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VulgoQinho&OsCara



Last Updated: 9/24/2009

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Tuesday, July 24, 2007 
22/07/2007
Clube da esquina carioca

Anna Carolina Braile

No hiato entre a Pizzaria Guanabara e o BB Lanches, no Leblon, está a quarta ponta do "quadrilátero das vaidades", como os meninos da banda Vulgo Qinho & Os Cara (sem "s" mesmo) batizaram a interseção entre a Ataulfo de Paiva e a Aristides Espínola. A mesma esquina em que nos anos 80 funcionava o restaurante Real Astoria - ponto de encontro de artistas e intelectuais - volta a ser inundada por ondas de música e poesia. Pelo menos durante os 55 minutos em que, nas noites de quinta-feira, os Bonitos & Paranóicos se apresentam ali. O grupo é uma parceria entre os integrantes do Vulgo Qinho (Marcus Coutinho, 23 anos, Caio Barreto, Miguel Couto e Omar Salomão, todos de 24 anos, e Leonardo Scudy, 28) e o ator Freddy Ribeiro, 51.

Vulgo Qinho & Os Cara tocam músicas já conhecidas do público do Leblon, pois apresentavam-se em frente ao antigo sebo Dantes, na Dias Ferreira. No novo show, entre uma estrofe e outra, Freddy faz sua participação especial: recita fragmentos literários de autores nacionais e internacionais. Os rapazes usam a apresentação quase performática para popularizar palavras e pensamentos de Clarice Lispector, João Guimarães Rosa, Nietzsche, entre outros. "O objetivo é colocar a literatura na boca do povo que nunca leu, mas que está de ouvidos abertos", explica Freddy. Entre os poemas de autores renomados, o grupo usa versos de Omar, filho de Wally Salomão. Foi dos poemas do rapaz, aliás, que a banda nasceu. "Recitava na Dantes, mas achava chato falar as coisas que escrevo assim, sem mais nem menos. É bem melhor quando tem fundo musical. Por isso chamei Qinho e Caio, amigos do curso de comunicação da PUC-Rio, para tocar nos recitais", relata o poeta.

Sucesso na calçada, as letras e melodias dos Bonitos & Paranóicos já estão na boca da vizinhança. O garçom Russo, do Diagonal, arrisca algumas músicas. A preferida é Galo: "Minha janela não tem Pão de Açúcar ou Corcovado, o meu maior vizinho é o Cantagalo", cantarola. Por outro lado, Marconi, do BB Lanches, confessa: "Não entendo nada do que eles falam".

Apesar de a banda ser carioca, a idéia de "fazer um festival na esquina e trazer alegria, música e cultura ao povo" surgiu quando Freddy, que já pensava no assunto, armou uma cilada para Qinho. Levou o menino para assistir ao Jerônimo - aquele que canta Nega do cabelo duro - tocar na escadaria da Igreja Nossa Senhora do Carmo, no Pelourinho. E botou o doce na boca da criança: "Então, quer fazer isso no Rio?". Bastou um ponto de energia e R$ 200 para o aluguel do som para que os Bonitos & Paranóicos começassem a chamar atenção no Baixo Leblon.

O designer Paulo Lopes, 39 anos, estava saindo de uma livraria ali perto com o sobrinho Caio, quando ouviu de longe a música de Qinho e os versos de Freddy. Não resistiu e parou para ver e dançar. "Já tinha visto um show deles antes. O texto é muito bom. Deve ser de alguém brilhante", enaltece. O público passante, a rua em constante movimento e o som urbano acrescentam vida e diminuem a formalidade da apresentação. Das 19h30 às 20h25, a esquina transforma-se em pista de dança. Até os ônibus contribuem para o espetáculo com o barulho ritmado dos freios. "Eles entram certinho no tempo da música. Os passageiros aplaudem", brinca Qinho. Em setembro, pelo selo Bolacha Discos, o grupo lança o primeiro CD. Mas sem coro de garçons e efeito especial de ônibus...