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BLOG IS A MANY SPLENDORED THING Totalmente livre de glamorização da vidinha da autora

Luciana

Luciana Pessanha


Last Updated: 3/18/2009

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November 7, 2009 - Saturday 




 



Cheguei a Cartagena das Índias chorando. Uma turbulência fez o avião perder altitude repentinamente. Eu que sempre procuro alguém para segurar minha mão, caso o avião caia, olhei para o lado e dei com um senhor que já tinha as dele ocupadas com as da sua esposa. 
Ainda zonza do susto – não é todo dia que se morre – ao sair do aeroporto, fui atingida por um calor úmido imponente. Desses que colocam qualquer ser humano no seu devido lugar, diante da natureza. Acendi um cigarro. 
Um táxi parou na minha frente. Quem quiser que pegue, pensei. Não me movo enquanto não acalmar. Hordas de gringos faziam fila no ponto, mas, estranhamente, o mesmo taxista continuava parado, com o olhar apontado para mim. Um olhar difícil de explicar, porque não tinha intenção legível. Era um olhar, olhar. Desses raros, que só querem ver.
Apaguei o cigarro e entrei no carro. Só Deus sabe com que intensidade. 
A regra do jogo era andar 300 quilômetros de táxi na Colômbia e escrever o que desse na telha. Decidi, de cara, aumentar o cacife indo o mais longe que o tempo e o dinheiro de que dispunha pudessem me levar.
Jesus Lacides Santiago Juan Cavas Botto era negro, alto, elegante e muito atencioso. Pegar um táxi que não rouba você no aeroporto faz com que qualquer cidade pareça possível. Peguei o recibo aliviada e me despedi num misto de desamparo com uma doçura louca e corajosa, desejando que todos os taxistas fossem como ele.
Buena suerte! – me disse, e se foi. 
Naquela hora a única coisa possível era dormir. 
Quando acordei fui caminhar pela Ciudad Vieja e chapei com muralhas de pedra, pés-direitos altos, varandas, buganvílias, portas de madeira grossa com peixes, leões, sereias, salamandras presos a elas, campainhas ancestrais.  
Na volta para o hotel, uma coincidência estranha aconteceu: com tantos táxis rodando pela cidade, entrei exatamente no mesmo e, outra vez, dei com o olhar de Jesus Lacides. Como ele já tinha me guiado num momento de pico de ansiedade, sentei no banco de trás me sentindo em casa e tagarelei em portunhol selvagem sobre viagens. Jesus nunca tinha saído da Colômbia.
Acordei cedo para ir a Santa Marta, o destino que escolhi como base para explorar a natureza colombiana. Descobri que um táxi comum custaria 300 mil pesos e que o melhor era pegar um “táxi compartilhado”. Ou seja: nossa boa e velha van. 
Entrei no carro e, ups!, dei de cara com Jesus Lacides, de novo, agora com um incrível cabelo black power. O novo penteado dava a ele um clima Pantera Negra, bem mais interessante. Só que não estava para conversa, e foi até Barranquilla ouvindo cúmbias, sem me dar papo. 
Não me avisaram que haveria uma troca de táxis em Barranquilla. Quem está na chuva é para se molhar, e eu estava pingando, pelo calor da estrada. Pedi a Jesus que me indicasse um banheiro e, quando voltei ele me pareceu mais alto, forte e muitíssimo bem humorado.  
La niña olvidó eso en el otro coche – disse, entregando a câmera fotográfica megacool que eu tinha pego emprestada de uma amiga para a viagem. Surpresa e gratidão é o que sentimos, hoje, diante do básico: uma pessoa honesta.
Entre Barranquilla e Santa Marta, cactos gigantes crescem em buquês na beira do asfalto. Em Siene, um povoado paupérrimo cortado ao meio pela estrada, dei com uma frota de táxis-bicicleta. Pedi para saltar, Jesus ficou espantado: como eu chegaria ao meu destino? 
– Soy brasileña. E nosotros no desistimos jamás – respondi, pulando do carro. 
Três quilômetros de taxicleta à frente, e lá estava ele, trocando um pneu da van. 
Vuelve – ordenou, sério. Obedeci. 
ABRIR ESCUELAS PARA CERRAR PRISIONES – estava pichado em um muro, na entrada de Santa Marta. 
Na manhã seguinte fui descobrir como chegar ao Parque Nacional de Tayrona, para conhecer suas praias. A uma delas, só era possível ir de lancha. E não é que... bem, sim, era ele. Numa versão velho lobo do mar, com o rosto marcado de sal e sol, agora fumava charuto e se parecia com seu terceiro nome: Santiago. 
Entendi que tinha um stalker na Colômbia. E daí? A verdade é que eu estava gostando da brincadeira. 
Na Playa de Los Muertos perguntou a que horas eu o queria de volta e sumiu no mar. 
Baretta, na Colômbia, significa maconha. Na minha viagem é um vira-latas velhusco, que quando está doidão rouba coisas dos turistas e sai correndo. 
Logo que desci da lancha, ele apareceu e decidiu que era meu dono. Encaminhou-me a uma praia deserta, deitou-se ao meu lado e assim ficamos, por toda a tarde, dourando ao sol. 
Na hora marcada com Santiago, levantei e ele rosnou mansinho. Fiquei arrasada quando percebi que Baretta continuava imóvel, no seu miniparaíso. Vai ver não gosta de despedidas, cada um é do seu jeito. Mas enquanto esperava o táxi-lancha no ponto marcado, reapareceu correndo com a minha câmera na boca, toda babada. Algo na forma como me deu a máquina lembrava o jeito de Jesus. Talvez os olhos… Ou eu estava ficando doida?




Santiago me deixou na Playa Neguanje e se foi. Quer dizer, fingiu que se foi, porque a essa altura eu já tinha entendido o jogo: já, já voltaria com outro disfarce. 
Uma hora depois eu estava morrendo de fome, sendo devorada por mosquitos sádicos, o sol começava a cair, e nada do meu motorista. Tive medo de ficar abandonada em Tayrona. 
Numa crise de ansiedade, resolvi caminhar. Mas... para onde? Nessa hora a realidade caiu como um piano na minha cabeça: estava no meio do nada, sozinha, acreditando que tinha um guarda-costas. Ou seja: tinha ficado (agora definitivamente) doida.




Quilômetros de caminhada, e um Daewoo meio sucateado, com cortininhas pretas nas janelas, apareceu, adivinha com quem na direção? Entrei no carro muda e fui assim até o hotel. Estava P da vida.
A estrada era toda laranja e rosa. Olhando pelo retrovisor, como sempre fazia, ele me disse: “Tocaram no meu braço esquerdo. Sabe quem é? Senti agora, claramente. Tem uma pessoa que toma conta de você.” Nesse momento, uma luz muito forte vinda do espelho me cegou. 
Acordei num salto, suada e culpada. Me vesti correndo, saí para a rua e estiquei o braço para o primeiro táxi – tinha que fazer as pazes.  
Ele vinha ouvindo boleros dos anos 1940. 
A estrada que leva a Minca, um pueblo a 650 metros de altitude, parece uma superfície lunar, tamanhas as crateras. Lá, eu buscaria um jipe que me alçasse a Cerro Kennedy, uma montanha da Sierra Nevada, 3.100 metros acima do mar. 
Três horas de subida. Imensidão. Montanhas cobertas de neve. Em algum momento, me vi sozinha com Pablo Morales, o motorista do táxi-jipe. Jesus Juan havia sumido. Pablo me perguntou se eu tinha filhos e, com olhos lânguidos, disse que gostaria de me dar um. Nesse instante, tremi por dentro e, num salto, voei para os braços dele. Alguma coisa peluda subia pelo meu corpo. 
Era um miquinho que trazia pendurada no pescoço minha câmera megacool. E o mais insólito: ela guardava na memória fotos incríveis de lugares onde eu não tinha estado. O mico esfregou seu nariz gelado no meu rosto e, quando Pablo foi brincar com ele, mordeu-lhe o dedo com força e fugiu. 




