Em
todo o mundo, graças ao YouTube ou ao Facebook, o videoclip renasce,
afirmando-se como território artístico autónomo. Em Portugal acontece o
mesmo. Uma fornada de realizadores, com percursos e motivações
diferentes, dá vida nova a um formato que parecia moribundo.
Os
canais de TV clássicos eliminaram-nos quase por completo das suas
grelhas de programação. A MTV, cada vez mais alicerçada em programas de
tele-realidade, reduziu a sua difusão. As editoras de música quase não
têm dinheiro para eles. Muitos músicos olham-nos ainda pejorativamente,
convencidos de que criar uma imagem é sinónimo de prostituição
artística. E os cinéfilos, quando querem denegrir um filme, argumentam
que possui linguagem de videoclip, como aconteceu com o polémico e
último vencedor dos "scares, "Quem Quer Ser Bilionário?".
Os
videoclips têm costas largas. São tratados com paternalismo. Mas nunca
se viram tantos como agora, na Internet, no YouTube, no Vimeo, nas
redes sociais. Os orçamentos são mais reduzidos, mas há mais ideias. Há
desejo de cinema, nalguns casos mais do que no próprio cinema. Mesmo
aqueles que nunca ligaram ao formato são agora seduzidos por ele. Nunca
se consumiu tanto o género. Tornaram-se senha de identidade, passam de
‘wall" em "wall" nas redes sociais. Já não ilustram música. Já não
querem demonstrar nada. São objecto artístico, por si.
É assim
em todo o mundo. Em Portugal também, onde as transformações na
indústria do entretenimento reabriram a porta da criatividade aos
videoclips, formato que parecia moribundo. Há meses reflectíamos aqui
que o novo cenário estava a proporcionar a afirmação de uma nova
geração de realizadores como Patrick Daughters, Jonas & François,
Encyclopedia Pictura ou Andreas Nilsson, herdeiros dos já firmados
Spike Jonze, Michel Gondry, Chris Cunningham, Mike Mills, Anton Corbijn
ou Stéphane Sednaoui.
Por cá, nomes como Pedro Cláudio, Rui de
Brito ou José Pinheiro já não necessitam de apresentações e são citados
como referência, mas nos últimos anos outros têm feito trabalho válido.
Falámos com sete desses novos realizadores, com percursos, aspirações e
motivações estéticas distintas, mas outros poderiam ser nomeados (Pedro
Lino, João Pedro Moreira, Paulo Abreu, Eduardo Matos, produções Uzi
Filmes, etc), de tal forma existe um estilhaçar de actores neste
território.
Apesar das inúmeras diferenças entre eles, existe
qualquer coisa que os une: a paixão pela música. André Tentúgal é
músico, tocando com Weatherman e encontrando-se a gravar o álbum de
estreia do seu projecto Wingman. Paulo Segadães foi até há semanas o
baterista do grupo rock Vicious 5. Pedro Maia, Rodrigo Areias e Paulo
Prazeres já fizeram parte de bandas. Joana Linda estuda música desde
pequena e Joana Areal confessa ter um fascínio especial por grupos
femininos, aspirando até a formar um.
Do que todos não parecem
ter dúvidas também é que a crise da indústria da música, as ferramentas
para filmar a preços mais acessíveis, e a Internet, enquanto meio
difusor, alteraram por completo o panorama dos videoclips. Com leituras
para todos os gostos. "A crise da indústria e a Internet impulsionaram
a criatividade", refere Tentúgal. "Hoje qualquer pessoa pode ter os
meios para fazer um vídeo, as câmaras de filmar são baratas" aponta
Segadães. "Antes do YouTube até se podiam fazer coisas, mas acabavam
invariavelmente na gaveta" afirma Linda. "Não havia maneira de mostrar.
Agora não. É uma revolução. Hoje vêem-se coisas óptimas feitas por
miúdos. Claro que existe um excesso de coisas, mas o tempo imporá uma
selecção, separando o que é lixo e o que vale a pena."
Baixo orçamento
Mas
existem efeitos colaterais. As editoras escudam-se na realidade do
baixo custo para investirem cada vez menos, argumentando, precisamente,
que é possível fazer muito com pouco. Sim, a invenção é hoje muito mais
preponderante do que a sofisticação dos meios, mas não vale a pena
romantizar. "As editoras não arriscam", espelha Prazeres da produtora
Droid-id, uma das mais activas no mercado. "Boas ideias, muito baratas,
é coisa rara. Claro que existem rasgos, mas é necessário existir uma
produção média de qualidade e isso só se consegue com dinheiro."
"As
editoras acham que os vídeos não têm expressão, mas estão enganadas. O
YouTube é um canal incrível" aponta Segadães. "A Internet, o fácil
acesso à produção, permitem que se façam coisas fantásticas com pouco
dinheiro. As editoras sabem-no e acabam por aproveitar-se disso."
