Nunca havia estado na Ásia. So isso já vale as 8 horas até a África do Sul,e depois às 10 horas até Cingapura, no vôo mais incrível da minha vida, na inacreditável Singapure Airlines.
Um avião vazio cheio de aero-deusas-moças orientais vestidas em lindas batas, mimando com paninhos quentes e petiscos exóticos aquele bando de pé-rapados conhecidos também como Clube do Balanço, a minha banda de samba-rock a caminho de uma série de shows para a "Womad Singapore".
A cidade tem a fama de ter leis rigorosíssimas contra bagunceiros, maconheiros, fumantes e outros tipos de maus elementos, o que me deixou bastante preocupado, ja que sou o (i)responsável por essa turma que traz esses pequenos defeitos colaterais da alegria e do samba.
No ônibus a caminho do hotel, nosso guia e produtor local avisou a todas as bandas presentes que entre várias penas, como chicotadas por comportamento indecoroso, a pena de morte era a única pena por porte e consumo de drogas. Qualquer droga. Droga!.
Ficamos num maravilhoso hotel no centro de Cingapura, com mais 250 artistas vindos de diversas partes do planeta, para participar deste mega-festival, o WOMAD Cingapura, que já faz parte há vinte anos do calendário cultural da cidade. ....
Já na primeira noite, fizemos um pocket-show num lançamento de uma tequila. A primeira entrada foi para um dos públicos mais frios e caretas que eu já toquei na vida. A segunda entrada, após várias doses gratuitas de tequila para a banda e platéia, foi para um dos públicos mais loucos e animados que eu já toquei.
Isso me fez começar a entender porque drogas e assuntos ligados à felicidade em excesso são tratados a tapa nessa terra. Naquela noite, uma simpatissíssima e louquíssima cingapurence, Miss Shalita-shalavaty - que acabou virando minha cicerone e grande amiga de infância, me explicou que alí anos atrás era um porto barra pesada, entrada da Ásia, aonde diversos povos e religiões da Ásia se misturavam do modo mais caótico e perigoso possível. Num determinado momento, um processo de modernização levado à mão de ferro transformou a cidade num centro de negócios e de investimentos fortíssimo.
No dia seguinte fizemos um show inesquecível na WOMAD no Fort Canning Park para mais de quatro mil pessoas, junto com nomes da pesada, como Asian Dud Foundation e Youssou N’Dour and the Super Etoile de Daka.
Senti que esta era uma cidade viva, misturada e maravilhosa, e que diversas vezes me lembrou o tipo de caldeirão que temos aqui em São Paulo.
No dia seguinte, minha amiga me levou para conhecer o bairro muçulmano, a Vinte e Cinco de Março deles, aonde comi o PF da turma de lá. Uma espécie de fritada, bolinhos, tudo com muito molho picante. Cerveja nem pensar, pois era um ambiente muçulmano, em frente a uma mesquita.
Ela me contou sobre sua família, de origem Malaia e Chinesa, e da sua rigorosa origem muçulmana.
Eu e o Edu - o baterista do Clube - queríamos fazer uma tatuagem. Ela nos levou a um cara ótimo, filho de uma lenda do pedaço , um tatuador da antiga que se chamava Jonhny Two Tumbs (João Dois Polegares....), que fez fama tatuando marinheiros americanos no porto. Ele tatuou um lindo dragão na minha perna e um peixe no Edu.
Cingapura, é isso. A galeria aonde estava o tatuador era alternativa e moderna como um pico descolado na Europa, e atravessando a rua havia um mercado chinês tradicional, com velhinhos de cento e vinte anos vendendo barbatana de tubarão, unha de tigre e um ginseng de 10.000 doláres. Na outra quadra, indianos vendendo jóias dignas de um marajá e na outra um centro de negócios que parece Manhatan.
Eu conheci Cingapura, uma cidade que tem todos os povos da Ásia. E agora fiquei com vontade de conhecer todas as cidades desse povo todo.
Abraço,
Marco Mattoli