No outro dia voltei a Cartagena. 
Depois que o comércio fecha as portas, a Ciudad Vieja torna-se idílica e romântica. Decidi que, sob a lua cheia indecente que iluminava as muralhas, andaria de charrete. Era minha última noite na Colômbia e me daria o direito de ser brega. Fiz sinal para Jesus Lacides Santiago Juan Cavas Botto, e passeamos em silêncio, por toda a noite. 
Na despedida, na porta do hotel, antes que eu dissesse qualquer coisa, lançou um Jaime Sabines, sem piedade: 
“Espero curarme de ti en unos días. Debo dejar de 
fumarte, de beberte, de pensarte. Es posible. 
Siguiendo las prescripciones de la moral en turno. Me 
receto tiempo, abstinencia, soledad.”
E seguiu até o fatídico: “Porque esto es muy parecido a 
estar saliendo de un manicomio para entrar a un 
panteón.”
Não sou feita de pedra. Um calor denso e escuro, em ondas, espalhou-se de dentro para fora, amolecendo meu corpo inteiro. 
Como se nunca tivesse havido outra possibilidade, decidi, ali, que não podia mais viver sem seu olhar, sua presença delicada, sua masculinidade, seu cheiro, sua força, seu silêncio... 
Agora cá estou: numa charrete com meu taxista colombiano, cruzando a América Latina, em direção ao Rio de Janeiro. O cavalo pangaré, ao sair de Cartagena, virou puro-sangue e, sempre que adormeço, ganha asas.
Conheço bem esse cavalo alado. É o mesmo que me levava de noite, quando criança, para conhecer o Japão, o Egito, a Muralha da China. O mesmo, eu sei. Porque na vida as coisas mudam muito, todo o tempo, e não mudam nada. 
Assim, enquanto durmo nos braços do meu companheiro, ganhamos longos pedaços de estrada. 
Chegaremos logo.





* fotos: Eugenio Montoya

October 29, 2009 - Thursday 


Herbert Viana é ídolo do pop brasileiro desde os anos 80. Em fevereiro de 2001, um acidente de ultraleve fez parecer que sua carreira seria interrompida. Que nada! Em julho de 2002 adentrou de surpresa o palco do parceiro Fito Paez, e, em novembro do mesmo ano, já estava fazendo shows com os Paralamas. Herbert continua cheio de entusiasmo pela música, a família, os amigos e pelo Flamengo – ele começou a entrevista cantando um hino da torcida que compôs recentemente. Nos encontramos para falar do documentário Herbert de Perto, produzido pela TV Zero, dirigido pelo amigo de longa data Roberto Berliner e co-dirigido por Pedro Bronze, com estréia marcada para 8 de outubro. Depois de passar a morte para trás, ele, agora, com sofisticação ímpar, encara de frente os lapsos de memória e percebe, no olhar do interlocutor, quando voltou a um assunto já abordado. Mais uma façanha deste cabra macho da Paraíba que há 27 anos deixa todo mundo de queixo caído.


O CD Brasil Afora mostra a mesma brasilidade que é marca do Paralamas desde os anos 80. Antes de todo mundo da sua geração vocês fizeram um resgate dos nosso ritmos. Por quê?


Não sei se fomos os primeiros, nós alcançamos a mídia antes. Minha geração digeriu a cultura POP americana e européia de maneira que, em vez de tocar Day Tripper pela enésima vez, ousasse levadas mais nordestinas, como fizemos em Alagados.


A inspiração para misturar ritmos brasileiros com o pop veio da Tropicália?


Eu tinha mergulhado na guitarra elétrica, quando me dei conta de bandas como o Led Zeppelin, o Yes e o pós-punk. Mas a técnica envolvida para alcançar algo com aquela sonoridade era difícil, e eu não queria ser americano ou europeu. Meu irmão mais velho [o antropólogo Hermano Viana] me apresentou King Sunny Adé, Fela Kuti e a semelhança com sonoridades que eram genéticas em mim, por ser nordestino, me encantou. Quando comecei a ouvir ritmos que remetiam à America Central, Jamaica ou Nigéria, meu interior paraibano veio à tona com mais tranquilidade. 


Sua parceria musical com o  Hermano vem da infância?


Da adolescência. Ele fazia campanha com nosso pai: “Vamos comprar uma caixa maior, amplificador, tape deck?” Exalava cultura através da naturalidade com que buscava informações. Lutava para conseguir discos, fazia esforço para vir ao Rio por causa da Modern Sound e da Bilboard, e trazia à tona cada coisa! Me apresentou o trabalho do “Television”; meus dedilhados de guitarra têm muito da sonoridade e da técnica do Tom Verlaine [guitarrista da banda]. 


Quando você começou a tocar?


Desde os três anos eu gostava de violões de brinquedo. Aos cinco ganhei o primeiro de verdade, que tenho até hoje. No início da minha adolescência, minha família morava na base aérea de Santos, onde um cabo fazia guitarras elétricas. Foi a primeira vez que toquei uma guitarra na vida. Quando fomos morar em Brasília, insisti que meu pai entrasse em contato com ele, para me dar uma de Natal. Mais tarde, esse instrumento foi transformado no primeiro baixo que o Bi tocou. ....

.. ..

Como começou sua história com o Bi?


Somos amigos desde o início da adolescência, em Brasília. A gente andava de skate e sonhava em ser surfista. Me mudei para o Rio e, um ano depois, o Bi também veio pra cá. Perdido na solidão dos códigos de amizade de uma cidade grande, virei pra ele e disse: “Não consigo ter amizade com ninguém aqui, vou torcer o seu braço e você vai aprender a tocar. Vamos fazer uma banda”. Começamos do bê-á-bá. Na escola tinha um amigo que batucava bem, no fundo da sala, e convencemos ele a comprar uma bateria. Lá pelas tantas ele comprou uma moto cinquentinha de quinta mão. O Vital foi a nossa primeira tentativa de ter um baterista e nossa primeira crônica que virou música.


O que faz a amizade entre os Paralamas durar tanto?


Não há nenhum tipo de artificialidade na convivência. Cada um faz o que quer, e a gente busca tempo para estar junto. Temos um código de espaço e respeito. 


Como a banda começou a existir no cenário carioca?


O Zé Fortes me dava carona para o Fundão, onde a gente estudava arquitetura. Íamos ouvindo música. Lá pelas tantas levei o cassete de um ensaio e disse que, se gostasse, poderia contatar o pessoal do Circo Voador. Foi o primeiro passo para ele virar nosso empresário.


Ele tinha algum contato no Circo Voador?.


Nada, foi na cara dura e conseguiu. 


No filme, o Hermano diz que você amadureceu em público. Fala-se muito do que existe de ruim na exposição. Há algo de bom? 


O fundamental é ter um sonho de vida, uma coisa para a qual não haveria uma carreira, e conseguir transformar em realidade. Nós nunca cultuamos a superexposição. Sempre temos porta aberta, ouvido e paciência para quem nos procura, com toda a calma, preservando nosso espaço, nossos filhos, o silêncio e o respeito. Nunca ocorreram níveis de assédio estelar com a gente. .


Em que momento depois do acidente você se deu conta de que se recuperaria?


Não tenho lembrança clara de quando comecei a me comunicar de novo. Tenho o flash de um momento em que virei para o Hermano e disse: “Se você acha que estou muito distante de mim mesmo, vou te mostrar uma coisa que você me mostrou há muito tempo”. E toquei, nota por nota, o solo de Stairway to Heaven, do Led Zeppelin, que pra mim sempre foi uma obsessão. 


Como é estar estranho a si mesmo? Você se sentia distante de você ou de uma referência que as pessoas tinham, na qual não cabia mais? 


O cabedal de lembranças trazidas a mim por outras pessoas, me mostrou um quadro intenso e dolorido de ter chegado a um grau avançado de semi-irracionalidade. Ter voltado à vida com o cérebro como se estivesse ligado num liquidificador, com cacos de ideias e lembranças completamente misturadas. 


Já conseguiu estabelecer uma ponte total com o Herbert de antes do acidente?


Eu sou cada vez mais eu mesmo. 


O que te prendeu à vida, nos momentos em que ela estava escapando?


Em termos práticos, uma cirurgia onde fizeram uma limpeza grande de vazamentos no meu cérebro. Subjetivamente, falando com cuidado para não parecer pregação religiosista, tenho muito entusiasmo por reencarnação e diferentes planos de vibração. Construí minha casa no Recreio dos Bandeirantes com um amigo do meu pai. Na nossa convivência descobri que a esposa dele era médium de um centro espírita. Comecei a ler sobre espiritismo e a fazer consultas com um Preto Velho, com quem desenvolvi uma ligação muito forte de amizade. Fiquei entusiasmado, mas nunca dependente. Porque, junto com esse contato, desenvolvi meu conhecimento com leituras budistas. Tudo o que aprendi nessa busca espiritual, me ajudou quando estava no hospital. 


Ainda frequenta esse centro?


Não tenho ido por causa dos degraus inacessíveis a uma cadeira de rodas. Mas ainda tenho contato com cambonos [assistentes dos médiuns]. Eventualmente recebo, através deles, mensagens de um guia. E sonho em poder subir aqueles degraus de novo.


 Você virou ativista contra lugares onde não há acesso a pessoas com deficiência?


