A GRAÇA DA HISTÓRIA...
(*)Homenagem pelos 3 anos da partida de meu Pai..
Uma breve Biografia...
Por Monique Barcellos
Costureira neta de xavantes,
tímida, reservada e carinhosa, Dona Almerinda era dona de fala mansa e vida
simples, sem vaidades: assim Osvaldo Barcellos Filho nasceu no bairro do
Humaitá, no Rio de Janeiro em 05 de março de 1943. A típica “Amélia” não
suportaria as saídas e noitadas do marido, Seu Osvaldo, até que “Dinho”
completasse 13 anos de idade. Com a irmã Dida (Elis) 3 anos mais velha e a mãe,
o filho caçula, desde cedo passava a colaborar com o sustendo da família. Seu
Osvaldo, pai rebelde, logo se tornara
ovelha negra, o renegado da esposa e por muito tempo também dos filhos.
Não seria tão fácil nem tão difícil para eles, se desligarem do pai e marido
boêmio, motoqueiro, mulherengo.
O tempo passou e Osvaldinho
também seguia criado pela mãe, pela tia, cercado de primos, trabalhando como
podia. Estudou na Escola México, em Botafogo, quando criança. Jovem conheceu a
estudante Lina, com quem flertava da calçada sempre que passava pelo Largo dos
Leões. Fazia curso técnico em eletrônica e namorava “um brotinho” em cada vila.
Mas foi a professora e estudante do Pedro II crescida nos arredores quem chamou
sua atenção. De personalidade forte, bom humor, determinação e independência
era feita a “Lininha”. Não era novidade que aos 16 anos ela estivesse se
formando no ginásio e namorando aquele charmoso rapaz de 17 do Humaitá, criado
em Vila Isabel e frequentador de Lapa e Botafogo. Passadas as turbulências de
namoro de 3 anos, ficaram noivos outros 9 anos. Início da década de 60, Osvaldo
com seus 20 e poucos anos já tinha iniciado como jornalista e Lina, a faculdade
de Letras.
Passaram pela Ditadura juntos,
ela líder do movimento estudantil e ele jornalista recém-chegado ao Diário
de Notícias. Casaram no dia do AI-5, às voltas de uma batalha e refugiaram-se
em Minas Gerais, para passarem a lua-de-mel. (Imaginem uma cena da noiva sendo
revistada antes de subir no altar, e as caras pálidas dos convidados durante a
cerimônia). Lembram do pai boêmio?? Apareceu para cumprimentar os noivos a
convite da nora, com os parceiros de Samba da Lapa, vindos do Nordeste há 10
anos, o amigo Jackson do Pandeiro com a esposa Almira. O padre desapareceu
depois da cerimônia e reza a lenda que foi seqüestrado pelos milicos. Estariam
de volta semanas depois, casados, ela com suas poesias e ele com suas
reportagens.
No ano seguinte nasce o primeiro
filho, Marcus Vinicius e dois anos depois o então caçula Claudius Valerius. Os
anos 70 foram inspiradores para o pai jornalista, que prosperava participando como jurado em programas de
calouros de Flavio Cavalcante, ao lado de Elke Maravilha e Araci de Almeida. A
família passava fins de semana em Araruama, na Região dos Lagos, na casa dos
pais da professora Lina, Seu Antonio, legítimo português e Dona Galdina. Osvaldo
ganhava destaque como jornalista na área de Educação, mas não escondia seu
hobby por futebol e o interesse por política.
Os anos 80 renderam os verões e
finais de semana na nova casa de Saquarema, que poucos anos depois foi berço da
maior surpresa: a chegada das gêmeas. Aos 40 anos de idade Lina era Diretora de
uma Escola e assim seguiu grávida. Aos 41 anos Osvaldo tinha fundado a Rádio
Serramar e um jornal local. Cobria as sessões da Câmara Municipal e comentava
os jogos do Barreira F.C. (Hoje Boa Vista F.C.) e do Saquarema F.C. Regados a
churrascos em casa com o time todo. Dona Lina que não ficava lá muito
contente..
