendo a alma e lhe vai estudando os infindáveis entrelaçados tímbricos. E lhe dá por isso uma nova alma.

Com grande coragem, Luísa Amaro compõe para guitarra portuguesa. E mergulha-a numa Coimbra ancestral que lhe deu berço. Embala-a em sons antigos, de arabescos mediterrânicos. Sempre novos. E deixa que a voz do “Mestre” lhe sussurre ao ouvido: - “vai Luísa, sobe essa calçada…”. A calçada do coração em forma de uma guitarra e de um (a)braço coimbrão que afaga seis cordas dobradas.

Cordas que cantam os amores de um “Jogral”, que mesmo novo, é sempre um hino. Cantos de um mágico “Kalipha”, que em “Jardins de Sereia” se apaixona por belas “Mouriscas” e nos transforma em “Lusitânia” de doces “Devaneios”. Devaneios de amor e de cumplicidades sonoras, com bendhires, clarinetes e “guitolões”, seus irmãos de alma lusa.

E há nestes sons uma ou novas almas. E há esse novo sortilégio. O de ouvir a guitarra portuguesa por mãos pequenas, finas e suaves de uma mulher. A guitarra soa a outra coisa. Soa a amor. E a raiva... E a coragem. E a mel. E a sonhos sempre por realizar.

Este é um disco de e para guitarra portuguesa. Por isso, um dos novos caminhos por onde a guitarra tem que ir.

Sem muitas dúvidas, um dos caminhos da música portuguesa. Para ouvir. Sempre …


João Pereira da Silva


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Criar novas transgressões



Maiores as tensões que o artista tem de suplantar,
 mais a união e a totalidade serão também de uma perfeição maior.

Claudio Arrau


Este disco surge de uma vontade de abrir um novo ciclo, criar uma sonoridade distinta, com novas histórias para contar. Deu-me um enorme prazer sentir o pulsar dos instrumentos com os seus timbres, as suas vibrações, os seus sopros e arrebatamentos.

Não foi fácil libertar-me da forma habitual e tradicional de tocar a guitarra portuguesa e mergulhar na aventura de procurar novos caminhos, criar outras melodias, descobrir diferentes harmonias, transgredir velhos hábitos, encontrar pontos comuns entre culturas e atingir a plenitude com o total empenho de cada um dos músicos. Os temas colectivos são muito maiores que a mera soma das partes.

Foi um percurso difícil, sinuoso, carregado de vivências, onde me libertei de experiências, retomei caminhos e segui o impulso de construir obra própria. Um ciclo novo nasceu amassado numa torrente de emoções, intenções, indecisões, convicções e condimentado com alguma inspiração, algum talento e um crescendo de confiança. Com muito trabalho, nasceu luz.

No início parecia difícil: foi necessário escolher as pessoas, os instrumentos, a música, o som que nos havia de guiar…, com a continuidade o entusiasmo contagiou-nos. As dificuldades desvaneceram-se, a música fluiu, a cumplicidade embalou os músicos, o projecto realizou-se – está bem assim. Eu gosto!

Agradeço a quem me ajudou a chegar aqui: Alexandre Bateiras, Américo Cardoso, André Gomes, Ana Baião, Ana Salvado, Armando Gouveia, Fernando Couceiro, Ana Júlia, Elvira Nereu, Eduardo Lemos, Fausto Marsol, Francisca Mota, Fernando Alvim, Gabriel Gomes, Glória, Graça Sá-Fernandes, Gilberto Grácio, Isabel M. Rato, Igeménia, Isabel Pinto, Ivone, João Tudella, Jorge Mourinha, José Boeiro, Kilas, Maria Beatriz, Maria José Costa Félix, Maria de Lurdes, Olga Carneiro, Patinhas, Paula Raposo, Paulo Garrido, Pedro Ayres de Magalhães, Pedro Gomes, Pedro Sena Nunes, Pedro Sousa Uva, Rosarinho Alvim, Rui Lopes Graça, Rui Simão, Té, Tomás Oliveira Marques, Zé Matos.

Agradeço a confiança e amizade que sempre me transmitiram, acreditando sempre que eu ia conseguir: António Pinheiro da Silva, responsável pelo som; Luís Gomes, meu editor, responsável pela produção e grafismo; os extraordinários e exemplares músicos António Eustáquio, Baltazar Molina e Gonçalo Lopes. Ao Mário Laginha pela sua bela participação. Aos meus pais que me criaram e acompanham desde sempre…

Finalmente, o meu reconhecimento e profunda amizade ao Convento dos Cardaes (Irmãs Augusta e Ana Maria) onde sempre ensaiámos e ao Coro de Santo Amaro de Oeiras onde gravámos este disco.


Luísa Amaro



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Quatro Haikus
para a música de Luísa Amaro


I
Tocar na música
Que mais cala, faz
O silêncio falar.

II
A guitarra tange
Sempre o que dói
A valer, mais nada.

III
Da sombra que luz
Navega por perto
O sonho andalus.

IV
O sonho caminha,
(A) par da idade,
Mais fundo para sul.


Tomás de Oliveira Marques


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Egiptânia, Lusitânia




Egiptânia, terra negra, terra da morte sagrada e da vida infinita. O talento criador de Luisa Amaro restitui-nos a lenda em todo o seu mistério. A sua guitarra mágica ressoa em húmidas flores de luz nesse universo mítico que os clarinetes e a percussão oriental evocam.
São brilhos de pérolas suaves, seios mordidos de odaliscas, jardins submersos pelo sonho, sorrisos entre ondas de sol.

São os Devaneios, é a Crisálida, ouve-se o guitolão com sugestões de alaúde e o vento branco invade a cena em que as mais belas mulheres se rendem, por entre espelhos e jarros de vinho, que parece sangue, ao desejo que da sombra as espreita, olhos vorazes interrogando o segredo desses corpos.

Cascatas de som vibram nas páginas da memória e outras telas, outros espaços nos convidam a olhar. Desapareceu o Kalipha, eis a Lusitânia, o Jogral, a lua cheia sobre o rio deste lado da vida. Os oráculos da brisa anunciam um amor que veste de ouro a tristeza da carne.

Mas outra vez tudo muda. E temos as Mouriscas, o esplendor da guitarra de Luisa Amaro, o indizível almejado. E o Jardim da Sereia unificando, dulcificando contrários anseios, abrindo uma clareira de paraíso.

A água cintilante escorre pelas paredes da casa dos sonhos. Tocamos o intangível. Uma serena alegria desce sobre nós e traz um rasto de estrelas, uma claridade de paz.

É este o milagre da grande criação musical. Da música que nos dá a Luisa Amaro.



Urbano Tavares Rodrigues