Me sinto ofendendo ou esbanjando porque tenho facilidades profissionais. Com a banda, nas viagens, uma equipe cria uma rampa para todos os palcos. No meu lugar há sempre uma elevação, para que possa olhar meus companheiros, não de baixo para cima, mas nos olhos, como sempre olhei. Em termos particulares, há sempre um enfermeiro comigo. Fiz uma canção que é uma crônica das dificuldades de agora: “Você aí em pé não deve saber como é o mundo aos olhos de quem sofre ao se mover. Vou seguindo na luta com problemas normais. Olhando pra lá e pra cá na indecisão. Andando atrás de alguém a quem não deixo em paz. Olhando para o céu com muita dor no coração...” Quis mostrar o quanto cada centímetro pode representar, para uma pessoa com dificuldades e danos, uma verdadeira Muralha da China. 


Essas muralhas cerceiam os movimentos dos Paralamas?


A praticidade da equipe técnica dos Paralamas não me faz temer absolutamente nada. Falo para o Zé: “Vamos tocar nos sertões nordestinos, em vilarejos nos quais nunca tocamos”. Porque são cada vez menos povoados, no mapa do Brasil, onde a gente nunca tocou. 


O que sentiu, depois do acidente, na primeira vez que subiu num palco?


Não tenho clareza. Lembro de estar fazendo shows e me dar conta de que não sabia em que cidade estava ou, às vezes, começar as músicas erradas ou de tocar partes que não estavam nos formatos que tínhamos ensaiado para apresentar ao vivo. 


Quantos shows vocês fazem por semana, hoje?


No mínimo dois e há semanas em que fazemos cinco. 


Os shows continuam longos?


Fazemos um show longo, temos um primeiro bis planejado e um segundo, aberto para o que vier.


Ainda existe a mesma fissura de tocar?


Absurda! Nas internas, pra descansar, a gente sempre dá um jeito levar um som em qualquer canto, ficar num quartinho jogando nota fora. No meu dia a dia, preciso ter um instrumento acessível onde quer que eu vá. Isso me faz mais bem do que vários remédios que me são dados para ter menos dor. 


Sua destreza com os instrumentos voltou completamente?


Sim, e estou totalmente obsessivo.


O que mudou no seu processo de composição depois do acidente?


Nada. Continuo muito fiel aos meus vômitos emocionais, gritos de socorro, de guerra, de reprovação, e aos meus sonhos. 


Depois de tudo, como anda sua relação com o Bi e o João? 


Eu diria que a gente teve um check-up divino, em relação à nossa amizade. Não consigo imaginar músicos melhores, com quem tivesse mais química de troca e alegria de tocar. Estamos fechando nosso primeiro ciclo de três décadas. Pelo menos outros dois a gente têm que mandar. 


No filme, vemos você assistir a imagens da sua vida toda, numa TV, em um único dia. Qual foi a sensação?


De repente, tudo fez sentido. Aquilo colocou um ponto de exclamação nos meus impulsos de manifestação de carinho e amizade. Com muita frequência, agora, faço declarações de amor. O que a equipe do Paralamas têm de torpedos mandados por mim, daria um livro mais grosso que a bíblia.


Herbert de Perto apresentou você para você ou foi um reconhecimento?


Um reconhecimento. Não imagino quantos anos de terapia teria que fazer para ter aquele liquidificador emocional que o filme me causou. 


Você diz que se mexia demais no palco e não via a platéia. Agora que consegue ver, quem é o público dos Paralamas?


É muito mais diversificado do que podia perceber por trás dos rios de suor que deixava no palco. Eu chegava a perder quatro quilos por show, era muito intenso. Hoje me dou o prazer de olhar a expressão das pessoas, quando estão cantando e vestindo a camisa de uma idéia que escrevi por algo que tenha sentido. Quando alguém na platéia aponta para outra pessoa e diz: “Às vezes te odeio por quase um segundo, depois te amo mais...” e sorri, é um filme para o qual eu não teria como comprar o ingresso. 


Existe algum projeto na sua manga?


Estou pensando em juntar composições que escrevi e nunca gravei. Canções que mostrava para o Bi e o João no ensaio e eles diziam: “Tá muito romântico, dá pra uma cantora dessas que cante bem e tenha uma coisa mais orquestral. Isso não é a nossa cara”


O que é importante para você hoje?


O sorriso dos meus filhos e nosso dia a dia é fundamental. Rezar uma oração com as minhas meninas é muito mais do que jamais pensei que uma oração pudesse representar na vida prática de qualquer pessoa. 


O que não se apagou da lembrança e nem vai se apagar?


Na primeira gravidez, a Lucy me perguntou se a barriga ia criar um afastamento na nossa relação. Na mesma noite, fiz uma música respondendo: “Não quero nada que não venha de nos dois”. Fomos para a Inglaterra. Um dia, ela me acordou porque a bolsa tinha rompido. Ficamos juntos fazendo os exercícios. Quando a médica chegou, o Luca já estava na minha mão. Foi uma experiência muito intensa, luminosa e elevada. Agora estou com os olhos arregalados para a explosão adolescente da minha filha do meio. Ela é um vulcão em erupção desde muito pequena, e sua sensibilidade está surreal.


Qual é o grande barato da vida?


É uma síntese entre se entregar ao que você mais ama, à pessoa que mais ama, e, em paralelo, estar fazendo, com seus melhores amigos, o que sonhou na vida. É um gozo tão amplo e único que lamento muito pelas pessoas que não podem sonhar com isso. Mas meu conselho rasteiro e baixo seria: tenta começar. 



Currently listening:
Brasil Afora
By Os Paralamas do Sucesso
Release date: 2009-03-01
October 26, 2009 - Monday 
Achei isso agora. Foi escrito de encomenda, para uma peça há uns 6 anos. A peça se chamava Alegria, mas era bem deprimida. A encomenda era para escrever um texto onde alguém está feliz por motivo nenhum. Esse alguém conta um pedaço de dia absolutamente normal, como se fosse uma benção. Eles estão no camarim, se arrumando para a peça.
Esse texto foi rejeitado.



SUPER DESINTERESSANTE


Ana e Jonas estão se maquiando. Conversam tranquilamente enquanto se pintam e trocam de roupa.



Ana: Sabe que hoje, antes de vir para cá, eu tava meio desanimada; meio sem saco. (Pequena Pausa).


Jonas: É? 


Ana: Aí, tomei um banho, sabe aquele banho de horas, que você pensa com a água batendo na cabeça? Depois dobra para a água beter nas costas? Eu não tava pensando nada de especial não, sabe? Tava com a cabeça vazia… (Pequena Pausa) É uma delícia quando a cabeça fica vazia, né? (Pequena Pausa) Tá me ouvindo Jonas?


Jonas:


Ana: Então… aí saí na rua, olhando as caras das pessoas, o céu. Você olha o céu?


Jonas: Às vezes.


Ana: Sabe que às vezes eu esqueço que tem céu? Hoje tava lindo: meio nublado. 


Jonas: Às vezes.


Ana: O ônibus nem tava muito cheio. Também não tava vazio. Tava legal. Aí eu sentei, olhando… a cabeça meio vazia, um pensamentozinho aqui outro ali… Aí entrou um cara no ônibus vendendo bala. Normalmente eu fico meio constrangida com esses caras; esse jeito que eles têm de falar, parece uma ladainha. Mas me deu uma vontade de comer bala. Fiquei com boca de bala. Tava com tanta boca de bala, que quando botei na boca uma vermelha, chegou a doer aqui atrás. Fiquei o resto do caminho chupando bala. Quer uma bala? Ainda tem. 


Jonas: (sem resposta) 


Ana: Jonas! Cê quer uma bala?


Jonas:  Hã?


Ana: Tô te oferecendo uma bala, quer bala?


Jonas: Ah… quero.


Ana: Cê não tá prestando a menor atencão no que eu estou falando, né? Aí, quando eu saltei do ônibus, aí aconteceu: bateu um ventinho. (Tempo)Um ventinho manso, sabe? Sabe aqueles ventinhos que não dão frio?, dão uma refrescada. Que são tão levinhos que parece um carinho na pele? Pois é. Minha pele arrepiou. Aí, quando arrepiou foi que eu senti. Sabe o que eu senti?


Jonas: Não tenho a menor idéia.


Ana: Eu também não. Quer dizer, eu sei, mas não sei explicar. É um troço assim, que é tanta coisa junta… era uma coisa… uma espécie de inchaço… sabe? Como se tivesse um balão aqui dentro? Assim, branco.


Jonas: Às vezes pode ser gazes.


Ana: Eu fiquei parada na ponto.


Jonas: Isso sempre te acontece?.


Tempo Ana contente sentindo.


Ana: Parecia uma onda de amor, mas não era por ninguém. Era por tudo. Uma coragem. Era como se eu fosse uma bola de amor. Um embolado… Sei lá.

Reação de Jonas, que cantarola uma música POP que fala de amor.

Ana: Uma sensação assim meio depois de trepar. Era como se o mundo tivesse me comido, sabe? Uma comida daquelas boas? 


Jonas: Não. Não sei.


Ana: De repente, eu tava lá sozinha no meio da Barão de Mesquita, 


Jonas: Me empresta o seu baton?