Seguiram com vários trabalhos até
o final dos anos 90, quando Osvaldo se viu baqueado pelo Diabetes. Passou a
contar com o trabalho da filha Monique, então com 16 anos, que entre o colégio
e o escritório começava a colaborar com Direção de Arte. O filho Marcus,
cursava Engenharia Química e comentava na coluna esportiva.. Os próximos anos
seguiram com mais sacrifício e turbulência familiar, mas também com muita garra
e pouca grana.
Os filhos sempre tiveram aulas de
Letras com a professora Lina, durante boa parte dos estudos, cada um na sua
época de ginásio. Se a família ousava se dispersar o patriarca vinha com o
discurso de aliança. Desde que as funções se subdividiram entre a família, já
era difícil saber quem cuidaria de quem, mas fato é que a Dona Lina mostrava
muitas vezes, por anos, toda sua força e liderança, até com certo
autoritarismo. As brigas aconteciam, fruto de várias personalidades fortes no
mesmo convívio. Um filho engenheiro, o outro advogado, duas universitárias. A
típica família perfeita? Nada disso.
Aprendemos a viver tendo que
conviver com momentos caóticos e dramáticos. O que posso deixar aqui, na primeira
pessoa, é que minha maior herança foi o ensino de meus pais, não só com o dom
das palavras, mas com o amor diante das dificuldades. Com a amizade gerada da
dor, com o elo de compaixão entre pai e filha que juntos superaram choques de
gerações, adornos sociais, sermões acalorados. E deu licença ao lúdico, ao
rotineiro e indispensável, a uma ciência de resignação com afeto...
Hoje eles têm uma filha DJ e a
outra, como já era de se esperar, seguiu seus passos: Jornalista e Poeta. A
presença ou ausência de nossos pais por conta de trabalho nos lembra que nada
ficaria por dizer, e certa vez ele me disse o quanto ficou feliz com essa
notícia de herança profissional em pelo menos uma da prole. Como é bom poder
dizer tudo e mostrar tudo o que se sente para quem amamos.. Não é fácil dizer
tudo sem precisar dizer TE AMO.
Aprendemos que a lembrança de um
fatídico dia até dói, mas não deve apagar a lição de anos. Os sambinhas, as
histórias, as frases de afeto, as brigas, o sentido de base de caráter em
família, apesar de todas as falhas pessoais. O amigo, confidente, o que se
deixou amar e saber o que é o amor sem hierarquia, sem gênero, porém com toda
entidade de Pai ciumento, que deixava eu perguntar qual filho deu mais trabalho...
Qual trabalho deu mais frutos...
Tudo quase ingênuo de tão lúdico.
Quase sereno de tão certo.. Teve escolhas e falhas. Teve e sempre terá nosso
Amor. Terá seu nome e lições passadas adiante com a mesma intensidade, com a
mesma paixão com que nos foi mostrado. A cada doce no par ou impar. A cada
diagramação e transmissão da cabine do estádio.. A cada cafezinho na rede. Jogo
do Vasco, praia sem mergulho de cabeça.. Por cada vez que deixava eu vê-lo
aparar a barba, dobrar os lenços, brincar com as roupas bregas, ou quando ele pedia
pra eu colher as flores para presentear Dona Lina, até o 37° aniversário de
casamento.
Em 27 de junho de 2006, aos 63 anos, Osvaldo Barcellos Filho teve uma complicação
no quadro de Diabetes e deixou esposa e 4 filhos, muitas histórias e emoções...
Eu tenho saudade de uma época que
o Sr. marcou. Dos valores, de paciência, de eu ter sido uma criança feliz por ser
de uma família que você e nossa mãe construíram. De hoje ser uma mulher de
verdade. Todo dia agradeço e reconheço. Saudade do Sr., também, mas talvez
menos, porque está e ficará sempre em minha vida. Por isso mesmo, essa história
não acabou por aqui, porque uma árvore tem seus ramos além da raiz.. E também
floresce.. A GRAÇA DA BELA HISTÓRIA É TER INÍCIO E NÃO TER FIM.
(MEUS PAIS: Formatura da Professora Lina, minha mãe)
(Meados de 60)

(Casamento no dia do AI-5)
(Meu primeiro pedaço de vida e de bolo - 7 anos meu e da Dri)
(Irmãos e a sobrinha - Filha do Marcus)
Poesia SAUDOSA CADÊNCIA feita ano passado..
(MNK)