A9 Vieram todos mais ou menos a horas. Às nove, lá estavam à entrada do cinema, as fotos da praxe para o social, o evento que ninguém queria perder, ou pelo menos, que pouca gente interessada pudesse faltar.
O ambiente estava bom, para além do traje de gala, também era obrigatório sorrir. Á entrada, o senhor que visionava os convites, de costas curvadas, numa postura como quem diz “desculpe lá a maçada, mas sabe… hoje em dia os penetras estão cada vez mais descarados, e já só vêm pelo vinho!”.
Vieram todos mais ou menos a horas, menos a Leila, claro. A estúpida atrasava-se em todas as ocasiões, até no casamento da cunhada conseguiu chegar depois da noiva, para a fúria do namorado, irmão da desposada, padrinho nesse dia no altar. Foram só nove minutos de atraso, mas, e como dizia a avó, “deixá-lo!”.
Os perfumes acabados de assentar nas peles dos presentes, começavam a saltitar no ar, fazendo uma atmosfera elegante, embora enjoativa para a maior parte dos presentes, especialmente para a estudante que servia canapés em part-time, desde as nove, para ganhar uns trocos.
Vieram todos mais ou menos a horas, mas ninguém imagina o sacrifício que ele passou para ali chegar. Às nove da manhã, arrancou para a Anadia, onde entregou as provas de tecido com vista à nova colecção. Depois, numa rotunda, o GPS, que não olha a obstáculos, mandou-o por uma estrada que estava efectivamente cortada.
Não teve outro remédio senão ir à procura de uma alternativa enquanto o que o aparelho falava monocórdica e insistentemente, “faça inversão de marcha… agora!!!!” … “daqui a duzentos metros, faça inversão de marcha!!”
E ele a aguentar… tudo aquilo, como se não bastasse a parva da sócia, que, com o complexo de inferioridade, andava picada com ele, e não se cansava de dizer de nove em nove segundos “então e agora, o que é que vais fazer? Sabes o caminho? Estás a ir para onde agora? Não queres parar e perguntar?…”
Vieram todos mais ou menos a horas, sentaram-se na sala, as luzes diminuíram e a música começou. Eram nove músicos em palco. O vizinho de alguém que não queria perder a festa; o filho do senhor da bilheteira, que orgulhoso, espreitava o evento por uma porta secreta; a irmã da estúpida… perdão, da Leila, o amigo do namorado da parva, perdão… da estúpida… ai! Da Leila, que tocava também numa banda de heavy metal, a prima da estudante dos canapés, a irmã, o cozinheiro, o ladrão e o amante dela…
A festa foi linda, os homenageados saíram satisfeitos, e o GPS, que ficara ligado no porta-luvas do carro, cumpria lealmente a sua função, ao indicar para os candeeiros, o favor de fazerem inversão de marcha dali a trezentos metros e seguirem pela A9.