Ana: não precisava ninguém: nem Deus, nem explicação, dinheiro; não precisava de nada. Uma calma. Me deu uma vontade de ter netos, bisnetos, fazer pão.


Jonas: Ana, você fumou um beque antes de vir?


Ana: Como se… Eu tô viva! Não precisava inventar. Não precisava mudar nada. Tava feito.(Tempo) Tudo, todo o mundo… 


Jonas: Vai ver é alteração hormonal.


Ana: Uma vontade de rir. (Tempo) De rir assim, no rosto, aqui dentro cheinho, uma coisa boa… Parada, ali na Barão de Mesquita… o ventinho… uma leveza…


Jonas: Cê se importa se eu ligar o rádio?


Ana não responde porque está lá, com cara de alegre, nem escutando o que ele diz. Jonas liga o rádio.





August 25, 2009 - Tuesday 
Sem endorfina, serotonina, dolantina ou qualquer outra ina, natural ou sintética, que fabrique alegria.
August 7, 2009 - Friday 

Matheus Souza deve andar matando muita gente de inveja. Com 20 anos já fez seu primeiro longa, que ganhou prêmios do público no Festival do Rio e na 32ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, tem um novo filme rodado, feito como projeto final da faculdade, e um ou dois roteiros na gaveta. É considerado gênio por gente de tirar o chapéu, como Domingos de Oliveira, mas não deixa de ser um moleque. Nossa conversa aconteceu numa tarde chuvosa, no segundo andar de uma loja do Mac Donalds, lugar que considera muito tranquilo, e um dos seus preferidos para escrever.


Você escreve desde criança?....


Escrevo, mas sempre quis ser diretor de cinema. Desde que vi “A Bela e a fera”, com 4 ou 5 anos de idade, soube que era isso que queria. Sempre fui mais de ler do que de jogar futebol, então comecei a escrever. Mas escrever de verdade comecei depois que me apaixonei pela primeira vez. Não sabia como conquistá-la, então escrevi “O último cara legal”, um livro sobre a minha vida e o que eu sentia. Era bem bobo, mas legalzinho. 


O que os seus pais acharam quando você quis ser artista?....


Entrei na faculdade de cinema meio que enganando os dois. Na PUC você escolhe no terceiro período se quer fazer publicidade, jornalismo ou cinema. Falei pra minha mãe que ia fazer jornalismo, pro meu pai que ia fazer publicidade. Pouco tempo depois já estava com o filme pronto. Hoje em dia eles ficam orgulhosos, adoram.


“Apenas o fim” foi feito só com alunos da PUC?....


Tinham três profissionais na equipe. O eletricista, que tinha trabalhado no “Incrível Hulk”, “Tropa de Elite”, e era O CARA do set, o captador de som e o assistente dele. Os R$ 8 mil gastos no filme foram investidos nisso, porque a gente precisava se garantir.


Como convenceu os atores a fazer o seu filme?....


Conhecia o Gregório [Duvivier] e a Erika [Mader] do curso de teatro do Tablado.  Eu também sou ator e fazia aulas, lá. Escrevi o roteiro pensando neles, sem saber se aceitariam ou não. Enganei os dois: mandei para ele dizendo que ela já tinha aceitado e vice-versa.


Quantas pessoas tinha na sua equipe?....


Vinte e cinco. A gente realmente tentou reproduzir ao máximo um set profissional. Tinha diretor de fotografia com primeiro e segundo assistentes, o diretor com primeiro e segundo assistentes, equipe de produção... O que tentei juntar ali foram pessoas que queriam muito fazer cinema. Foi divertido. A maioria estava fazendo o seu primeiro filme. Não é uma obra-prima, mas é muito sincero e simpático por causa disso: eram pessoas apaixonadas por cinema, eram as nossas férias, a gente podia estar em Búzios, mas resolveu fazer um filme.


Qual foi a colaboração da PUC na produção?....


A PUC cedeu a locação, o departamento de Comunicação cedeu a câmera e alguns equipamentos, e a Vice-Reitoria cedeu R$ 4 mil - metade do nosso orçamento.


E a outra metade do orçamento veio de onde?....


Parte veio da rifa de um uísque, e o resto veio do meu bolso mesmo. Deixei de comprar um Playstation 3 no Natal, pra investir no filme.


Um monte de alunos devem chegar na Vice-Reitoria da PUC querendo dinheiro para fazer um filme. Como você conseguiu convencê-los? ....


Tentei fazer uma oferta que eles não poderiam recusar. Eles só cederiam locações e equipamentos. O curso de cinema da PUC é novo – ia ser a maior propaganda do mundo. E está sendo. Eles investiram muito bem. Deviam até ter investido mais.


Em que estágio a Marisa Leão entrou na produção?....


O filme estava editado, nossos amigos estavam adorando e eu pensei: “E agora?” Resolvi procurar alguém experiente. A Marisa dava aula na PUC e bati na porta dela: “Oi, tudo bem? Então, eu fiz um longa”. Ela riu. Entreguei um DVD, ela se encantou e ensinou o caminho das pedras final: registro na Ancine, ajudou a conseguir apoio do estúdio Mega, pra a finalização de som, e da Rain para fazer a versão que passa nos cinemas digitais. 


Qual foi a sensação de ver cinema lotado no Festival do Rio?....

.. ..

Foi o melhor dia da minha vida! Nunca pensei que o filme fosse passar na Holanda, entrar em cartaz. Mas sempre quis que passasse no Festival do Rio. Pra mim, a época do festival é a melhor do ano. Assisto 40 filmes em toda edição. Quando o filme passou lá e ganhou prêmio, foi incrível! Ainda mais porque a primeira exibição foi no meu cinema favorito no mundo, o Odeon. ....


Qual a história do seu cartoon que está no ar no site da Oi?....


“O homem qualquer coisa” é sobre um garoto que tem super-poderes, e usa só para coisas como materializar catupiry na pizza de peperoni. Um dia aparece um super vilão e diz que, se ele não entrar para a sua equipe, vai matar todas as suas pessoas queridas. Ele responde: “Tudo bem, não tenho ninguém querido, não sou casado, não tenho família, fique à vontade”. A única coisa pela qual ele é apaixonado é a cultura POP. O vilão, para ameaçá-lo, começa a ir atrás de ícones como o Bono Vox, o Sylvester Stallone. E o super-herói tem que salvar essas pessoas.


Quanto tempo você leva para escrever um roteiro?


Se eu tiver fazendo só isso, uma semana. Claro que depois tem outros tratamentos, mas a primeira versão escrevo muito rápido. Só preciso estar concentrado. ....


Você passa muitas horas por dia escrevendo?....


Um tempo saudável. Gosto do que escrevo, me divirto fazendo. É como se tivesse assistindo a um filme, que está sendo construído aos poucos. Quero saber como termina, então não tem problema passar horas escrevendo. Mas se alguém me liga para ir ao cinema, dificilmente recuso. Escrevo umas cinco horas por dia. Escrevo, paro, vou pro computador rapidinho, dou uma relaxada, tem que dar um intervalinho.


Você não escreve no computador?....


Escrevo à mão. Demoro mais tempo passando a limpo do que escrevendo.


Por que prefere escrever à mão?


Meu fluxo criativo funciona melhor no caderno. Quando paro pra pensar, se estou com o caderno, fico rabiscando. Se estou no computador, não tenho o que rabiscar, aí abro o navegador, entro no MSN e me desconcentro. O fugir no computador é muito mais atrativo, você acaba se desviando da história. No computador tem um mundo inteiro querendo te atocaiar. E acho lindo ver o rabisco. Tenho o roteiro do “Apenas o fim” inteiro no caderno.


Você tem disciplina para trabalhar?....


Nenhuma. Sou muito irresponsável. Só funciono com prazo e sob pressão. Se tenho um prazo para dia 1º de julho, vou começar no dia 29, mas vou entregar.


Para o seu roteiro você não tinha prazo. ....


Tinha o prazo das férias. Até voltar as aulas eu tinha que terminar.


Você fez um filme inteiro nas férias?....


Não. Escrevi nas férias de julho em São Paulo, porque não tinha muito o que fazer, e filmei nas férias de janeiro.


Já teve bloqueio criativo?


Quando tenho e não agüento mais escrever em casa, vou para algum lugar: um shopping, um lugar movimentado, gosto muito de ver pessoas enquanto escrevo.


Com que freqüência você escreve?....


Sempre escrevi todo dia alguma coisinha, sem compromisso. Como se fosse um hobbie. É uma opção de lazer. Meu maior conteúdo de escrita é durante aulas chatas. Escrevi tanto em aulas de biologia!


Ficção ou diários?....


Ficção. Só que as minhas ficções são sempre meio autobiográficas.


Muita gente sonha em fazer coisas, mas não realiza. De onde você tirou que podia levar a cabo as suas ideias?....