"Escudam-se na história de que não existem sítios para os passar, mas
hoje a Internet faz mais por qualquer videoclip do que a TV" acrescenta
Prazeres. "As coisas são mais canalizadas e as bandas têm noção disso,
de tal forma que são elas que investem nos vídeos, mais do que as
editoras."
A história actual dos videoclips em Portugal é uma
história de baixo orçamento: "Não me importo, por vezes, de trabalhar
com pouco dinheiro, porque é aliciante estar com músicos, mas tem de
haver um mínimo e em Portugal nunca há", analisa Areal, cuja primeira
experiência com videoclips aconteceu em Los Angeles, em 2001, com um
grupo cimentado, os Los Lobos. O orçamento era reduzido para o padrão
americano, mas superior à realidade portuguesa. "Foi uma experiência
importante porque são uma banda específica - fundamental para a
comunidade hispânica de L.A., que representa 40 por cento da população
-, enquadrada num ambiente que era importante que fosse reflectido.
Hoje gosto de fazer vídeos por isso: gosto de perceber a banda, como se
enquadra socialmente, o que quer dizer. É fundamental essa compreensão
e atenção pelos músicos."
Experiência inicial diferente teve
Linda. Há dois anos adicionou Marissa Nadler, cantora pop-folk
americana que admirava, à sua página do MySpace. Nessa altura, a
cantora fez saber que desejava para a canção "Bird on your grave" um
vídeo artístico, onde ela não entraria. Linda, que na altura havia
começado a fazer experiências com uma máquina fotográfica digital,
tentou a sorte, filmando-se a si própria por entre imagens de rigoroso
preto e branco. "Era uma boa oportunidade para experimentar, fiz o
vídeo, ela gostou, mostrou à editora, também gostaram muito. 24 horas
depois, estava a receber emails da editora a dizer que o tinham
mostrado à MTV e que tinham gostado bastante. De repente, aquilo tomou
proporções surpreendentes e as MTV de todo o lado transmitiam um
videoclip feito a partir de uma máquina fotográfica."
Fez mais dois
videoclips para a mesma cantora, apesar de nunca se terem conhecido
pessoalmente. "Só comunicamos por email" explica Linda. "É engraçado
ter confiança em mim, mérito da Internet e das redes sociais de que
tanto mal se fala, inclusive eu. Mas a verdade é que se não fosse o
MySpace nada disto teria acontecido."
Em "River of the dirt", o
último vídeo que fez para Marissa Nadler, pegou em dez actores e
meteu-os num autocarro. "Fiz questão de pagar a todos e o que sobrou
foi ridículo", afiança. "A não ser que a Beyoncé me peça para fazer um
vídeo, não estou a ver como é que se pode ganhar dinheiro com isto. Mas
o mesmo se passa no cinema. Quem ganha dinheiro no audiovisual trabalha
em TV ou publicidade."
Vida paralela
Nenhum
realizador subsiste só dos videoclips, mas todos ganham a vida a
realizar ou a fotografar. Maia realiza imagens para concertos, trabalha
em cinema, faz instalações vídeo, está ligado ao Curtas Vila do Conde.
Areal faz publicidade e instalações vídeo, já encenou teatro, prepara o
primeiro filme. Tentúgal faz projecções em concertos, publicidade,
vídeos institucionais, documentários. Prazeres, no contexto da
Droid-id, confecciona documentários, vídeos institucionais, filmes.
Linda e Segadães têm a fotografia.
Para a maior parte, os
vídeos parecem ser uma etapa para a feitura de uma longa-metragem.
Alguns, como Areias, até já alcançaram esse patamar. "Os videoclips são
uma realidade paralela na minha vida" diz, realçando que os que mais o
satisfizeram foram aqueles onde sente desejo de cinema. "O vídeo que
fiz, por exemplo, para o Sean Riley, é parte de um filme. Fiz uma coisa
muito específica, a preto e branco, com a qual me identifico."
Nas
suas curtas e na longa "Tebas", a música é omnipresente. É uma
constante no seu trabalho. "A minha última curta tem música do Sean
Riley e a longa tinha música do Tigerman. Por norma as pessoas para
quem faço vídeos são as que trabalham comigo no cinema. É como se
fizesse vídeos dentro de filmes, ou filmes dentro de videoclips." No
caso de Areias, a cumplicidade com os músicos é fundamental. O último
videoclip que realizou ("Life ain't enought for you" de Legendary
Tigerman) foi filmado em Roma com a actriz Asia Argento. O ponto de
partida era fazer um mini-filme "com a Argento e o Paulo Furtado
[Tigerman]" explica. "Quando estava a montar, telefonei ao Furtado a
perguntar-lhe se avançávamos com um primeiro plano de 50 segundos. Ter
mais de quatro segundos já é crime. Mas ele riu-se e disse que sim. Ou
seja, é necessário ter alguém do outro lado que esteja disposto também
a arriscar e que não deixe que a editora interfira no trabalho do
realizador."
