Misturar temáticas adultas – aquelas que falam firme na cabeça de quem já passou dos vinte e pouquinhos – com música boa é raridade no Brasil.
Veterano,
Beto Só faz parte do reduzido grupo de artistas encarregados de enviar a nós as notícias, ou os sinais, desse mundo esquisito que se monta depois da euforia adolescente. Um mundo em que as festas tendem a ser substituídas por silêncios, crises e resoluções de vida.
Para isso, para lidar artisticamente com esse mundo, a ferramenta do cantor é uma sonoridade plantada no folk e no indie seco das paisagens americanas de interior (que afinal se confundem com a Brasília de Beto).
Só – a alcunha diz respeito à solidão mesmo (não é sobrenome) - acaba de lançar, quase como se ninguém percebesse, um segundo e sereno trabalho.
Dias Mais Tranqüilos fica entre a (quase) utopia do nome e o alento que traz cifrado nas canções. Um trabalho para poucos, “só para maiores”? Pode ser, mas Beto parece satisfeito.
Foi sobre esse lançamento – disponível por inteiro aqui no
perfil - e o passo da vida que ele falou à TramaVirtual.
Confira.
Pra você, o que a sua música tem de melhor?Acho que duas coisas: primeiro, é exatamente o tipo de música que eu gostaria de ouvir mais por aí. Faço o que gosto de ouvir. A outra é que minhas músicas acabam conquistando um tipo legal de pessoa, que eu gosto de conhecer, conversar. É gente que se emociona com a sonoridade e se identifica com as letras.
É difícil ser o Beto nesse atual contexto, de mundo, de mercado?Olha, nesse contexto atual é fácil você ser qualquer coisa, porque hoje em dia vale tudo. Pra mim, é tudo uma questão de expectativa. Quando eu entro numas de desejar ser a sensação dos festivais independentes, entro em frustração. Poucos produtores de festivais parecem achar que o que faço é atraente para o evento deles. Gostaria de receber mais convites para tocar. Mas quando esqueço isso e presto atenção na relação que as pessoas têm com o que estou fazendo, fico feliz pra caramba. Coisas maravilhosas têm acontecido comigo em relação à música, então ultimamente tem sido mais fácil que difícil.
Esses dias são mais tranqüilos? Mais estimulantes?Os dias mais tranqüilos são uma coisa cada vez mais rara, me parece. Se a gente deixar, a gente entra num turbilhão maluco, de falta de tempo, falta de grana, que acabam descambando pra falta de saúde, de auto-estima, de amor, de encontro com os amigos. Os dias mais tranqüilos que dão nome ao disco são uma busca e um desejo, que, ainda bem, consigo desfrutar bem hoje em dia. Mas penei pra chegar aqui, como acho que mostro nas primeiras oito músicas do disco. Tive de correr atrás de emprego, trabalhar com o que odiava, passar muito tempo sozinho... E sei que não há garantias de que o futuro será tranqüilo. O mundo tá bravo.
Como foi a produção do novo álbum?Foi um prazer. Trabalhei as músicas quase um ano com uma banda de amigos, que ajudaram a finalizar os arranjos das canções. Isso nos ajudou a ter uma idéia de como estava o disco, o que estava faltando para melhorá-lo. Nesse processo, percebi que faltavam canções que puxassem o trabalho um pouco mais para cima, dando um clima mais leve. Isso fez com eu compusesse umas duas canções já mais perto do dia de começar as gravações e tirar outras do repertório.
Quando entramos no estúdio, eu já tinha até a ordem das canções determinada na minha cabeça, como se elas contassem uma historinha, uma pequena jornada emocional. O Philippe Seabra, que gravou e produziu, ajudou a aparar algumas arestas e a manter uma qualidade de execução e de timbres que deixou tudo mais bonito. E sugeriu uns arranjos de cordas em “
Com leite e café” e “
Abre a janela” que ficaram show de bola. Gosto muito de trabalhar com o Philippe, porque, apesar de meio chato e cri-cri às vezes, ele tem um compromisso com a qualidade final que deixa a gente mais seguro. E o melhor é que ele faz isso sem forçar uma sonoridade de "major", com as coisas meio pasteurizadas, certinhas demais. Pra ele, pode (e deve) ser meio torto, mas tem que ser bom.