Sou da política de que tem que fazer. Tenho ideias o tempo todo, e fico agoniado de perder ideia de bobeira. Me dá um nervoso de querer botar algumas delas em prática. Foi assim com o longa que gravei com R$ 4 mil para o projeto final da faculdade.


Quando começou a fazer o “Apenas o fim” tinha noção da dimensão de fazer um longa?


O meu lema era: vou fazer um longa mais fácil de produzir que um curta. Apesar da mega pretensão de fazer um longa aos 20 anos de idade, tentei em todo o resto ser pequeno, modesto e simples. Quis falar do que eu sabia, das situações que passei, as conversas que tive, dos meus amigos. Invencionices de direção e fotografia não dava. Minhas armas eram um bom roteiro e um bom casal.


Você é pirado com o “Antes do amanhecer” e  com o “Antes do pôr do sol” ou era um formato que facilitava a vida?


As duas coisas. Meu primeiro desafio era usar a câmera nas férias, dentro da PUC. Peguei esse molde, que tinha me pirado. Adoro filmes de conversa, adoro Woody Allen, “O balconista” do Kevin Smith, o Domingos de Oliveira, “Nosso amor do passado”. E adoro principalmente o “Antes pôr do sol”. O final desse filme, pra mim, é um dos melhores finais da história do cinema.


Em algum momento você achou que o seu filme não ia rolar?....


Quando a gente começou a editar, me deu um: “O que é isso? Por que fiquei tanto tempo nesses planos?” Acho que é um desespero normal.  Depois as pessoas foram gostando e me tranquilizei. É que sou muito neurótico, me cobro muito.


Como vão os ensaios de “Confissões de Adolescente”, que você está dirigindo?


É a primeira montagem que o Domingos não dirige. A peça é da filha dele, a Maria Mariana, e nessa montagem ele entregou nas minhas mãos. Adaptei o texto junto com a Clarice Falcão. A gente teve que mexer um pouco, porque as coisas mudaram muito. É complicado falar do primeiro beijo de um jeito ingênuo, quando as meninas escutam “Promiscuous girl/Wherever you are”.


Como é ser Deus, e como você roubou esse papel do Domingos de Oliveira?....


Ele me chamou para ser assistente de direção no “Apocalipse segundo Domingos de Oliveira”. Enquanto dirigia, me botava pra fazer as marcas dele no palco. Eu fazia as minhas palhaçadas. Ele foi gostando e acabou decidindo me colocar no lugar dele. Ser Deus foi muito bom.


Como você administra tudo o que está fazendo?....


Tá bem complicado. A minha vida social está anulada. Eu como no máximo um Miojo no microondas.


As pessoas confundem muito você com o Gregório Duvivier, ator do seu filme?


Já estou acostumado. Ele é me alter-ego oficial. Cada um tem o Johnny Depp que merece.


Você já é independente financeiramente?


Estou trabalhando pra isso. Mas tranquilo, tenho 20 anos, ainda tenho um tempinho.


Do que você tem medo?


De aranha.


Que tipo de artista quer ser quando crescer?


Tipo Woody Allen. Quero escrever, dirigir e atuar nos meus filmes e peças, e ser multimídia: escrever para cinema, TV, teatro, livros, revistas. E fazer filmes de todo tipo, como ele, que fez filmes de Woody Allen e filmes de Bergman, de Fellini. Mas não quero ser o Woody Allen. Quero ser o Matheus.


Você se relaciona bem com as pessoas da sua idade?


Pode não parecer, mas sou uma pessoa muito tímida, que aprendeu a falar alto e para fora no teatro. Era meio excluidinho no colégio, meio CDF, tinha meu grupinho. Hoje não sou o cúmulo da sociabilidade, mas também não sou anti-social.


Você foi fazer teatro porque era tímido?


Por isso e também porque queria ver meus primeiros textos tomando forma, sendo interpretados por atores, para ter noção de direção de ator. Achava importante, já que ia fazer cinema. E para aprender a ser ator, já que eu tinha ambições de Woody Allen de fazer tudo ao mesmo tempo.


Que pessoa focada!


Eu sou. Todas as outras coisas que me passaram pela cabeça algum dia, fora desse plano, foram sempre por causa de um filme. Teve uma época que quis ser advogado, por causa do “Advogado do Diabo”.


Quantas horas você dorme por dia?


Gosto muito de dormir. Infelizmente durmo no máximo umas seis horas. Acho isso muito triste.


Você gosta de literatura?


Gosto de autores contemporâneos. Meu favorito é o Nick Hornby. Sou fã de “Uma Longa Queda” e de “Alta Fidelidade”. Adoro Garcia Marques, Marcelo Rubens Paiva, Rubem Fonseca. Adoro quadrinhos também. Principalmente o Alan Moore, Watchmen é genial. E adoro Marvel 1602, do Neil Gaiman.


Qual o seu super-herói favorito?


O Homem Aranha.


Por que os homens gostam tanto do Homem Aranha?


Porque ele é o herói mais perto da gente. É todo perdedor, sendo um cara legal, cometendo erros, apaixonado por uma menina linda muito próxima dele que sempre está envolvida com outros caras, tem melhores amigos, defeitos. A pessoa não precisa ter nascido em Cripton, ser órfã com problemas psiológicos e dark, ser cientista e ter participado de uma experiência com raios gama, ter nascido mutante. Pra ser como ele só falta uma aranhazinha afetada geneticamente.


Como você se viciou em cinema?


Meus pais eram separados e tinha aquele esquema de final de semana. O meu pai é a pessoa mais calada do mundo. Ele me buscava, a gente passava numa locadora, alugava uns dez filmes e passava o final de semana inteiro assistindo. Por isso sou uma pessoa que gosta desde “Todo mundo em pânico”, até Costa-Gavras.


Sobre o que é o seu novo filme?


Sobre um cara que todo dia acorda com uma frase na cabeça: “Não deixe Julia ir embora”. Só que ele nunca conheceu nenhuma Julia. O formato é uma mistura de filme mudo com musical. O filme não tem captação de áudio no set. O áudio são 20 músicas que escolhi, tocando uma atrás da outra. Os diálogos aparecem só em legendas customizadas na tela. Como se fosse uma história em quadrinhos filmada, ao mesmo tempo em que você está ouvindo música. Como se você tivesse vendo um filme mudo, ouvindo música e lendo ao mesmo tempo. É um filme sobre a minha geração, que é bem isso, faz tudo ao mesmo tempo: lê um livro ao mesmo tempo em que assiste TV, ouve música e vê coisas na internet. Tentei traduzir isso num formato de filme. Como era um projeto final de faculdade achei que podia fazer uma coisa mais experimental.


O que seria de você se não escrevesse?


Acho que não faria nada bem.


June 29, 2009 - Monday 

Antigamente, quando um homem entendia que queria estar ao lado de uma mulher para o resto da vida, pedia a mão dela em casamento.

Agora, estamos tão cientes das limitações deste formato - o matrimônio -, que quando duas pessoas se apaixonam e querem uma à outra para sempre, decidem ser amigas.



June 19, 2009 - Friday 
Fernando Eiras está ao lado de Emilio de Mello em cartaz no espetáculo mais importante da temporada. Com direção de Enrique Diaz, “In on it” conseguiu uma proeza: fazer sucesso com a crítica, o público e a classe teatral. Não é à toa que a casa já está lotada até o último dia de apresentação. Para quem fez um pacto com o tempo, e fugiu do papel de galã de novelas de televisão para se tornar um ator de teatro, aos 52 anos, depois de muito ralar, a vida está só começando.
 
Como vive um ator de teatro?
 
Eu vivo do meu trabalho. Moro num apartamentinho em Copacabana, meu aluguel é muito barato, por isso consigo viver de teatro. Fiz “Fausto”, “Hamlet”, “As três irmãs” porque tenho uma vida barata, que me dá condições de ser um afortunado.
 
Viver assim foi uma escolha?
 
Definitivamente. Sou um ator que se tornou possível por causa de uma trança feita com o tempo. Sempre tive vocação e isso que chamam de talento, que é muito subjetivo, para ser ator. Mas comecei muito jovem e equivocado. Só que já sabia que precisava fazer uma combinação com o tempo para ir me tornando o que eu sou. Eu acho que a gente se torna o que é. Eu não tinha preparo, consciência de mim. Você não pode mentir para você, tem que fazer um exercício de honestidade com você todos os dias. Para um ator isso é fundamental. Na verdade, nasci aos 21 anos, quando meu pai morreu e fui fazer análise. Perdi a pessoa mais importante da minha vida, com quem comecei a trabalhar aos 9 anos, cantando. Ele era compositor, músico, radialista. Foi ele quem me apresentou ao Ziembinski, em 1975, quando eu disse, aos 18 anos, que queria ser ator. O Zimba era diretor artístico na TV Globo e pegou um estúdio pra gente passar a tarde fazendo exercícios. Quando acabou, me disse: “Você tem que fazer teatro. Já está tudo aí, mas você é um ator que vai fazer uma história com o tempo, com ele você vai se tornar o que quer ser. Você escolheu a segunda parte da vida”. Ele tinha razão. Fui me tornando possível na medida em que fui trabalhando e amadurecendo. Todo ator precisa desenvolver essa parceria com o tempo. Você vê grandes atores com talento nato que, com o tempo, vão perdendo o sopro da inspiração - porque isso é uma coisa que você pode perder a qualquer momento. Essa é a imagem do artista na corda bamba de sombrinha, sem rede de proteção. Porque ele está lidando com uma coisa muito subjetiva, que é essa faísca que incendeia.
 