Paulo Furtado é unanimemente apontado como alguém
que possui sensibilidade para o trabalho da imagem. Percebe o seu
alcance e participa no processo criativo. Há outras excepções,
principalmente entre as novas gerações (Sam The Kid ou X-Wife são
apontados como exemplos por Segadães e Tentúgal). "Há inclusive quem já
componha a pensar em imagens e tem ideias sobre o que deseja", refere
Prazeres. Mas a regra ainda parece ser a desconfiança em relação ao que
fazer com a representação e a imagem.
"Não existem regras
quando trabalho com os músicos", verbaliza por sua vez Areal, "umas
vezes são eles que têm uma ideia, outras não. Todos os processos são
diferentes e a piada é essa. Gosto do trabalho com músicos, de estar
com eles e de os tentar compreender. Inspira-me, dá-me ideias, põe-me a
pensar de outra forma, com outros tempos."
Nenhum deles fez um
videoclip sem que algo - não necessariamente a música - os motivasse.
Prazeres aponta que é "necessário um estímulo qualquer", assumindo que
já passou por experiências fracassadas. "Já tive dissabores, do género
desistir a meio, porque não acreditava naquilo." Areal explica que
aquilo que a fascinou nos ingleses Selfish Cunt foi o seu lado
performativo. "No segundo vídeo que fiz para eles tirei-os do seu
habitat, o palco, para realçar precisamente essa presença cénica, num
outro contexto."
Vale tudo
Nas décadas de
80 e 90, a MTV simbolizava a estética videoclip, em que os meios de
produção eram fundamentais. Parecia existir um padrão: montagem
fragmentada e acelerada, planos curtos justapostos, narrativa
não-linear, multiplicidade visual e forte carga emocional nas imagens.
Actualmente,
a existir alguma coisa, é uma fortíssima dispersão, um vale tudo onde
ainda existe espaço para a sumptuosidade, mas onde o principal são as
ideias. Agora são plataformas da Internet, blogues, comunidades
virtuais (pitchfork, stereogum, videos.antville, videostatic,
promonews) que ditam tendências audiovisuais, estreando, difundindo e
propagando videoclips feitos com meios escassos e, normalmente,
assentes em conceitos simples.
"São um objecto artístico"
reflecte Tentúgal. "Dantes havia pragmatismo, agora é possível
acrescentar qualquer coisa à música, como se actuassem num terreno de
grande experiência. Hoje um vídeo é como uma tela em branco." "Não há
regras", aponta Segadães, "e de tal forma assim é que muitos videoclips
funcionam como pequenos filmes. Já não pertencem a esse território MTV.
São laboratórios." "Aquilo que criei para a Marissa Nadler está mais
próximo da ideia de curta-metragem ou da vídeo-arte do que de uma
estética videoclip", reflecte Linda. Areal corrobora mas realça que o
tratamento de um videoclip é diferente: "O guião é a música e a banda.
É necessário compreender com quem e para quem estamos a falar."
Num
período histórico em que os meios de produção são quase universalmente
alcançáveis, todos podemos fazer um bom videoclip, tal como qualquer
indivíduo pode tirar uma boa fotografia. Mas isso não faz dele um
artista. É a consistência de um percurso, e a afirmação de
características próprias, que terá de provar se estamos perante alguém
com possibilidades de afirmação. Nos videoclips não é fácil acontecer,
até porque os realizadores são muitas vezes incógnitos do público.
Mas
há excepções, como o festival ViMus, da Póvoa de Varzim, tentou provar
ao longo de dois anos, com uma programação dedicada a realizadores de
videoclips. "Quando se vê algo do Rui de Brito percebe-se que ele tem
uma linguagem", diz Segadães, "o mesmo acontecendo com o Pedro Cláudio,
que é alguém criativo, que valoriza as ideias e que, com poucos meios,
faz vídeos fantásticos."
Prazeres acentua o juízo de que os
realizadores continuam a ser secundários em relação à música: "Fala-se
muito do Michel Gondry, do Chris Cunningham ou do Spike Jonze porque
alguém teve a ideia de juntar os seus vídeos num DVD, mas para sabermos
quem realiza a maior parte dos vídeos é preciso investigar", diz. Foi
isso que Linda fez com Sophie Muller, quando percebeu que havia uma
série de videoclips (Sade, Shakira, Beyoncé, Lily Allen) que
partilhavam um universo semelhante. "A música não me interessava, mas
os vídeos, não sendo coisas as coisas que faria, tinham qualquer coisa,
um universo romântico, feminino talvez, que me prendeu, e que me levou
a ela."
Em Portugal também há uma nova fornada de realizadores de
videoclips com vontade de serem descobertos. Provavelmente até já
passámos os olhos, no YouTube, no Vimeo ou no Facebook, pelas imagens
em movimento de muitos deles e não o sabíamos. Agora já não há
desculpas.