O que ele tem de mais interessante que o anterior?Acho que este disco tem um sentimento de coletividade que o outro,
Lançando Sinais, não tinha. O primeiro era muito subjetivo, a minha busca pessoal do amor. Basicamente, um disco sobre o quanto eu me ferrava na vida sentimental. As pessoas se identificaram com o primeiro porque também passaram por aquilo, mas eu estava falando muito sobre mim. Neste, ainda tem esse lado pessoal, mas há uma linguagem que fala mais de nós, jovens urbanos, que corremos atrás da vida como podemos. Além disso, o fato de termos trabalhado com dois guitarristas — além do Ju, meu irmão e parceiro, o Bruno Sres tocou e trouxe uma sonoridade nova — ajudou a fazer com que o disco fosse mais rico em detalhes.
Você faz música por quê?Eu não sei muito bem. Estranhamente, a música foi a única coisa da qual não desisti até hoje. O resto, eu largo tudo pelo caminho, me canso rápido. Mas acho que faço música porque acredito que tenho algo legal a dizer, que pode servir para outras pessoas. E também pra que prestem mais atenção em mim e eu me sinta um pouco especial.
O que você ainda pretende fazer que ainda não fez?Não sei. Queria ter menos medo, de modo geral. Ser mais seguro. Isso me possibilitaria fazer coisas que hoje eu não faço.
Você se enxerga fazendo o quê daqui uns anos, a mesma música?Acho que sim, só que cada vez melhor. Meu objetivo é chegar ao nível de
No More Shall We Part, do Nick Cave And The Bad Seeds. É dessas metas que você põe pra si mesmo pra nunca parar de fazer música. É a cenourinha amarrada na frente da cabeça do burro. Ele nunca vai conseguir mordê-la, mas faz ele continuar andando.
Por que Beto Só? Só é o sobrenome ou refere-se à solidão?É de solidão mesmo. Em 1996, estava montando uma banda nova e queria que ela se chamasse Solitários Incríveis. Daí, inventei o Beto Só e o nome da banda virou Beto Só e os Solitários Incríveis. A solidão era uma obsessão pra mim naquela época, que nem a maconha era para o Planet Hemp. Quando a banda acabou, segui em carreira solo com esse nome.
Sua música pode ser chamada de melancolia adulta de estrada?Olha, pode. Impressionante como você juntou três coisas que busco muito quando faço música. Melancolia, que é uma forma leve de tristeza, quase boa, reveladora. Estrada, porque os livros e filmes sobre viagens são os que mais me atraem. Quando fomos arranjar “
Meu Velho Escort”, por exemplo, queria que a música tivesse um clima de road movie, meio
Coração Selvagem, do David Lynch. E o Bruno inventou aquele riff maravilhoso, meio country, que deu o tom que a música precisava. E o mundo adulto, porque já sou adulto e quero fazer música que faça sentido pra mim antes de tudo. Apesar de pessoas mais novas, com 17, 18 anos, se identificarem e me darem retornos maravilhosos.
Mas o megatermo que você cunhou me mostra mais uma vez o quanto eu sou ruim de marketing. Quer expressão menos pegajosa que "música melancólica adulta de estrada"?
Do que ela então poderia ser chamada?Como eu disse, sou ruim de marketing e nunca consegui ter a sacada para definir o que faço de forma sucinta. Talvez, "só música"... Pegou o trocadilho com meu nome? Mas olha, eu não abro mão de "rock". Acho que quem diz que não faço rock tem uma visão muito limitada do que é rock.
Conte um pouco de sua trajetória até agora.Comecei adolescente a montar bandas com meu irmão, o Ju, que também toca no Phonopop. Criamos primeiro o Adeus, Meninos, que passou por uma infinidade de formações. Deve ter existido de 1989 até 1995. Em 96, criamos os Solitários Incríveis, que se dissolveram em 2003. Em dezembro de 2003, estreei como cantor e compositor solo, porque o Ju estava mais ocupado com o Phonopop e chegou a se mudar para o Rio. Mesmo assim, ele continuou compondo comigo, em parceria. Em 2004, fui convidado para fazer parte do selo Senhor F Discos e lancei
Lançando Sinais em 2005.
Dias mais tranqüilos é meu segundo trabalho.