Quem mais foi importante na sua formação?
 
O Rubens Correia e Ivan de Albuquerque foram meus mestres. Não há uma noite em que entre em cena, que não evoque a figura deles. Quando os dois morreram, fiquei muito deprimido, mas o destino veio com o Kike [Enrique Diaz]. Tem também o Hélio Eichbauer, que está o tempo todo ensinando, acendendo faíscas para as pessoas incendiarem. O Enrique vem me trazendo, me dando um lugar. São pessoas que vêem coisas que só a gente sabe que é, e que tem. A gente é tão grato por isso! Porque você tem a sensação de que vale alguma coisa, de que existe. É muito bom trabalhar com o Kike, porque me ajuda a ficar aqui, a preencher meus espaços. O Teatro Invisível do Peter Brook, dos anos 1960, fala muito do preenchimento. Nos escapa muita coisa durante os nossos dias, a gente deixa de preencher muita coisa. No teatro você tem essa chance, de tornar visível o que não se vê. Geralmente o ser humano costuma a não acreditar no que não vê. O teatro é um lugar onde a gente trabalha com a fé no invisível.
 
Como aconteceu o seu encontro com o Enrique Diaz?
 
Eu tinha feito “Chica da Silva” com a Drica Moraes e, no final da novela, ela me deu uma viagem para o ashra da Gurumai, para eu ficar um mês em silêncio. A astróloga Maria Eugênia de Castro disse que eu teria um casamento quando voltasse. Encontrei o Kike no avião, e ele me chamou pra fazer “As três irmãs”. O convite era para fazer o irmão. Li o texto e disse: “Não sou o irmão, sou o Barão. Porque ele está do lado de fora, pra sempre”. Depois ele me chamou pra fazer  “Melodrama” numa viagem pra França, Espanha e Portugal. Eu tinha acabado de fazer o Nietzsche no cinema e estava completamente absorvido. Fugi do Julio [Bressane] por muito tempo, quando ele me chamou. Ninguém pode fazer o Nietzsche! Eu não fiz. O que fiz foi deixar uma fatia minha ali. Para isso passei um ano estudando. Depois o Kike fez o “Coletivo Improviso” e fui para a França, no meio de um bando de loucos. Na volta, me chamou pra fazer o “Ensaio. Hamlet” e agora me veio com o “In on it”.
 
No seu trabalho existe uma vulnerabilidade incrível. Qualquer coisa pode afetar seus personagens, a qualquer momento. Que lugar é esse que você se coloca, que permite isso?
 
Só consigo fazer assim. Se quisesse, podia ser músico. Sou cantor. Mas quis fazer teatro pra complicar a minha vida. Achei que se fosse fazer música ia ficar tão isolado, tão excluído, que resolvi fazer teatro pra me comunicar com as pessoas.
 
Por que isolado e excluído?
 
Eu tenho pavor do ser humano! Tenho medo de gente. A aproximação do outro pra mim é uma coisa avassaladora! Gosto de estar com amigos íntimos. Mas se tiver mais de dois, já é um problema pra mim. Tenho essa paranóia. Foi por isso que resolvi fazer teatro, acho que eu tinha que desenvolver alguma coisa nessa encarnação.
 
O que você tinha que desenvolver?
 
A ponte com o outro. Aí vem o Nietzsche. Ele diz que nós somos todos ilhas, cada um de nós é uma grande solidão, e, entre nós, existe um abismo. Mas alguns lançam pontes para os outros, e atravessar essas pontes é que é viver.
 
Esse lugar onde você se coloca em cena, é um lugar de risco?
 
O ator tem vocação pra se exibir. É claro que você escolhe como faz e também como apura isso, porque não pode deixar que as pessoas percebam quem você é. Você não interessa para a platéia. Essa é a liberdade de atuar: conseguir se livrar de você. Só que esse lugar de se livrar de si é vulnerável. Se eu não me vulnerabilizo, a interpretação não se dá na sua forma mais preciosa.
 
É preciso muita coragem para conseguir ficar nesse lugar. O menino que você faz no “In on it” é surpreendente porque é forte, em meio ao desamparo.
 
O ser humano é muito desamparado. Com o menino, penso muito na situação desamparada em que o ser humano vive. Não há uma pessoa que eu olhe e diga: essa não é desamparada. É incrível essa coisa do ator de fazer um trabalho onde morre um pouco. Mas ele tem essa necessidade. A peça diz isso: “Algumas coisas terminam, outras simplesmente param”. Às vezes a vida precisa que algumas coisas parem para ela continuar. Às vezes eu preciso morrer um pouco em cena, para continuar. Acho que tem a ver com me livrar de mim. Você absorve uma serie de coisas, e constrói outras, pra poder suportar a vida. Mas adquire muitas coisas inúteis, também. E se confunde com elas: coisas dos pais, que nos ensinaram, que magoaram, ressentimentos. Ressentimento não é uma palavra boa para um ator. É um inimigo. Se livrar de si tem a ver com se livrar dos ressentimentos. Porque a cena te obriga a viver o momento já, como dizia a Clarice Lispector. Você tem que preencher aquele momento inteiramente. Tem que estar inteiro ali. Não pode ter uma parte sua pensando, preocupada, ou ameaçada... qualquer ressentimento, qualquer coisa que aconteça paralela à situação cênica atrapalha, e o público não vê a coisa inteira. Preencher tudo é impossível, na vida. Por isso o teatro é difícil, ele pede que você preencha tudo, o que é quase insuportável. Por isso o Nietzsche tem a ver com o teatro, porque a palavra dele é afirmação. Afirmar tudo. Então, se você tem cagaço, você tem cagaço: eu tô aqui com cagaço. Eu tô aqui com medo. Eu tô aqui com coragem. Eu tô aqui.
 
Recentemente você foi convidado pela Arianne Mnouchkine para trabalhar no Theatre du Soleil, na França. Já marcou a sua passagem?
 
Ela veio ver “A Noviça Rebelde”, e disse: “Estou te convidando para se tornar um funcionário do governo francês. Você vai ganhar um salário de 2 mil euros, e se tornar um ator do Theatre du Soleil, por três anos. Estou te convidando para sonhar comigo. Nós temos uma vida cigana.” Eu voltaria ao Brasil em 2012. Resolvi não ir, porque não tenho 30 anos, tenho 52. Sou um ator em português. É o recurso da gente, a palavra. Eu ia ter que inventar uma outra cartilagem. E, com 2 mil euros na França, ia ter uma vida de hippie. Outro dia a Maria Padilha me disse: “Você é hippie”. Você sabe o que é ter a Arianne na sua frente dizendo “Vem comigo”? Ela nunca chamou um ator para trabalhar no Theatre du Soleil. “É uma vida de ciganos”, ela disse. Aí finalmente vi que não sou hippie. Porque preciso comprar um apartamento em alguma hora, preciso que a minha profissão dê um lugar de conforto para o meu aparelho. Pra mim não, porque viver é se angustiar, não tem jeito. Não há como viver sem angústia. Conforto é uma palavra risível, nessa questão existencial. Agora, você precisa de conforto para o aparelho.
 
Você já fez o Mefisto, no “Fausto”, de Goethe. De onde tirou o seu diabo, que era um malandro?
 
É claro que o Moacir [Chaves] me ofereceu primeiro o Fausto. Sempre me oferecem o bom. Aí eu digo: “Não sou o bom, sou o mau!” Acho que o Mefisto que fiz é uma memória que tenho do Zé Pilintra. Meu pai foi a primeira experiência teatral da minha vida. Ele era um homem dos anos 1940, com espírito do século XIX. Trabalhava no rádio, fazia shows, de terno e gravata, muito elegante. Mas tinha um centro espírita chamado “A caminho da luz”, onde recebia as entidades dele. Uma delas era o Zé Pilintra, um exu dionisíaco, malandro, de terno branco e chapéu Panamá. Meu pai era um homem seríssimo, recatadíssimo, e quando recebia as entidades, virava aquilo. O Zé Pilintra, dançava com uma leveza, um vigor, rindo, com aquele charuto na boca! A primeira aula de teatro que tive foi num centro espírita.
 
Você fala sozinho?
 
O Emílio diz que sempre me via andando na rua, depois do ensaio. Ele vinha de bicicleta, e, de longe, já sabia que era eu pela discussão. Discuto comigo alto: “Você não sabe fazer essa peça! Por que eu resolvi fazer essa peça? Podia estar em casa, quieto! Não resolveu fazer?, agora faz!” Falo sozinho, com a maior convicção. Acho que a pessoa que não fala sozinha não é normal.
 
E essa diplopia que você arrumou, vem de uma briga com você?
 
No “In on it” eu e o Emílio somos sempre quatro em cena: os atores e os personagens que fazemos. Enquanto não vi dois do Emílio, não sosseguei. Acho que inventei de propósito essa diplopia. A Cacilda Becker dizia: “Fazer teatro é uma temeridade”. É realmente um perigo, e você tem que trabalhar com ele.
 
Qual é o perigo?
 
É cair do trapézio e se estabacar no chão.
 
Isso é uma fantasia.
 
É uma fantasia real. Por exemplo: é impossível fazer o Tchekhov sem perigo. Porque você vai ter que habitar aquele lugar que ele propõe. Onde a vida escorre pelas mãos o tempo todo. Onde você tenta pegar a vida como se ela fosse um fio de nylon com manteiga. Você não consegue segurar aquilo, a vida está passando. O Loyd, o menino que faço no “In on it” diz numa cena: “Todo mundo está morrendo”.
 
Nessa sua trança com o tempo, enquanto ela ainda estava no início, você tinha pressa, angústia, raiva, ansiedade?
 
A trajetória vai ajudando a gente a melhorar. O Rubens dizia: “Se você faz teatro, ou melhora como pessoa, ou piora muito. E se piora como pessoa, piora também como ator”. Se você melhora seus recursos humanos, melhora como ator. É uma maneira de eu ter uma intenção existencial. Quero melhorar. Sou casado com o teatro. E qual é a melhor coisa do casamento? É que o outro te dá chão, proximidade, feedback. É alguém que diz as coisas que você tem que ouvir com amor, porque quer o melhor para você. O teatro diz isso pra mim. Quando você está com outro em cena, precisa desenvolver essa ponte com as suas ambições artísticas o tempo todo, para que as suas imperfeições humanas fiquem no lugar delas, e não atrapalhem a obra. No trabalho criativo você inventa um lugar pra viver.
 
Para o tio Max e para os personagens de “In on it” você aciona coisas diferentes?
 
 “A Noviça Rebelde” era uma superprodução musical. É claro que não tenho o mesmo exercício fazendo um trabalho assim, como tenho com o “In on it”, que é de absoluta entrega, onde sou absolutamente inteiro e verdadeiro com o Emílio, e ele comigo. Um ator nunca engana quem está em cena com ele. Se há uma pessoa que você conhece, é a que está em cena com você.
 
Você já tinha trabalhado com o Charles Moëler e o Claudio Botelho antes de “A Noviça Rebelde”?
 
Eles já tinham me chamado para fazer a Geni, da Ópera do Malandro, em Portugal. Fiz uma mistura de Rogéria com Carmem Verônica e Marília Pêra, que andava como a Bette Midler. Tenho 1.84m botava um salto de 15cm e virava uma bicha imensa. Adorava cantar a Geni. Sou grato a eles por me darem esses dois personagens. Eles gostam de mim. Quer dizer, não sei se ainda gostam, porque deixei “A Noviça Rebelde pra fazer “In on It”.
 
O “In on It” vai continuar depois da temporada no Oi Futuro?
 
A gente está precisando de patrocínio para continuar. No Brasil, não basta ter a consagração da crítica e do público, que lota o teatro até o fim da temporada, dois meses antes dela acabar. Porque a peça vai acabar no dia 28 de junho, e, se não conseguirmos um patrocinador, não temos como mantê-la viva. A gente tem um convite do Teatro dos 4, mas precisa iluminar o palco, divulgar. O Enrique Diaz está tentando. Não é possível que essa peça saia de cartaz porque a gente não tem dinheiro para mantê-la. 
May 23, 2009 - Saturday 

Current mood:  adored





Comemorando, ainda que tardiamente, 20 mil entradas nesse blog.


Acho muito, acho lindo, acho um luxo.


Muito obrigada aos meus leitores.


Solidão, que nada!






May 23, 2009 - Saturday 




Pense rápido:

O que é maior:

A sua coleção de palavras ditas ou não ditas?






Salve Harold Pinter.

May 20, 2009 - Wednesday 

Margaret Atwood disse: “Querer conhecer o artista porque gosta da obra, é como querer conhecer o ganso porque gosta de foie gras”. Sempre fugi de Caetano Veloso com medo de não encontrar o gênio que fez a trilha sonora da minha vida, e dar de cara com um patê. Bobagem. Ele é dulcíssimo e generoso. A irreverência que marcou suas entrevistas ao longo dos anos, eu não encontrei. Talvez por incompetência minha. Ou porque Caetano esteja vivenciando sua própria poesia, e tenha se tornado o rei dos animais. Conversamos duas semanas antes da estréia de “Zii e Zie”, que acontecerá dia 8, no Canecão. Do lado de fora, raios piscavam como numa boate. Dentro da sala, era o Abaeté.

 

Suas músicas têm dois personagens distintos: um cerebral com uma ligação muito clara com a poesia, a construção; e um solar, mais fácil e leve. Quando é que cada um deles se manifesta?

Eles são concomitantes. Às vezes uma canção caminha mais para ser uma vivência irresponsável, e outras para ser uma afirmação responsável. O ânimo que estou em relação a fazer a canção naquela hora é que pode levar para “Perdeu” ou para “A cor amarela”.

 

“Cinema Transcendental” me parece seu único disco totalmente solar.

Mas não tem a “Cajuína”? Essa canção é solar, mas é bem reflexiva. Começa com uma pergunta: “Existirmos - a que será que se destina?”

 

Muito cedo você saiu de Santo Amaro da Purificação determinado a dominar o Brasil e com muita convicção nas suas idéias. A educação que recebeu dos seus pais foi importante para isso?

Eu tava mais decidido a dominar o Brasil do que a sair de Santo Amaro da Purificação. Meus pais foram maravilhosos. Meu pai morreu com 82 anos, tendo sido muito saudável até ter um câncer de próstata e morrer. Era muito lúcido, sensato e aberto para as mudanças do mundo, e para o desenvolvimento pessoal de cada filho. Era um sujeito espetacular. Ele que deu o tom do negócio todo, lá. Minha mãe o acompanhava 100% e está viva até hoje, com 101 anos, lúcida.

 

Você acorda e dorme tarde. O que faz durante a noite?

Sempre acho o que fazer. Mesmo que não encontre ninguém, não faça nada, prolongo uma leitura, ligo a televisão ou vou para o computador e fico sem vontade de dormir. Tenho que me driblar para me por na cama, fechar os olhos e tentar dormir.

 

Você acha que deu sorte ou foi você quem fez a sua vida?

Minha vida é um pouco enviesada. Eu não me via trabalhando com música. E demanda um esforço particular ter admitido isso, porque não tenho talento espontâneo muito amplo nem muito profundo pra música. Isso causa um tipo de questão que muitas vezes tentei evitar totalmente, abandonando a atividade musical.

 

O seu gosto é mais pela palavra?

Primeiro era pelas imagens. Gostava de desenhar e pintar. Mas sempre gostei de cantar canções, e gosto. Aprendi cedo as letras todas, gostava de poesia, e gosto muito de prosa de ficção.  No meio da adolescência, com 14 anos, li um conto de Willian Saroyan que se chamava “O jovem audaz no trapézio voador”. Ele estava jogado na casa de minha mãe, que não tinha muitos livros. Me impressionei muito com as liberdades formais que tomava. Ele dialogava com o leitor, comentava o próprio texto, mudava de planos de narrativa. Fiquei maravilhado, achei que aquilo estava me convidando para alguma coisa. Depois comecei a gostar de arte moderna e pintura abstrata. Também tocava um pouco de piano e cantava todas as músicas que ouvia no rádio. Mas não tinha aquela percepção harmônica que você encontra em Edu Lobo, João Bosco, Gilberto Gil ou Milton Nascimento. Eu gostava, mas para mim era uma coisa diletante, e pensava em ser pintor. Quando fui crescendo, passei a adorar cinema. Ia todo dia. E decidi que queria fazer cinema. Isso foi o que eu mais quis. A música popular terminou me pegando porque compartilha com o cinema a natureza de arte popular de massas. Eu queria fazer cinema porque matava a sede da criação visual, podia ser uma criação literária porque você pode escrever o texto, e, além de fazer uma espécie de música com imagens, você ainda adiciona música propriamente dita. Eu achava o cinema o meio de expressão ideal pra mim. Ainda acho.

 

Como foi fazer o “Cinema Falado”?

Gostei muito. Fiz como experiência para ver como eu me dava no set de filmagem, na moviola e me senti maravilhosamente bem nos dois ambientes.

 

O diretor de cinema também tem que ser um puta administrador. Você se deu bem como administrador?

Aí chega o problema. Não tenho muito talento pra música, tenho certeza que teria, se desenvolvesse, muito mais talento pra cinema. Foi muito mais fácil fazer um filme do que fazer música – do ponto de vista da criação. Agora, eu não tenho vocação pra vida de cineasta: administrar muitas pessoas, e a minha expressão ter que passar por uma serie de questões técnicas. Embora eu seja limitado no talento, a vida de músico realmente foi desenhada pra mim. Posso fazer uma música sozinho no meu quarto, não preciso de ninguém nem de nada. Gravar é outra coisa: tem administradores para a gravação. Depois tem o seguinte: fazer os shows é muito gostoso, mas estar numa sala de projeção onde está passando um filme seu é horrível. Não sei se fiquei traumatizado porque fui muito agredido quando meu filme foi lançado. Com 10 minutos de projeção um cara começou a me xingar. E ali, no filme, estavam minha mãe, meu irmão, meus amigos de infância, minha mulher de quem eu estava me separando, minha namorada com quem eu estava começando a conviver. Eles estavam na platéia enquanto vaiavam e xingavam. Eu me senti jogando as pessoas que mais amo para as feras imbecis.

 

Você já não foi vaiado cantando?

Fui, muito. Mas aquilo sou eu. Eu não me incomodo de ser vaiado. Quer dizer, me incomodo, mas reajo.

 

Você fez ou faz coisas na vida pra provocar?

Todas essas coisas que fiz são afirmações de aspectos fundamentais da minha pessoa. Nada foi pensado para provocar. Agora, eu nunca fui burro de pensar que essas coisas não pudessem causar alguma comoção. Mesmo porque eu tava fazendo para quebrar certos padrões de visão do comportamento humano que me oprimiam. Muita gente reclama de mim, tem raiva e se sente decepcionada porque afinal de contas vê que meu desejo profundo era ser um Ari Barroso, um Cole Porter, um Blake Edwards, um autor de peças populares bonitas, aceitas e consagradas por todo mundo. Esse negócio de provocar para causar escândalo não era o meu alvo. Meu desejo é agradar.

 

No seu blog você declarou que está entrando na velhice. É engraçado, porque você é muito jovem.

Não sou. Eu, de fato, tenho 66 anos.

 

Na sua alma você tem 66 anos?

Não acredito em alma. A gente tem um organismo que envelhece. Nunca tive nenhuma jaça na visão, sempre enxerguei perfeitamente nítido. Comecei a usar óculos pra ler, e agora preciso até pra conversar. Tenho cabelo branco. A minha pele não é mais a mesma. Isso é velhice.

 

Isso entra em contraste com o que você pensa e sente?

Não que entre em contraste, é um fato. Não estou horrivelmente incomodado nem infeliz por causa disso. Acho muito ruim as pessoas depositarem todas as ideias negativas a respeito da vida e do sentimento do mundo na velhice. Isso é que está errado. Muitas vezes o período mais infeliz da vida de uma pessoa foi aos 20 anos. Ela pode ter 85 e ainda estar feliz de ter superado o que superou aos 20, e ainda por cima feliz por outras realizações que teve aos 60, e pode morrer feliz. Nada impede. Não se pode botar tudo na conta da velhice. Mas não se pode negar a decadência natural que ela implica. Essa coisa de dizer que o espírito é jovem então a pessoa não é velha, eu não entendo. Não existe espírito. A pessoa envelhece e envelhece. Não estou dizendo que não haja distinção entre o espírito e o corpo. Há. Mas não existe espírito sem corpo. A velhice é um acontecimento fatal pra todo mundo, que modula a vida espiritual de uma forma ou de outra. Afirmar uma vivência interna de juventude é um sinal de movimentação do espírito para se adaptar à velhice.

 

Por que nesse momento específico da sua vida você escolheu ser produzido pelo Moreno, e tocar com uma banda de amigos dele?

Sou amigo do Pedro Sá desde que ele era criança. O Moreno ficava dormindo e ele, com insônia, me encontrava na sala tocando violão e vinha conversar. Depois de grande, ele se tornou músico. Nós fizemos dois projetos juntos antes desse. Desenvolvemos muitas ideias a respeito de música e planejamos fazer um disco de rock com heterônimos, com a minha voz transformada. Ia ser um disco que faríamos escondido. Mas não sou bom de guardar segredo. Depois terminamos fazendo o “Cê” com muitos elementos desse disco que não foi feito. Fiz o repertorio, mostrei ao Pedro, e disse pra ele escolher os músicos. Ele me apareceu com esses dois meninos quase 10 anos mais novos que ele. Podia ter chamado músicos de 50, 60 anos, e a gente faria com essas pessoas.

 

Você não bebe nenhum tipo de álcool, nem se droga, por quê?

Não gosto. Do álcool por causa da ressaca, e de maconha, LSD, êxtase ou cocaína pelo sofrimento imediato que me causa.

 

Você tem bad trips?

Eu só tenho bad trip! Tomei ayahuasca em 1968 e fiquei um ano parecendo que ia ficar maluco, um sofrimento horrível. A primeira vez que fumei maconha, quando passou a angústia, depois de horas, parecia que estava com febre, coração batendo mais rápido, meio delirando. Eu tava bem, saudável, vou fumar uma coisa pra ficar me sentindo doente? E cocaína é o seguinte: dura muito pouco e logo você fica a pessoa mais triste que o mundo já viu. Tenho horror à cocaína, acho que a pessoa quando cheira fica chata. Cheirei há muitos anos, para poder dizer que experimentei. De cara, não gostei do barato. Depois, quando foi passando, aquilo me deu uma tristeza horrível, um mal estar físico, mental, emocional, tudo ao mesmo tempo. Eu disse: “Dedé, isso, nunca mais!”

 

Você já escreveu: “Não me amarra dinheiro, não/ mas a cultura/ a pele escura/ a carne dura. Nos últimos anos o mundo deu uma guinada radical em direção ao dinheiro e às aparências. Como você lidou com isso?

Quando começou uma cultura do lucro, que o pessoal chamou de neoliberal, eu só me lembrei de São Francisco de Assis. Anos depois, o Toni Negri escreveu um livro chamado “Império” que termina invocando São Francisco de Assis. A idéia de acumulação, do lucro, muitas coisas que estão no capitalismo, são maneiras de expressão de estruturas importantes da condição humana. Mas eu nunca acreditei num mundo movido somente pelo desejo de lucro. Não faz sentido pra mim, sei que não é assim.

 

Seus grandes hits populares, os que tocam em novelas, são de outros compositores. Como pode uma coisa dessas acontecer com um compositor que reflete tanto o seu tempo?

Não é verdade. Novela tem muita música minha. Não sei se é necessariamente bom, mas acho que sou campeão de tema em novela. Mas realmente o maior hit de vendagens foi num álbum chamado “Prenda Minha”, puxado pela canção do Peninha: “Sozinho”. Esse disco vendeu mais de 1 milhão de cópias. As músicas de outros compositores que gravei eram canções para as quais eu queria chamar a atenção. E chamei.

 

De onde veio essa liberdade que você tem?

Eu não me sinto assim tão livre, não.

 

As músicas que você fez ao longo da vida para a Gal, foram compostas especialmente, ou ela é seu alter-ego feminino?

Fiz pra ela. Adoro o jeito dela cantar. Gal tem uma coisa sublime, que transcende, e isso precisa ser redimensionado, porque está um pouquinho esquecido.

 

Uma vez eu ouvi a Bethânia dizendo: “Ele faz músicas para Gal, mas não tem problema porque Chico faz para mim”.

Pois é, ela gosta mais de Chico do que de mim. Então, estamos quites. Bethânia gosta de ciúmes, faz parte do charme dela.

 

Você ainda é Neguinha?

Aquilo é uma pergunta. O Arto Lindsay me mandou de NY uma foto de uma menina mulatinha americana linda, com uma guitarra, que era o cartaz do próximo disco do Prince. E escreveu em cima: “Eu sou neguinha?” Vou cantar essa música nesse show. A pergunta segue.

 

Faltaram perguntas instigantes nessa entrevista?

Isso é chato! Uma vez um jornalista tentou várias coisas pra me irritar. Eu estava na Bahia, no verão, e fiquei explicando milhares de coisas à ele, na maior tranqüilidade. Depois ele falou: “Puxa, como você é calmo”, e me mostrou um fax do editor que dizia: “Tentar irritá-lo ao máximo!”.




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Zii E Zie
By Caetano Veloso
Release date: 2009-04-14